A evolução dos ETFs já não está apenas redefinindo a diversificação de portfólios na América Latina, mas também a forma como investidores institucionais e patrimoniais acessam tendências globais como inteligência artificial, nearshoring, commodities e tokenização.
Assim expressou Nicolás Gómez, Managing Director, Head de iShares para a América Latina e Head para o Negócio Institucional das Américas da BlackRock, em entrevista à Funds Society durante a Cúpula Anual de Índices & ETFs no México, organizada pela BMV e pela S&P Dow Jones Índices.
O executivo destacou que o mercado latino-americano atravessa uma transformação estrutural impulsionada por uma maior sofisticação dos investidores e pela necessidade de construir portfólios mais diversificados diante de um ambiente de crescente volatilidade geopolítica e tecnológica.
“Os ETFs são o instrumento preferido não apenas pelos mexicanos, mas pelos latino-americanos para diversificar seus portfólios internacionalmente”, afirmou Gómez.
De acordo com o executivo, a adoção começou pelo segmento institucional, particularmente após a abertura regulatória que permitiu às Afores investir em renda variável internacional por meio de ETFs listados no Sistema Internacional de Cotações (SIC). Posteriormente, o uso desses veículos se expandiu para gestoras de fundos, corretoras e clientes patrimoniais.
Atualmente, estimou, cerca de 13% dos portfólios dos investidores mexicanos já está investido internacionalmente, um número que ainda considera baixo frente ao tamanho relativo do México na economia global.
“O México representa cerca de 1,6% do PIB mundial e apenas 0,2% da capitalização bursátil global, mas o investidor mexicano ainda mantém aproximadamente 87% de exposição local”, explicou, ao se referir ao fenômeno que faz com que os portfólios de investimento em mercados emergentes como o México — e praticamente todos os da região — mantenham seu status de extrema concentração doméstica.
Nesse contexto, destacou que, para cada dólar investido fora da América Latina, aproximadamente 50 centavos são canalizados por meio de ETFs, consolidando-os como o principal veículo para exposição internacional devido à sua liquidez, transparência, eficiência operacional e baixos custos.
Gómez explicou que a evolução do mercado também está transformando a forma como os clientes utilizam os ETFs. Enquanto o segmento institucional os emprega para construir exposições estratégicas e diversificação global, o segmento wealth ou patrimonial aumentou sua adoção para acessar tendências temáticas, setores específicos e estratégias mais sofisticadas.
Entre as tendências mais relevantes, identificou o crescimento de veículos ligados à inteligência artificial, semicondutores, energia e matérias-primas, assim como o ressurgimento de estratégias geográficas.
“A questão geográfica tem sido extremamente importante com toda essa volatilidade geopolítica. Estamos vendo muito mais uso de ETFs com exposição a países específicos”, comentou.
Como exemplo, mencionou o interesse crescente por mercados vinculados a cadeias de suprimento, energia e tecnologia, incluindo México, Brasil, Canadá, Taiwan e Coreia do Sul. No caso latino-americano, considerou que a região pode se beneficiar particularmente de duas grandes tendências globais: o desenvolvimento de infraestrutura associada à inteligência artificial e a reorganização energética global.
Segundo Gómez, as sete principais empresas de tecnologia dos Estados Unidos investirão cerca de 800 bilhões de dólares em CAPEX neste ano para infraestrutura relacionada à inteligência artificial e centros de dados, o que aumentará a demanda por metais estratégicos provenientes de países como Chile, Peru e Brasil.
Ao mesmo tempo, antecipou um ambiente estruturalmente favorável para produtores de energia diante da reorganização das cadeias de suprimento de petróleo e do aumento dos custos logísticos e de segurança energética em nível global.
Outro dos eixos destacados foi o avanço da tokenização e a convergência entre as finanças tradicionais e o ecossistema digital baseado em blockchain. “O mundo tradicional e o mundo digital já estão começando a se tocar”, afirmou.
Ele explicou que esse processo ocorre em duas direções: por um lado, ativos digitais como o Bitcoin entram no sistema financeiro tradicional por meio de ETFs; por outro, produtos tradicionais começam a migrar para infraestruturas tokenizadas.
Como exemplo, mencionou o caso do IBIT (iShares Bitcoin Trust), o ETF de Bitcoin da BlackRock, que — afirmou — alcançou 10 bilhões de dólares em ativos em apenas um mês e cerca de 100 bilhões em menos de um ano, tornando-se um dos ETFs de crescimento mais acelerado da indústria.
Paralelamente, a BlackRock já trabalha na tokenização de ETFs e fundos monetários para operar dentro de ecossistemas blockchain. Atualmente, estimou que o universo de ativos digitais gira em torno de 4 trilhões de dólares.
“A dúvida já não é se isso vai acontecer, mas quando o ecossistema tradicional e o digital acabarão se fundindo”, sustentou Gómez, que antecipou uma transição gradual para mercados com menos fricções, liquidação instantânea e maior eficiência operacional.
Dentro dessa evolução, o executivo destacou o papel da iShares como plataforma global de implementação de portfólios. Com cerca de 6 trilhões de dólares administrados em ETFs e aproximadamente 1.400 produtos em nível global, descreveu os ETFs como “building blocks” ou blocos modulares que permitem construir exposições cada vez mais precisas e dinâmicas.
“O que você quiser e da forma que quiser, vai encontrar em um ETF”, concluiu.



