Juros elevados e o avanço dos investimentos em inteligência artificial dividem o protagonismo nas decisões de alocação temática dos gestores. É o que mostra a primeira edição de uma pesquisa da XP sobre fundos temáticos, que consultou 37 gestoras com mais de US$ 5,5 trilhões em ativos sob gestão.
Segundo o levantamento, 38% das casas apontam os juros elevados por mais tempo como a força macroeconômica de maior impacto sobre a alocação temática. Outros 38% citam a aceleração do ciclo de investimento em IA e infraestrutura digital. A fragmentação geopolítica e a reconfiguração das cadeias globais aparecem na sequência, com 16%.
Para a Análise de Fundos da XP, os resultados mostram que “a IA deixou de ser apenas uma tese setorial e passou a ser tratada como um vetor macro por si só”, com capacidade de influenciar “produtividade, capex agregado e até a dinâmica de inflação e juros”.
Apesar do custo de capital mais alto, 51% das gestoras afirmam que os juros afetam a precificação, mas não alteram a convicção nos fundamentos das teses estruturais. Outros 16% reduziram a exposição a temas mais sensíveis às taxas, enquanto parcelas iguais consideram que os temas de longo prazo ultrapassam o ciclo monetário ou aumentaram o peso de estratégias com mais carrego.
Gestoras veem ciclo de IA em maturação
A percepção predominante entre as casas consultadas é de que o ciclo de investimentos em inteligência artificial está em maturação. Para 51%, a infraestrutura está sendo construída e as aplicações começam a gerar resultados. Outros 32% ainda avaliam que o tema está em fase inicial, enquanto 14% enxergam um “pico de hype”, com valuations descolados dos fundamentos.
Na cadeia de valor da IA, a infraestrutura concentra as principais convicções. A infraestrutura de computação, que inclui semicondutores, GPUs e hardware especializado, foi citada por 59% das gestoras. Já a infraestrutura física, como data centers, energia dedicada e refrigeração, recebeu 51% das menções.
As empresas que adotam IA com ganhos de produtividade aparecem em 38% das respostas. Aplicações e softwares com IA embarcada foram citados por 19%, enquanto modelos fundacionais e plataformas receberam 11% das menções. Ao mesmo tempo, 22% das gestoras afirmam não ter convicção clara em uma camada específica da cadeia.
Nos temas adjacentes, 57% preferem “concentrar em IA e não diluir a exposição em cibersegurança ou robótica”. Outros 32% tratam cibersegurança e robótica ou automação como posições complementares à tese central.
Energia e minerais críticos entram no radar
No setor de energia, redes elétricas e infraestrutura de transmissão lideram as preferências para os próximos três a cinco anos, com 46% das menções. Armazenamento de energia aparece com 35%, seguido por energia nuclear, incluindo pequenos reatores modulares, os SMRs, com 32%.
Segundo a XP, a hierarquia está relacionada à “demanda elétrica crescente dos data centers” e à maior convicção dos gestores na infraestrutura física ligada à inteligência artificial.
Em minerais críticos, 57% das gestoras monitoram o tema, mas ainda não possuem posição relevante. Outros 22% têm exposição direta a mineradoras ou exploradores, enquanto 22% mantêm o risco de commodities fora da abordagem temática.
O risco geopolítico é visto como uma oportunidade por 54% das casas, que apontam possíveis benefícios para produtores alternativos fora da China. Para 16%, o risco ainda é subestimado pelo mercado, e 11% consideram que ele já está refletido nos valuations.
GLP-1 perde assimetria na visão dos gestores
Na área de saúde, 38% das gestoras não tratam o segmento como uma tese prioritária na alocação temática. Entre as que investem no tema, GLP-1 e metabolismo lideram as menções, também com 38%, seguidos por biotecnologia e oncologia, com 32%, e longevidade e envelhecimento, com 30%.
A pesquisa mostra ainda uma revisão da tese de GLP-1. Para 35% das casas, “não há mais assimetria relevante no tema”, enquanto 30% seguem monitorando sem terem iniciado uma posição.
A exposição efetiva permanece minoritária e concentrada de forma indireta. Segundo o levantamento, 22% estão posicionados em empresas da cadeia de saúde beneficiadas pelo aumento da demanda, 11% mantêm posição direta nas farmacêuticas produtoras e 3% possuem posições em setores negativamente impactados.
Para a análise da XP, em um tema que dominou o debate entre 2023 e 2024, “a fotografia sugere que o mercado considera a fase de repricing amplamente concluída”, deslocando a discussão para a seletividade dentro da tese.
Private Credit e ativos digitais ficam fora do consenso
Na infraestrutura física, data centers como ativos reais lideram as preferências, com 43% das respostas. Infraestrutura hídrica e saneamento, além de logística e transporte, aparecem com 41% cada. Cerca de 24% das casas não consideram infraestrutura física um tema relevante.
O Private Credit, por sua vez, não é tratado como destaque temático por 59% das gestoras. Entre as casas que acompanham a classe, 22% preferem aguardar a conclusão do processo de reprecificação e 19% avaliam que o ajuste criou um ponto de entrada mais seletivo.
Em ativos digitais e tokenização, 57% monitoram o tema como tendência, mas sem produto ou posição relevante. Outros 35% mantêm o segmento fora do radar e apenas 8% já possuem estratégias ativas em criptoativos ou ativos digitais. Segundo a pesquisa, os dados indicam que “a agenda de tokenização ainda não se converteu em tema relevante de alocação ao menos no curto prazo”.
Brasil e América Latina lideram em recursos e ativos reais
O levantamento também mapeou as regiões com a melhor relação risco-retorno por tema. Os Estados Unidos concentram a preferência em áreas ligadas à tecnologia e inovação, enquanto Brasil e América Latina lideram nos segmentos relacionados a recursos naturais e ativos reais.
Os EUA foram apontados como região líder em IA e tecnologia por 86% das gestoras, em defesa e geopolítica por 78% e em saúde e longevidade por 77%. Brasil e América Latina lideram em minerais críticos e recursos, com 83%, energia e transição, com 72%, e infraestrutura e ativos reais, com 62%.
Questionadas sobre as vantagens comparativas do Brasil e da América Latina que justificam alocação, 70% das casas citaram energia, incluindo renováveis, biocombustíveis e pré-sal. Agronegócio e segurança alimentar aparecem com 62%, enquanto minerais críticos, como lítio, cobre, nióbio e terras raras, foram mencionados por 57%.
A pesquisa conclui que “a IA amadurece sem euforia declarada”, enquanto temas que dominaram ciclos recentes, como GLP-1 e Private Credit, “passam por revisão de assimetria”. Ao mesmo tempo, o Brasil “desponta com vantagem comparativa objetiva nos temas de recursos e ativos reais”.



