Carlos Carranza, Senior Fund Manager na M&G Investments para mercados locais e para dívida soberana da América Latina, advertiu que o dólar enfrenta um processo de diversificação estrutural que poderia marcar o fim de 15 anos de excepcionalismo norte-americano, e destacou que os fluxos para dívida de países emergentes se mantiveram positivos inclusive durante o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, contrariando qualquer padrão histórico.
«Desde que começou a guerra tivemos inflows líquidos para dívida de renda fixa de mercados emergentes. Isso, para mim, é bastante surpreendente porque historicamente, há cinco, dez ou quinze anos, se você tinha um pico de volatilidade como o que estamos tendo agora, normalmente teria outflows dessa classe de ativo», afirmou Carranza durante uma apresentação no âmbito do Leaders Summit, um encontro profissional em Miami organizado pela Funds Society.
O gestor —com mais de 21 anos de experiência na indústria e trajetória no J.P. Morgan, Allianz Global Investors e atualmente na M&G desde outubro de 2025— estruturou sua análise em torno de dois pilares: os fatores que enfraquecem o dólar e as fortalezas próprias dos mercados emergentes.
O dólar sob pressão: cinco razões
O primeiro fator que Carranza identificou é a mudança de liderança na Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed). Jerome Powell, que conduziu a instituição durante oito anos atravessando crises, alta inflação e períodos de estabilidade, deixará o cargo em 15 de maio para Kevin Warsh. «Estamos passando de alguém que conhecemos e que dirigiu a Fed durante oito anos atravessando múltiplas crises, para alguém novo como chairman. Isso simplesmente adiciona mais incerteza», afirmou.
O segundo fator são as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Carranza mostrou um slide com dados dos últimos 20 anos que indicam que o partido no poder perdeu as midterms em todos os casos, independentemente do espectro político. Desde a Segunda Guerra Mundial, esse padrão se repetiu em 90% das vezes. Para investidores internacionais, isso pode se traduzir em maior incerteza institucional e menor coordenação entre o Executivo e o Congresso.
A terceira razão é a dinâmica fiscal. A dívida pública dos Estados Unidos em relação ao PIB passou de aproximadamente 70% há duas décadas para 122% atualmente, com um déficit de 6% do PIB. Para este ano, as estimativas apontam para uma emissão líquida de dois trilhões de dólares em títulos do Tesouro. Diante dessa oferta, Carranza levantou a lógica de alguns investidores: «Por que não compramos títulos de emergentes em vez de Treasuries? Por que não compramos Chile, um grau de investimento sólido que rende 200 pontos-base a mais e não emite dívida este ano?»
O quarto fator é o cenário geopolítico. Carranza listou uma série de tensões ativas: a discussão sobre o Canal do Panamá, o conflito na Ucrânia, as negociações do USMCA —cuja revisão começará nas próximas semanas—, o conflito com o Irã e a volatilidade tarifária. Em 20 de fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que o presidente Donald Trump não pode impor tarifas de forma unilateral. «Há muitas pesquisas mostrando que talvez as novas poupanças marginais na Europa já não sejam alocadas 100% em ações dos EUA, como costumava acontecer», afirmou.
O quinto elemento é a reversão de tendência nas moedas emergentes. Segundo o índice apresentado por Carranza, as moedas de mercados emergentes se valorizaram frente ao dólar em 2024 pela primeira vez após quinze anos consecutivos de desvalorização, um período que começou por volta de 2010. «Poderia ser o início de uma reversão de quinze anos de excepcionalismo norte-americano. Ou não. Mas poderia ser», disse.
Emergentes com fundamentos mais sólidos
No segundo pilar de sua análise, Carranza contrastou a situação fiscal dos mercados emergentes com a das economias desenvolvidas. Enquanto a dívida dos Estados Unidos em relação ao PIB praticamente dobrou em duas décadas, a média de cerca de 20 grandes países emergentes registrou um aumento de apenas 18 pontos percentuais no mesmo período.
Outro argumento a favor dos emergentes é a disciplina de seus bancos centrais. O Brasil elevou as taxas de juros em 1.000 pontos-base antes de a Fed realizar seu primeiro aumento de 25 pontos no ciclo pós-COVID. A Colômbia surpreendeu com uma alta de 100 pontos-base há poucas semanas. O Chile adotou uma postura restritiva após os eventos globais recentes, e os países da Europa Central e Oriental já antecipam altas por temerem pressões inflacionárias. «O repricing e a velocidade com que os bancos centrais emergentes reagiram foram enormes e muito rápidos», afirmou Carranza.
Como resultado dessa disciplina, as taxas reais médias nos emergentes estão próximas de 2,5%, o que oferece margem de manobra diante de uma eventual nova rodada de riscos inflacionários decorrentes do preço do petróleo.
Subposicionamento e potencial de fluxos
Carranza também refutou a percepção de que os investidores já estão sobrecarregados de ativos emergentes após o forte desempenho do ano passado. As participações internacionais em dívida soberana local em mercados emergentes estão próximas de 16%, abaixo dos 23% registrados antes da pandemia de COVID-19, segundo dados de bancos centrais.
O gestor da M&G concluiu com um dado que ilustra o potencial de fluxos: a indústria de fundos de pensão dos Estados Unidos administra cerca de seis trilhões de dólares e destina apenas 5% a ativos não norte-americanos. Um aumento de apenas um ponto percentual equivaleria a 60 bilhões de dólares em inflows para mercados emergentes. «Um fundo de Minnesota, se mover 1%, implica centenas de milhões de dólares para um ativo muito subalocado», exemplificou.



