Junho registrou entradas especialmente robustas nos fundos negociados em bolsa (ETFs), permitindo que o patrimônio total administrado pelos ETFs UCITS superasse, pela primeira vez, a marca de € 3 trilhões. Embora a renda variável tenha concentrado a maior parte dos fluxos, as entradas em ETFs de renda fixa também foram relevantes e atingiram, pela primeira vez, o patamar de € 30 bilhões.
Como explica Daniel Dornel, responsável pela área de Análise de ETFs da BNP Paribas Asset Management, em conversa com Daniel Morris, estrategista-chefe de mercados da gestora, as maiores entradas foram registradas nos Estados Unidos e no Japão, enquanto Europa e mercados emergentes apresentaram números menos expressivos. “Os ETFs setoriais e temáticos tiveram um bom desempenho no segundo trimestre, especialmente os ligados à tecnologia, e os ETFs de gestão ativa continuaram sua trajetória de crescimento até atingir sua maior participação histórica no total dos fluxos”, afirmou.
De forma geral, os mercados continuaram avançando durante o segundo trimestre, apesar de todas as preocupações. Gostaria de saber como essas incertezas se refletiram nos fluxos dos ETFs. Os investimentos continuaram entrando, apesar desse cenário?
O primeiro trimestre foi o mais forte da história para os ETFs UCITS, mas o segundo trimestre foi ainda mais impressionante, com entradas de capital próximas de € 115 bilhões.
Junho também marcou um importante recorde, já que o patrimônio total administrado pelos ETFs UCITS superou pela primeira vez a marca de € 3 trilhões. Em relação aos fluxos, a renda variável concentrou aproximadamente 70% do total, principalmente em estratégias de exposição global, que captaram mais de € 50 bilhões durante o período.
Isso representa uma aceleração em relação aos números já robustos registrados no primeiro trimestre, quando as estratégias globais já concentravam a maior parte das entradas. Tudo indica que 2026 caminha para ser um ano recorde para as estratégias globais de renda variável no universo dos ETFs. Até o momento, essas estratégias já captaram € 91 bilhões, muito perto dos € 103 bilhões registrados em todo o ano de 2025.
Como evoluíram os fluxos para a renda variável americana?
Após um final de 2025 e um início de ano bastante discretos para a renda variável americana, o impulso ganhou força durante o segundo trimestre. Mês após mês, as entradas aumentaram, encerrando o trimestre com mais de € 25 bilhões.
No conjunto, trata-se do segundo melhor trimestre da história para a renda variável dos Estados Unidos, ficando atrás apenas dos extraordinários € 55 bilhões registrados no quarto trimestre de 2024, após as eleições americanas.
Também houve mudança no perfil dos produtos que concentraram os investimentos. Enquanto no primeiro trimestre os investidores privilegiaram estratégias de peso igual (equal weight), no segundo trimestre a maior parte dos fluxos foi direcionada para estratégias indexadas tradicionais (core index).
Além dos Estados Unidos, houve mudanças no comportamento dos fluxos para Japão e Europa?
Mantendo a dinâmica positiva, os fluxos para a renda variável japonesa permaneceram sólidos, com entradas próximas de € 3 bilhões. Essa tendência dá continuidade ao movimento favorável iniciado no ano passado nesse mercado.
Já na Europa e nos mercados emergentes, o cenário foi diferente.
A renda variável europeia registrou saídas superiores a € 5 bilhões durante o período, acumulando três meses consecutivos de resgates, algo que não ocorria no mercado UCITS desde setembro de 2023. Já os fluxos para os mercados emergentes desaceleraram significativamente. No segundo trimestre, captaram apenas cerca de € 3 bilhões, contra € 14 bilhões registrados nos três primeiros meses do ano.
Vamos falar agora sobre renda fixa. Como se comportaram os fluxos?
O desempenho da renda fixa foi especialmente expressivo neste trimestre, com entradas que atingiram, pela primeira vez, € 30 bilhões nos ETFs UCITS de renda fixa.
Os maiores fluxos foram direcionados para títulos públicos, que atraíram mais de € 11 bilhões, distribuídos entre estratégias globais denominadas em euros e títulos do Tesouro americano.
A dívida corporativa com grau de investimento ficou em segundo lugar, com entradas próximas de € 6 bilhões, representando uma clara aceleração em relação ao trimestre anterior. Nesse segmento, os investidores demonstraram clara preferência por estratégias denominadas em euros.
Nos últimos trimestres falamos bastante sobre os produtos de duração ultracurta. Embora tenham continuado registrando entradas líquidas positivas no segundo trimestre, com € 3,9 bilhões, esse foi o resultado trimestral mais fraco dessa subcategoria desde 2023.
Por fim, os ETFs de títulos high yield voltaram a captar mais de € 3 bilhões, impulsionados principalmente por estratégias denominadas em euros.
Vocês identificaram alguma tendência em relação a determinados temas ou setores?
Sim. Durante o segundo trimestre foram observados fluxos bastante relevantes para essas categorias. Os investidores mantiveram o interesse principalmente por temas ligados à tecnologia, com investimentos significativos em semicondutores, inteligência artificial (IA) e outras tecnologias disruptivas.
Também foram registradas entradas expressivas em produtos ligados à infraestrutura pelo segundo trimestre consecutivo. Os fluxos não se concentraram apenas em estratégias tradicionais de infraestrutura, mas também em novas categorias, como redes elétricas inteligentes (smart grids) e eletrificação, uma tendência recente no mercado de ETFs.
O entusiasmo pelos ETFs de gestão ativa continua?
Sim. Os ETFs de gestão ativa mantiveram sua trajetória de crescimento. No segundo trimestre, captaram cerca de € 14 bilhões, o equivalente a pouco mais de 12% do total dos fluxos registrados nos últimos três meses. Trata-se da maior participação já alcançada por esse segmento.
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