O recente conflito no Irã introduziu uma nova dose de volatilidade nos mercados globais. Apresentamos aqui possíveis cenários e suas implicações para carteiras em diferentes classes de ativos.
Macro
Apesar da morte do Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, os acontecimentos que se desenrolam hoje no Irã não constituem uma mudança de regime ao estilo da Venezuela, nem um desmantelamento amplo da estrutura de comando do país, visto que a governança no Irã é institucionalizada. A grande questão agora é: quem será nomeado seu sucessor?
A nomeação de outro dirigente de linha dura aumentaria a probabilidade dos piores cenários, potencialmente prolongando o conflito e permitindo que ele evolua para uma guerra de guerrilha sustentada, capaz de mergulhar a região em um estado de instabilidade permanente e altamente inflamável. No entanto, seguimos atribuindo uma probabilidade baixa a esse resultado, visto que todos os atores relevantes — incluindo a China — têm grande interesse em evitar uma interrupção prolongada do Estreito de Ormuz, além das próprias prioridades do regime iraniano em matéria de sobrevivência. A capacidade sustentada do Irã para retaliação prolongada continua sendo uma variável muito relevante.
Os preços do petróleo serão um indicador-chave de como os mercados estão avaliando a situação. Atualmente, estamos em um ponto intermediário entre o Cenário 1 e o Cenário 2, descritos abaixo, com uma probabilidade crescente deste último. A experiência histórica sugere que os episódios no Oriente Médio tendem a ser acontecimentos pontuais, e existem mecanismos de contenção, especialmente considerando que a opção de enviar tropas terrestres dos EUA não está em discussão no momento. O governo Trump opera sob restrições de tempo, e a morte de Khamenei pode ser percebida como um ponto de vitória tangível. Historicamente, o Irã tende a buscar uma via de saída na primeira oportunidade disponível.
Cenário 1 – Escalada controlada “golpe por golpe””: o cenário mais provável a curto prazo
Sem a eliminação completa da cúpula iraniana, esse cenário se configura como uma troca sustentada, porém limitada.
Este cenário seria caracterizado por ataques contínuos iranianos com mísseis e drones contra bases regionais americanas e israelenses, seguidos por ataques de precisão por parte dos EUA e de Israel contra ativos do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e sua infraestrutura de lançamento. Grupos afiliados à Guarda permaneceriam ativos, embora com intensidade controlada. O Estreito de Ormuz seguiria sem bloqueios nem minas, e a infraestrutura energética do Golfo permaneceria majoritariamente preservada.
As implicações incluiriam instabilidade regional persistente e uma redução gradual dos interceptores de defesa antimíssil. O petróleo incorporaria um prêmio de risco geopolítico, mas os fluxos físicos permaneceriam intactos.
Nesse cenário, é provável que o Brent seja negociado na faixa de 80 a 95 dólares. É importante destacar que se trataria principalmente de um choque do Brent, e não do WTI. Os EUA são atualmente exportadores líquidos de petróleo bruto e produtos refinados, e mantêm a capacidade de limitar picos de preços internos por meio de gestão estratégica de reservas, ferramentas de política de exportação ou realocação logística.
Por isso, o mecanismo de transmissão para a inflação nos EUA seria mais moderado em comparação com os conflitos anteriores no Golfo. O impacto nos preços seria mais intenso para a Europa e a Ásia , dada a sua dependência do petróleo marítimo proveniente do Oriente Médio. Em suma, este cenário reflete uma escalada controlada — significativamente mais intensa do que a do ano passado — mas não uma ruptura sistêmica de energia.
Cenário 2: Escalada progressiva sem colapso do regime iraniano
Um evento com um número considerável de vítimas, um ataque iraniano bem-sucedido contra infraestrutura crítica ou um ataque israelense direcionado à cúpula iraniana poderiam ampliar o conflito.
Isso implicaria em ataques de mísseis iranianos de maior magnitude contra Al Udeid, no Catar, a Quinta Frota no Bahrein e diversas instalações de infraestrutura nos Emirados Árabes Unidos. O Hezbollah poderia aumentar a pressão sobre a fronteira norte de Israel. Milícias iraquianas poderiam intensificar os ataques contra alvos americanos. Determinadas instalações energéticas do Golfo ou petroleiros poderiam se tornar alvos.
