Após anos operando sem sede física, a CFA Society Brasil iniciou uma nova fase de expansão. A associação, que reúne profissionais certificados pelo CFA Institute no país, reabriu seu escritório em São Paulo neste ano e pretende usar a nova estrutura como base para ampliar sua influência no mercado financeiro, fortalecer sua presença fora do eixo Rio-São Paulo e aumentar a oferta de eventos e iniciativas educacionais.
“A Society continuou ativa nos últimos anos, mas acreditamos que podemos fazer muito mais com a volta do escritório”, afirma Lucas Dolabela Barcellos Correa, presidente da CFA Society Brasil, em entrevista à Funds Society, realizada na nova sede da instituição. O escritório foi inaugurado em 27 de maio, na Rua Fidêncio Ramos, na Vila Olímpia. “Queremos atrair novos candidatos, gerar valor para os membros e influenciar positivamente o mercado”, diz.
A decisão de fechar o antigo escritório foi tomada durante a pandemia. Com as provas do CFA sendo presenciais e diante da incerteza sobre a duração da crise sanitária, tanto o CFA Institute quanto as sociedades locais passaram por um processo de contenção de custos. A sede brasileira, localizada na região da Faria Lima, foi desativada em 2020.
Segundo o presidente, a ausência de uma sede física limitou parte da capacidade de articulação e integração da entidade, embora a Society tenha continuado promovendo eventos e iniciativas ao longo do período.
“Quando você desmonta um escritório, parece que é só um espaço físico, mas ele tem muito mais. É ter o staff junto, é ter um lugar onde você concentra as suas atividades. A gente perdeu um pouco disso”, diz.
Hoje, a CFA Society Brasil reúne 1.822 membros e pretende usar a nova estrutura para ampliar sua participação nos debates sobre o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.
“A gente continua muito focado em ampliar o alcance das nossas iniciativas e fortalecer nossa presença junto aos principais participantes do mercado”, afirma Correa.
Parte dessa estratégia passa pela aproximação com o ensino superior e pela formação de novos profissionais. A entidade mantém iniciativas como o Research Challenge, competição global de análise de empresas voltada a estudantes universitários, e pretende ampliar sua presença em instituições de ensino fora do eixo tradicional de formação de profissionais do mercado financeiro.
“A gente precisa estar mais ativo dentro das universidades”, afirma. Segundo ele, a ideia é aproximar os estudantes da profissão desde o início da carreira e apresentar a certificação CFA como uma alternativa de desenvolvimento profissional.
A expansão também passa por uma agenda de influência institucional. A Society participa regularmente de consultas públicas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mantém diálogo com entidades como Anbima e Previc e busca contribuir para discussões sobre regulação e boas práticas do mercado financeiro.
“A gente tenta estar presente e expressar nossa opinião de forma que ajude a colocar o mercado na direção correta”, diz.
Outra aposta para ampliar o alcance da organização está na chegada de certificações especializadas desenvolvidas pelo CFA Institute. Além do tradicional CFA Program, a instituição vem criando credenciais voltadas para nichos específicos do mercado, como ESG, Private Markets e Investment Foundations.
A principal novidade é que parte desses certificados deverá ser traduzida para o português nos próximos anos, reduzindo uma das principais barreiras de entrada para profissionais brasileiros.
“Traduzir esses certificados para português vai ser muito bom para trazer mais pessoas para perto de nós”, afirma Correa.
A mudança, porém, traz uma discussão interna para as sociedades CFA ao redor do mundo. Como esses programas não exigem a conclusão do CFA Program completo, ainda não está definido se os profissionais certificados por essas novas credenciais poderão se tornar membros das sociedades locais.
“Hoje isso é um ponto de interrogação. Você começa a ter um público diferente do tradicional CFA Charterholder e ainda estamos discutindo como isso se encaixa dentro da Society”, afirma.
Segundo ele, o tema envolve uma questão estratégica para a entidade. Por um lado, os certificados podem ampliar significativamente o alcance da marca CFA. Por outro, criam um novo perfil de profissional dentro do ecossistema da organização.
