A discussão sobre um possível novo imposto sobre segundas residências em Nova York voltou a acender uma tendência que, há vários anos, vem redefinindo o mapa patrimonial nos Estados Unidos: a competição entre estados para atrair capital privado, family offices e fortunas internacionais, particularmente latino-americanas.
Embora a iniciativa ainda esteja em processo de aprovação e debate político, o simples anúncio já vem sendo interpretado por gestores patrimoniais e investidores como mais um sinal de pressão fiscal sobre indivíduos de alto patrimônio em Nova York. Ao mesmo tempo, fortalece o posicionamento de jurisdições como Flórida e Texas como destinos preferenciais para a relocalização da riqueza latino-americana.
De acordo com a proposta discutida em Nova York, o novo tributo estaria focado em proprietários de imóveis secundários de alto valor, em um contexto de crescente pressão política para financiar programas de habitação acessível e reduzir déficits fiscais urbanos. O debate ocorre justamente em um momento em que a migração patrimonial global ganha velocidade e sofisticação.
“Hoje, a migração patrimonial já não é apenas internacional; ela também ocorre dentro dos próprios Estados Unidos”, explicou Juan Carlos Eguiarte, country manager da BAIA Capital no México, em entrevista à Funds Society.
Para o executivo, o fenômeno não pode ser analisado de forma isolada nem apenas sob o ângulo tributário. Na realidade, reflete uma competição estrutural entre jurisdições americanas para capturar capital privado altamente móvel.
“A Flórida vem se consolidando há anos como um dos principais destinos de capital privado e fortunas de indivíduos de alto patrimônio. Já não é apenas uma cidade de aposentadoria ou predominantemente residencial; hoje Miami se transformou em uma plataforma de atração de capital privado”, afirmou.
A transformação de Miami tornou-se particularmente visível desde a pandemia. Fundos de investimento, hedge funds, firmas de private equity e family offices transferiram operações de Nova York e Califórnia, atraídos por um ambiente fiscal mais favorável, menores impostos estaduais, regulação mais flexível e um ecossistema financeiro cada vez mais profundo.
Dados da Henley & Partners estimam que os Estados Unidos continuam sendo o principal destino global de milionários migrantes, enquanto a Flórida figura entre os estados com maior crescimento de residentes ultra high net worth. Apenas Miami-Dade registrou, nos últimos anos, um forte aumento nos preços de imóveis premium, impulsionado em parte por compradores latino-americanos.
O atrativo para investidores da região não se limita ao componente fiscal. Fatores como segurança jurídica, estabilidade regulatória, qualidade de vida e conectividade internacional têm peso cada vez maior nas decisões patrimoniais.
“Os estados do sul dos Estados Unidos são mais benevolentes até mesmo em questões climáticas e, além disso, a Flórida também se tornou uma capital latino-americana”, destacou Eguiarte.
A mobilidade do capital, acrescentou, atinge hoje níveis sem precedentes. “Quando as diferenças fiscais e regulatórias começam a se tornar relevantes, o capital otimiza a jurisdição, seja internacionalmente ou dentro dos próprios Estados Unidos.”
Nesse contexto, Nova York mantém sua posição como principal centro financeiro do continente, mas enfrenta desafios crescentes para reter parte do capital privado internacional que historicamente gravitava em torno de Manhattan e outros mercados premium.
A discussão ocorre ainda em um momento particularmente relevante para a América Latina. A desaceleração econômica regional, a incerteza política e a limitada capacidade de absorção de capital em algumas economias estão levando famílias empresárias e grandes patrimônios a diversificar estruturas e jurisdições.
Eguiarte considera que o fenômeno não deve ser interpretado apenas como uma fuga de capitais.
“Não vejo tanto como fuga de capitais, mas sim como uma falta de capacidade de absorção no México e na América Latina, devido ao fato de que as economias não estão crescendo no mesmo ritmo que crescem as fortunas”, afirmou.
Segundo sua análise, o problema reside na escassez de projetos produtivos e infraestrutura capazes de canalizar grandes excedentes de capital privado com retornos suficientemente atrativos e estabilidade de longo prazo.
“Isso desencadeia a necessidade de buscar jurisdições e localidades capazes de absorver esse capital produtivo”, explicou.
Paradoxalmente, a América Latina oferece taxas de juros nominais consideravelmente mais elevadas do que as dos Estados Unidos. Ainda assim, investidores de alto patrimônio ponderam cada vez mais variáveis como risco soberano, segurança jurídica e estabilidade institucional.
“Não é coincidência que as taxas de juros na América Latina sejam muito maiores; elas respondem a fatores de risco e à necessidade de oferecer um prêmio adicional aos investidores”, afirmou o executivo.
O pano de fundo da discussão, segundo especialistas do setor patrimonial, é que o capital global já não compete apenas entre países, mas entre cidades e estados capazes de construir ecossistemas atrativos para a riqueza internacional.
“As jurisdições que conseguirem combinar estabilidade, eficiência e profundidade de mercado serão aquelas que capturarão a próxima geração de patrimônio”, concluiu Eguiarte.



