Durante o último trimestre, os mercados privados mostraram os primeiros sinais de recuperação à medida que melhoravam a atividade de transações, as saídas e as soluções alternativas de liquidez, o que apoiou novos compromissos e a alocação de capital. Como resultado, nossas perspectivas para o capital privado (private equity) tornaram-se positivas. A dívida privada (private credit) também se tornou mais atraente graças à melhora dos preços, enquanto as infraestruturas continuam bem posicionadas diante da demanda de longo prazo por energia, centros de dados e infraestruturas digitais.
No entanto, as oportunidades são cada vez mais seletivas, em vez de generalizadas. Os investidores devem se concentrar em ativos de alta qualidade, em uma seleção disciplinada de gestores e em setores apoiados por tendências duradouras de crescimento estrutural. A cautela continua sendo justificada, particularmente nos segmentos de software expostos a mudanças nos modelos de negócio impulsionadas pela IA.
A seguir, analisamos mais de perto os principais fatores que estão moldando os mercados privados.
Liquidez e distribuições
A escassez de liquidez tem sido um tema central nos mercados privados nos últimos anos. As distribuições desaceleraram substancialmente após a alta das taxas de juros iniciada em 2022, deixando o capital imobilizado nas carteiras existentes, limitando os novos compromissos e contribuindo para os desafios de captação de recursos. As condições estão melhorando, mas essa dinâmica permanece.
A captação de recursos em capital privado continua moderada, com os volumes acumulados em períodos móveis de 12 meses em queda. A captação de recursos de dívida privada também permanece abaixo dos níveis máximos, apesar da recente recuperação em algumas estratégias. Enquanto isso, o capital disponível (dry powder) começou a diminuir em termos absolutos, e sua participação nos ativos privados existentes caiu para menos de 20%, em comparação com aproximadamente 30% imediatamente após a Crise Financeira Global. Isso sugere menor concorrência pelos ativos.
Evolução do capital disponível

Estas informações refletem as opiniões da PSG na data deste documento, e não em qualquer data futura, e estão sujeitas a alterações sem aviso prévio em resposta à evolução das circunstâncias e das condições de mercado. Não devem ser interpretadas como uma recomendação de investimento ou de análise. As previsões e estimativas baseiam-se nas condições atuais de mercado, estão sujeitas a alterações e podem não se concretizar necessariamente. A rentabilidade passada não garante resultados futuros.
O volume de operações continuou se recuperando, embora o número de transações permaneça abaixo dos níveis anteriores, o que significa que o capital se concentra em menos operações, mas de maior porte. Os compradores corporativos continuam sendo um participante importante, enquanto as transações apoiadas por fundos (sponsors) representam menos de 30% da atividade. A recuperação é real, mas não generalizada: o capital continua concentrado em ativos de alta qualidade.
Volumes de Fusões e Aquisições – M&A

Fonte: Pitchbook, a junio de 2026.
Estas informações refletem as opiniões da PSG na data deste documento, e não em qualquer data futura, e estão sujeitas a alterações sem aviso prévio em resposta à evolução das circunstâncias e das condições de mercado. Não devem ser interpretadas como uma recomendação de investimento ou de análise. As previsões e estimativas baseiam-se nas condições atuais de mercado, estão sujeitas a alterações e podem não se concretizar necessariamente. A rentabilidade passada não garante resultados futuros.
A melhora é evidente nas saídas de capital privado. As fusões e aquisições tradicionais (M&A) não são a única via para a liquidez. Os veículos de continuação representam uma parcela cada vez maior das saídas apoiadas por sponsors, e o volume do mercado secundário liderado por gestores (GP-led) alcançou US$ 115 bilhões em 2025, ante US$ 75 bilhões em 2024. Os desafios de liquidez não foram resolvidos, mas as soluções disponíveis estão se ampliando.
Venture Capital
O capital de risco (venture capital) passou por uma das secas de distribuições mais severas dos mercados privados. No entanto, um conjunto significativo de grandes empresas de tecnologia poderia estar em condições de acessar os mercados públicos por meio de ofertas públicas iniciais (IPOs). Se bem-sucedidas, essas operações poderiam proporcionar distribuições significativas. Por enquanto, a liquidez continua concentrada, mas as condições estão se tornando mais favoráveis. Isso é fundamental porque as distribuições geram capacidade para novos compromissos e apoiam a recuperação dos fluxos de capital no mercado privado.
Private Equity
Nossa visão sobre o private equity passou de neutra para positiva, impulsionada por uma oferta crescente de oportunidades de investimento e maior atividade de fusões, aquisições e saídas. Os fundamentos melhoraram modestamente graças ao fortalecimento da confiança empresarial, enquanto as margens operacionais e a alavancagem permanecem estáveis. As avaliações apresentam mais nuances: as das estratégias growth melhoraram, enquanto os buyouts e o venture capital permanecem estáveis em termos gerais.
Desafios emergentes da IA
Nossa visão histórica de que a IA deve ser vista principalmente como uma oportunidade permanece intacta. A IA pode impulsionar a criação de novas empresas, melhorar a produtividade nas carteiras de buyouts e apoiar o investimento em infraestrutura necessário para sua implementação generalizada. Mas a IA também se tornou uma importante fonte de disrupção, especialmente no software, em que os investidores estão reavaliando os modelos de negócio e o posicionamento competitivo.
Uma forma de entender essa disrupção é a transição do modelo de “Software como Serviço” (SaaS) para um modelo de “Serviço como Software”. Historicamente, muitas empresas de software geravam receitas baseadas no número de usuários ou licenças. Cada vez mais, a IA permite aos clientes adquirir um resultado final. As receitas baseadas em licenças podem diminuir antes que as receitas baseadas em resultados tenham ganhado escala por completo, criando uma curva em J temporária no faturamento. Para as empresas alavancadas, essa transição poderia pressionar suas obrigações financeiras (covenants).
O software não é homogêneo. As empresas de software vertical com dados próprios, altos custos de mudança ou vantagens regulatórias poderiam se fortalecer, enquanto o software de cibersegurança e infraestrutura poderia se beneficiar da adoção da IA. Por outro lado, as aplicações horizontais genéricas com dados próprios limitados e alta alavancagem poderiam enfrentar desafios maiores. Essas distinções são essenciais para a avaliação e a análise de investimentos tanto em capital privado quanto em dívida privada.
Private Credit
Nossa visão sobre o private credit melhorou em direção ao extremo superior da faixa neutra. As condições do direct lending não sugerem uma disfunção sistêmica; assemelham-se, antes, às etapas finais de um ciclo de crédito. Os preços e as condições das transações se ajustaram, tornando as novas alocações de capital mais atraentes do que eram há um ano.
A dispersão continua sendo fundamental. O software é a maior exposição setorial em muitas carteiras de empréstimos diretos, e uma alta alavancagem somada a uma baixa cobertura de juros gera vulnerabilidades. A mensagem é clara: é preciso se concentrar em evitar perdas, em vez de buscar cegamente a rentabilidade. A seleção do ano de emissão (vintage) importa, e é preferível construir carteiras com preços, níveis de alavancagem e covenants atraentes a herdar posições passadas desfavoráveis. Além do direct lending, estratégias especializadas e menos correlacionadas, como os empréstimos para situações especiais (special situations), também podem oferecer oportunidades.
Infraestrutura
Nossas perspectivas para a infraestrutura continuam positivas, apoiadas por fortes ventos favoráveis estruturais. A geração de energia é o tema central, já que o desenvolvimento de centros de dados, a reindustrialização e a eletrificação fazem a demanda elétrica disparar. Cada vez mais, o fator limitante não é a demanda por centros de dados, mas o acesso a um fornecimento de eletricidade confiável.
Os projetos anunciados de centros de dados com autoconsumo direto (“atrás do medidor” ou behind-the-meter) representam aproximadamente 90 gigawatts de capacidade de geração. Se os desenvolvedores não conseguirem garantir energia suficiente rapidamente, precisarão aproximar a geração dos centros de dados, o que criará oportunidades em geração, armazenamento, transmissão e infraestrutura relacionada. As energias renováveis também se beneficiam, já que as empresas de tecnologia buscam atender às suas necessidades crescentes de energia cumprindo seus objetivos de sustentabilidade.
Centros de dados anunciados BTM “Behind-the-Meter”