Expansão para além de São Paulo
Embora cerca de 80% dos membros estejam concentrados em São Paulo, a entidade quer ampliar sua atuação regional. Entre os planos estão eventos em capitais como Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília e Curitiba, além de uma maior aproximação com universidades e profissionais de outras regiões do país.
“A gente precisa ter mais influência fora daqui também. Faz sentido estar mais presente fora do eixo tradicional”, afirma o executivo.
Além da expansão geográfica, a Society pretende ampliar a relevância de seus eventos e fortalecer o relacionamento com os membros espalhados pelo país. A expectativa é utilizar o novo escritório como um ponto de encontro para debates sobre investimentos, regulação, educação financeira e desenvolvimento do mercado de capitais.
Atrair novos profissionais
A estratégia de crescimento também passa pela formação de novos candidatos ao CFA. A entidade mantém programas junto a universidades, como o Research Challenge, competição global de análise de empresas, e iniciativas voltadas à inclusão de mulheres no mercado financeiro.
Um dos destaques é o programa Women in Investment Management (YouWIM), que seleciona universitárias para uma imersão no mercado financeiro e busca conectá-las a oportunidades de estágio em bancos, assets e outras instituições do setor.
“Queremos inserir mais mulheres no mercado financeiro”, afirma Correa.
Segundo ele, a iniciativa busca aumentar a representatividade feminina em uma indústria historicamente dominada por homens, além de aproximar futuras profissionais do universo CFA ainda durante a graduação.
Correa destaca que o objetivo é ampliar a presença da certificação sem abrir mão do rigor técnico que caracteriza o programa. Atualmente, apenas uma pequena parcela dos profissionais do mercado financeiro brasileiro possui o título.
“Você está falando de cerca de 1.800 pessoas dentro de um mercado que pode ter entre 500 mil e 700 mil profissionais. É uma forma de diferenciação muito forte”, afirma.
Segundo ele, o CFA exige cerca de 900 horas de estudo distribuídas em três níveis de provas e apenas uma fração dos candidatos conclui toda a jornada sem reprovações.
Ética como principal bandeira
Embora o mercado costume associar a certificação aos conhecimentos técnicos em investimentos, Correa afirma que a principal missão da entidade continua sendo a promoção dos mais elevados padrões éticos da profissão.
“A gente falou muito aqui sobre valuation, fluxo de caixa descontado e hard skills. Mas o CFA nasce muito com essa questão da ética. É uma coisa que se repete em todas as provas e que a gente reafirma todos os anos”, afirma.
Para ele, o papel da Society vai além da formação de profissionais e passa também pela participação em consultas públicas, discussões regulatórias e debates sobre o futuro do mercado financeiro brasileiro.
“A gente quer ser a referência e o maior padrão ético da indústria”, conclui.
Quem é Lucas Dolabela Barcellos Correa
Atual presidente da CFA Society Brasil, Lucas Dolabela Barcellos Correa construiu carreira no mercado financeiro antes de migrar para o setor corporativo. Formado pelo IBMEC, iniciou sua trajetória no Itaú BBA, onde trabalhou por vários anos em áreas ligadas a produtos e relacionamento com clientes. Tornou-se CFA Charterholder em 2015 e passou a atuar no board da entidade pouco tempo depois.
Após concluir um MBA no exterior, retornou ao Brasil para lançar a Horizonte Capital, veículo voltado à aquisição de pequenas e médias empresas. Mais tarde, migrou para a economia real e atualmente é CFO da Dome Serviços Integrados, empresa de logística ligada ao Porto do Açu e especializada em suporte às operações offshore da indústria de óleo e gás.
A própria trajetória de Correa reflete uma das mudanças que a CFA Society busca comunicar ao mercado: a certificação já não está restrita apenas a gestores e analistas de investimentos.
Segundo ele, cresce o número de profissionais da economia real — como CFOs, executivos de finanças corporativas, especialistas em M&A e planejamento financeiro — que recorrem ao programa para aprofundar seus conhecimentos técnicos e acelerar suas carreiras.
“Tem cada vez mais gente dentro de empresas buscando esse conhecimento para se diferenciar. Hoje eu sou CFO e continuo vendo muito valor no CFA”, afirma.
