Uma carteira sólida não é simplesmente uma coleção de investimentos atrativos. Trata-se de uma estrutura em que cada posição cumpre um propósito definido e na qual o conjunto é mais resiliente do que a soma de suas partes. Carteiras concentradas podem parecer eficientes enquanto prevalece um mesmo regime de mercado, mas correm o risco de se tornar frágeis quando a liderança dos mercados muda.
Esse aspecto ganha ainda mais relevância após uma década em que as carteiras globais foram fortemente influenciadas pelo excepcionalismo dos Estados Unidos, pelas empresas de tecnologia de mega capitalização e pela força do dólar. O objetivo não é abandonar esses vencedores, mas reduzir a dependência deles por meio da combinação de diferentes motores de retorno, capazes de responder a distintos fatores econômicos. Uma carteira construída dessa forma tende a estar mais bem posicionada para capturar oportunidades de crescimento, ao mesmo tempo em que reduz o risco de uma única decepção macroeconômica dominar os retornos totais.
Nesse contexto, os fundos Investec Multi Asset foram posicionados para incorporar diferentes temas de investimento:
- Ações japonesas;
- Ações de tecnologia;
- Ações de alta qualidade;
- Dívida de mercados emergentes em moeda local.
Em conjunto, essas temáticas oferecem diversificação baseada nos fatores econômicos que impulsionam seus retornos, e não apenas na classe de ativos à qual pertencem.
A matriz de correlação dos retornos excedentes apresentada a seguir reforça essa ideia. As estratégias de Qualidade e Tecnologia apresentam correlação positiva, embora moderada, o que não surpreende, já que ambos os índices compartilham algumas empresas. Já a dívida de mercados emergentes em moeda local e as ações japonesas exibem correlações baixas ou até negativas em relação às demais temáticas, desempenhando, assim, um papel distinto dentro da carteira global.

Fonte: Morningstar. Dados em 2 de julho de 2026.
Ações japonesas
Consideramos as ações japonesas uma exposição regional diferenciada, impulsionada por reformas estruturais que as distinguem do restante da nossa carteira de ações. Não se trata apenas de uma alocação adicional em renda variável global, mas de uma tese de investimento com fundamentos próprios. A oportunidade está ligada às reformas internas, ao aprimoramento da disciplina na alocação de capital, ao aumento dos retornos aos acionistas e a uma mudança no comportamento corporativo que vem se consolidando ao longo dos últimos anos.
O relatório Japan’s Strategic Awakening, do Goldman Sachs (junho de 2026), oferece uma visão abrangente dessa tese estruturalmente positiva. Em síntese, o mercado japonês tende a ser favorecido por uma dinâmica mais robusta entre salários e inflação, além das reformas promovidas pela Bolsa de Tóquio, que incentivam as empresas a aumentar a eficiência no uso do capital e ampliar a rentabilidade para os acionistas.
A reforma da governança corporativa também se tornou mais concreta. Com cada vez mais frequência, os conselhos de administração são instados a justificar elevados níveis de caixa em balanço, participações cruzadas entre empresas, margens reduzidas e negociações abaixo do valor patrimonial. O crescimento dos programas de recompra de ações e das operações ligadas ao mercado de private equity é uma evidência de que essas reformas corporativas começam a produzir resultados.


Manter essa exposição em ienes acrescenta um benefício adicional à carteira. A correlação historicamente negativa entre as ações japonesas e a moeda do país faz com que, em períodos de estresse financeiro, a valorização do iene possa atuar como um amortecedor para as quedas do mercado acionário.
Ações de tecnologia
O setor de tecnologia continua sendo uma das principais oportunidades de crescimento estrutural dos mercados globais. O ciclo de investimentos associado à inteligência artificial (IA) representa uma mudança de paradigma nos gastos de capital das empresas, com investimentos projetados em cerca de US$ 800 bilhões em 2026 e expectativas de expansão adicional para 2027.
Atualmente, os investimentos em IA representam cerca de 0,8% do PIB, ainda abaixo dos picos de 1,5% ou mais observados em ciclos tecnológicos anteriores. Além disso, os investimentos realizados pelos grandes provedores de infraestrutura em nuvem (hyperscalers) superaram as estimativas iniciais por vários anos consecutivos, indicando que os gastos podem continuar surpreendendo positivamente.