Estas informações refletem as opiniões da PSG na data deste documento, e não em qualquer data futura, e estão sujeitas a alterações sem aviso prévio em resposta à evolução das circunstâncias e das condições de mercado. Não devem ser interpretadas como uma recomendação de investimento ou de análise. As previsões e estimativas baseiam-se nas condições atuais de mercado, estão sujeitas a alterações e podem não se concretizar necessariamente. A rentabilidade passada não garante resultados futuros.
Continuamos otimistas em relação aos fluxos de caixa contratados de alta qualidade nos setores que se beneficiam dessas tendências. Embora alguns ativos de centros de dados pareçam estar plenamente precificados, oportunidades mais atraentes poderiam ser encontradas em áreas adjacentes, como infraestrutura elétrica, fibra escura e determinados projetos de energias renováveis em estágio avançado.
Real Estate
Nossas perspectivas para o real estate continuam muito positivas, embora tenham se moderado ligeiramente. Os mercados de capitais continuam melhorando à medida que aumenta a disponibilidade de dívida, diminuem os custos de endividamento, os critérios de concessão de crédito são flexibilizados e as concessões de financiamentos hipotecários se fortalecem. As taxas de capitalização (cap rates) se estabilizaram em grande medida e começaram a se comprimir em alguns mercados.
Essa postura comedida reflete o equilíbrio entre as avaliações e os fundamentos. As oportunidades excepcionais criadas pelo ajuste de preços iniciado em 2022 são cada vez menos pronunciadas, enquanto a atividade de incorporação e desenvolvimento está retornando a determinados mercados, tornando as condições de oferta um pouco menos favoráveis. Continuamos otimistas, mas cada vez mais seletivos, concentrando-nos em ativos tradicionais de alta qualidade adquiridos a avaliações atraentes, oportunidades de valor agregado com forte geração de fluxo de caixa e baixa sensibilidade ao financiamento, assim como em setores alternativos apoiados por ventos favoráveis estruturais.
Reflexões finais
De modo geral, os mercados privados estão se tornando mais favoráveis à medida que se recuperam a atividade de transações, as saídas e a alocação de capital. Nossa perspectiva para o capital privado é positiva, enquanto a dívida privada melhorou em direção à parte superior da faixa neutra à medida que os preços se tornam mais atraentes. As perspectivas para a infraestrutura continuam positivas, apoiadas pelas temáticas energética e digital. As perspectivas para o setor imobiliário também continuam muito positivas, mas nossa visão é mais comedida à medida que surge nova oferta e as oportunidades de avaliação se estreitam. Em todos os mercados privados, a seleção de gestores, o rigor na análise (underwriting) e os ativos de alta qualidade continuam sendo essenciais.
Artigo de Steve Turner, diretor de Seleção de Investimentos do Portfolio Solutions Group (Morgan Stanley IM)
RO 5934929 Exp 30/09/2027
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