Nesse cenário, o petróleo provavelmente seria negociado na faixa de 90 a 110 dólares, impulsionado principalmente pelo Brent. Os custos de seguro para transporte marítimo no Golfo aumentariam consideravelmente, e os prêmios de risco para commodities e ativos regionais também subiriam. Mesmo nesse contexto, o mercado doméstico de petróleo dos EUA provavelmente permaneceria relativamente mais estável do que os índices internacionais, reforçando a divergência entre Brent e WTI.
Cenário 3: Interrupção do Estreito de Ormuz, risco extremo
Isso exigiria um fator desencadeante ligado à sobrevivência do regime, como uma tentativa de desmantelar a estrutura de comando do país ou uma destruição sustentada de infraestruturas.
O Irã poderia minar o Estreito, capturar petroleiros ou lançar ataques com mísseis e drones contra embarcações em trânsito. Mesmo uma disrupção parcial afetaria de forma significativa aproximadamente 30% do fluxo global de petróleo transportado por via marítima.
Nesse cenário, o preço do petróleo poderia ultrapassar os 120 dólares na reação inicial. É provável que as principais nações consumidoras recorram às suas reservas estratégicas. A China se tornaria um ator diplomático particularmente ativo, dada a sua dependência do fornecimento proveniente do Golfo. A resposta naval dos EUA seria rápida e contundente.
Este continua sendo o mecanismo final de escalada e é muito prejudicial aos interesses econômicos e de sobrevivência do próprio regime iraniano, razão pela qual historicamente ameaçou implementá-lo, mas nunca realizou um bloqueio total.
Implicações para o petróleo e os mercados em geral
O cenário base prevê um elevado prêmio geopolítico, com o Brent cotado entre 80 e 95 dólares, e o WTI relativamente contido devido ao status de exportador dos EUA e à flexibilidade de sua oferta doméstica. Em um cenário de escalada, o Brent ultrapassaria os 100 dólares, ampliando o diferencial entre o Brent e o WTI.
Uma disrupção em Ormuz desencadearia uma forte alta liderada pelo Brent, com consequências inflacionárias globais e respostas políticas obrigatórias. A distinção-chave é que, estruturalmente, isso seria mais um choque de petróleo marítimo do que um choque de oferta doméstica nos EUA. Isso criaria um vento contrário no curto prazo para a renda variável, aumentando as preocupações atuais em torno da inteligência artificial, e afetaria o risco de renda fixa, especialmente para consumidores de petróleo ou emissores com forte exposição a custos (ainda resta ver até que ponto isso será um episódio pontual por ora). Seria positivo para o ouro e todo o mercado de metais preciosos, os únicos verdadeiros refúgios seguros em um mundo afetado por choques de oferta.
Historicamente, o dólar americano tem apresentado bom desempenho nesses tipos de situações, embora isso já não seja necessariamente um resultado garantido. A diversificação continuará sendo fundamental, mesmo que esse episódio acabe se prolongando no tempo.
Conclusão
Na ausência de um desmantelamento mais amplo da estrutura de comando, o mais provável é que isso evolua para uma troca contínua e calibrada, em vez de uma guerra regional de alta intensidade de forma imediata.
O Irã já demonstrou sua disposição de atacar bases americanas em todo o Golfo.
Os fatores determinantes serão os ataques contínuos contra a cúpula, os limiares de vítimas aceitáveis para os Estados Unidos e Israel, e se a navegação, o setor energético ou infraestruturas mais amplas serão atacadas diretamente.
Por enquanto, os mercados devem valorizar um prêmio geopolítico sustentado do que um colapso sistêmico da oferta, com o Brent absorvendo a maior parte do risco e o WTI relativamente protegido. O choque seria transmitido tanto pelos preços do petróleo quanto pelos canais de confiança.




Por Carlos Ruiz de Antequera