O mercado brasileiro de crédito privado atravessa um período de forte compressão dos spreads, impulsionado pelo excesso de liquidez nos fundos dedicados à classe de ativos e pela oferta limitada de novas emissões de empresas de primeira linha. A avaliação é da Bloxs Capital Markets em seu relatório sobre o primeiro semestre de 2026.
Segundo o estudo, o prêmio de risco sobre o CDI medido pelo índice IDA-DI da ANBIMA apresentou trajetória de queda ao longo do semestre. Após registrar um pico em abril, o spread médio encerrou maio em CDI + 1,58% e recuou para CDI + 1,00% nos meses seguintes.
De acordo com a Bloxs, esse movimento é consequência da continuidade da entrada de recursos nos fundos de crédito privado, combinada à escassez relativa de novas emissões de companhias com melhor qualidade de crédito.
O levantamento mostra que os emissores classificados como AAA captaram recursos com remuneração entre CDI + 0,80% e CDI + 1,20%, enquanto empresas com rating AA emitiram papéis entre CDI + 1,20% e CDI + 1,80%. Já companhias classificadas como A acessaram o mercado pagando entre CDI + 1,80% e CDI + 2,80%. Para emissores BBB ou inferiores, os spreads superaram CDI + 3,00%, normalmente acompanhados de garantias reais e covenants mais restritivos.
Para Gabriel Santos, head de Research da Bloxs Capital Markets, o crescimento do mercado ocorre mesmo em um ambiente de juros ainda elevados. “O primeiro semestre de 2026 demonstra que o mercado de crédito privado brasileiro não depende mais de uma janela macro favorável para crescer. Mesmo com a Selic a 14,25% e incertezas externas relevantes, o volume recorde de R$ 649,3 bilhões em ofertas reflete uma mudança estrutural: empresas emissoras e investidores institucionais internalizaram o mercado de capitais como canal permanente de financiamento corporativo, não como alternativa conjuntural ao crédito bancário.”
Liquidez pode pressionar ainda mais os spreads
Na avaliação da Bloxs, a tendência de compressão dos spreads pode continuar ao longo do segundo semestre caso permaneça o atual cenário de redução gradual da Selic e elevada liquidez no mercado.
O relatório destaca que o ciclo de flexibilização monetária preserva a vantagem de custo do mercado de capitais frente ao crédito bancário e, ao mesmo tempo, aumenta a pressão sobre os prêmios das emissões de maior qualidade. Como consequência, investidores institucionais podem ampliar a exposição a empresas com ratings inferiores em busca de maior retorno.
Mesmo com esse movimento, a Bloxs observa que eventos pontuais de inadimplência em segmentos como agronegócio e incorporadoras de menor porte levaram o mercado a endurecer covenants e exigir garantias adicionais para emissores fora do grupo de primeira linha.
O estudo também ressalta que o diferencial de custo entre o crédito bancário e o mercado de capitais continua favorecendo as emissões corporativas. Enquanto linhas bancárias para capital de giro permanecem acima de 20% ao ano, debêntures de empresas com rating AAA e AA foram emitidas entre CDI + 1% e CDI + 2%, o equivalente a um custo efetivo entre 15,25% e 16,25% ao ano.



