Enquanto milhões de torcedores acompanham cada partida da Copa do Mundo de 2026, outro campeonato é disputado paralelamente nos mercados financeiros. Historicamente, a Copa do Mundo de Futebol tornou-se um catalisador temporário para diversos setores da economia, desde bebidas e alimentos até comércio eletrônico, entretenimento, apostas e eletrônicos de consumo.
A edição de 2026, a primeira organizada conjuntamente por três países (México, Estados Unidos e Canadá) e a maior da história, com 48 seleções e 104 partidas, poderá gerar mais de US$ 41 bilhões em atividade econômica global e se tornar um dos maiores impulsionadores do consumo do ano para diversos setores.
Analistas do Morgan Stanley estimam que apenas a atividade publicitária associada ao torneio poderá superar US$ 500 milhões, enquanto cerca de 44% dos consumidores norte-americanos pretendem interagir ativamente com o evento por meio da televisão, do streaming e das redes sociais.
Para os investidores, a questão não é se a Copa do Mundo gera dinheiro, mas quais empresas conseguem capturar esse gasto adicional.
O campeonato do comércio eletrônico
O primeiro beneficiário regional parece ser o comércio eletrônico, e a ação do Mercado Livre, negociada na Nasdaq sob o código MELI, parece confirmar essa tendência. O papel acumula valorização de aproximadamente 6% a 7% desde o início da Copa do Mundo, em 11 de junho, até os primeiros dias de julho, impulsionado pelas expectativas de maior consumo digital e fortalecimento dos pagamentos eletrônicos durante o torneio.
A empresa também reportou crescimento de 49% na receita anual no primeiro trimestre de 2026, com o México respondendo por cerca de um quarto do desempenho consolidado do grupo. O fenômeno não é incomum: televisores, camisas de seleções, alimentos, artigos promocionais e serviços de entrega costumam registrar aumento da demanda durante o período da Copa, favorecendo plataformas de comércio eletrônico e pagamentos digitais.
As cervejarias esperam sua própria final
Poucos setores estão tão ligados ao futebol quanto o de cerveja. Analistas do Jefferies estimam que a Copa do Mundo de 2026 gerará um consumo adicional superior a 1 bilhão de caixas de cerveja em todo o mundo, suficiente para elevar entre 0,2 e 0,3 ponto percentual o volume anual de vendas do setor.
Entre as empresas latino-americanas mais bem posicionadas está a Ambev, maior produtora de cerveja da América Latina e proprietária de marcas como Skol, Brahma e Antarctica no Brasil. A companhia possui valor de mercado próximo de US$ 50 bilhões e distribui um dividendo anual em torno de 4,2%.
Também se destaca a Arca Continental, uma das maiores engarrafadoras da Coca-Cola do mundo e um dos principais participantes dos mercados mexicano e norte-americano. A empresa anunciou investimentos relacionados ao legado da Copa do Mundo de 76 milhões de pesos para infraestrutura hídrica em escolas dos estados de Nuevo León e Jalisco, duas das sedes do torneio no México.
Outra companhia que poderá ser beneficiada é a Fomento Económico Mexicano (FEMSA), controladora da rede OXXO e participante relevante do negócio de bebidas por meio da Coca-Cola FEMSA, cuja ampla rede de pontos de venda costuma registrar aumento no fluxo de consumidores durante grandes eventos esportivos.
Streaming e publicidade: o novo estádio digital
A revolução do streaming transformou a forma como o futebol é monetizado. A Copa do Mundo de 2026 já registra números recordes de audiência digital. No Brasil, a CazéTV atingiu picos superiores a 12 milhões de espectadores simultâneos, enquanto a transmissão em espanhol da partida entre México e Coreia do Sul registrou 6,1 milhões de espectadores via streaming nos Estados Unidos.
O acordo entre a DAZN e a DirecTV Latin America para transmitir as 104 partidas do torneio em diversos países da América do Sul é outro sinal da relevância estratégica do evento para as plataformas digitais. Nesse segmento, destaca-se a empresa argentina Globant, especializada em transformação digital, inteligência artificial e soluções para os setores de mídia e entretenimento, áreas que historicamente ampliam seus investimentos em tecnologia durante grandes eventos esportivos.
Eletrônicos e televisores: o efeito da tela gigante
O mercado de televisores costuma ser um dos mais sensíveis ao calendário do futebol. A empresa de pesquisa Omdia informou que os embarques globais de televisores cresceram 6% na comparação anual durante o primeiro trimestre de 2026, alcançando 50,3 milhões de unidades, impulsionados principalmente pela formação de estoques antes da Copa do Mundo.
A NielsenIQ projeta que as vendas globais de televisores aumentem cerca de 10% durante o período do torneio, embora o impulso deva ser inferior ao observado na Copa da Rússia, em 2018, em razão de um ambiente macroeconômico mais fraco e da maior maturidade do mercado.
Um indicador alternativo do sentimento do consumidor
Embora o chamado “efeito Copa do Mundo” costume ser temporário e não altere os fundamentos de longo prazo das empresas, ele funciona como um termômetro do apetite por consumo e do sentimento das famílias.
A experiência histórica demonstra que empresas ligadas aos setores de bebidas, entretenimento, comércio eletrônico e consumo discricionário costumam registrar aumentos temporários nas vendas e no fluxo de clientes durante o torneio, o que pode, posteriormente, se refletir em melhores resultados trimestrais e, em alguns casos, em um desempenho superior de suas ações. Porque, durante uma Copa do Mundo, não competem apenas as seleções nacionais. Também entram em campo as empresas, os investidores e os mercados financeiros.