Fonte: Polar Capital. Dados de 2 de julho de 2026.
Não consideramos a tecnologia uma aposta restrita e unidirecional, condicionada exclusivamente ao desempenho da inteligência artificial. A alocação no setor tecnológico permite manter exposição à inovação, às economias de escala, à alavancagem operacional e à possibilidade de que a liderança observada nos últimos anos continue. No entanto, essa estratégia também exige uma seleção criteriosa de empresas, disciplina nas avaliações e um dimensionamento adequado das posições.
Além disso, a oportunidade pode se estender para além da infraestrutura tecnológica. A BlackRock sustenta que os beneficiários da inteligência artificial estão evoluindo daqueles que fornecem as “pás e picaretas” para as empresas que utilizam a IA para aumentar sua eficiência operacional e otimizar seus processos. Essa ampliação do universo de beneficiários é relevante, pois os retornos mais sustentáveis podem não vir apenas daqueles que constroem a infraestrutura de IA, mas também das empresas capazes de utilizá-la para ampliar margens, elevar a produtividade e fortalecer suas vantagens competitivas.
Ações de qualidade
As ações de qualidade constituem o componente estabilizador da alocação em renda variável da carteira. A MSCI define esse estilo de investimento como empresas com elevada rentabilidade sobre o patrimônio (ROE), crescimento consistente dos lucros e baixo nível de alavancagem financeira. Essas companhias também costumam apresentar balanços sólidos, geração consistente de caixa e menor dependência de condições favoráveis de financiamento.
Essas características tornam-se especialmente importantes quando a carteira também incorpora uma exposição cíclica ao Japão, investimentos em tecnologia de longo prazo e dívida de mercados emergentes sensível às oscilações cambiais. O objetivo da estratégia de qualidade não é liderar todas as fases especulativas do mercado, mas oferecer exposição a empresas capazes de gerar crescimento sustentável mesmo em cenários econômicos mais incertos.
O ponto de entrada também melhorou. Segundo as perspectivas para o mercado de ações do segundo trimestre de 2026 da J.P. Morgan Asset Management (2Q 2026 Equity Market Outlook), a fraqueza observada nas empresas de alta qualidade parece ser temporária, e não estrutural, enquanto suas avaliações se tornaram significativamente mais atrativas nos últimos trimestres. As análises por fatores da gestora também indicam que o fator qualidade apresenta atualmente avaliações atraentes no mercado acionário dos Estados Unidos.
Da mesma forma, a State Street destaca que, após um desempenho inferior em 2025, as características defensivas do estilo qualidade e a consistência de seus fundamentos fazem dele um importante elemento de diversificação diante das tensões geopolíticas, da incerteza comercial, dos riscos associados às avaliações da inteligência artificial e da elevada concentração dos mercados.

Dentro de uma carteira, as ações de qualidade desempenham um papel claramente complementar ao da dívida de mercados emergentes em moeda local. Enquanto esta última tende a se beneficiar de um dólar mais fraco, as ações de qualidade podem oferecer maior estabilidade caso a moeda norte-americana se fortaleça e o apetite por risco diminua. Esse é exatamente o tipo de equilíbrio que buscamos em uma carteira multiactivos: não coberturas perfeitas, mas exposições impulsionadas por diferentes fatores econômicos.
Dívida de mercados emergentes
A dívida de mercados emergentes em moeda local oferece uma fonte de retorno distinta daquela proporcionada pelos investimentos em renda variável. A BCA Research apresenta um dos argumentos mais consistentes em favor dessa classe de ativos: muitos mercados emergentes oferecem rendimentos reais elevados e, com poucas exceções, exibem trajetórias de dívida pública mais favoráveis do que as de diversos mercados desenvolvidos.


O aspecto central na implementação dessa estratégia está no comportamento das moedas. Segundo a BCA Research, nos mercados emergentes com elevados rendimentos em títulos em moeda local, é a taxa de câmbio que impulsiona o retorno dos títulos, e não o contrário. Isso torna a dívida de mercados emergentes em moeda local especialmente atrativa quando o dólar permanece estável ou se enfraquece, já que os investidores podem obter retorno por meio do carry e, ao mesmo tempo, se beneficiar da valorização das moedas locais.
Por isso, na Investec, consideramos a dívida de mercados emergentes em moeda local uma alocação seletiva, e não uma aposta generalizada nos mercados emergentes. Já a dívida emergente denominada em moeda forte exige uma abordagem mais cautelosa, uma vez que os spreads de crédito podem estar comprimidos e seu desempenho depende mais da liquidez global, dos spreads corporativos e do ciclo manufatureiro mundial.
Como combinamos essas ideias nos fundos Investec Multi Asset
Na Investec, não encaramos esses temas como apostas de investimento isoladas e unidirecionais. Nós os combinamos de forma deliberada, pois cada um desempenha um papel distinto dentro de uma carteira multiactivos.
A tecnologia oferece exposição a uma das principais tendências de crescimento estrutural dos mercados globais, especialmente agora que os investimentos em inteligência artificial estão se expandindo da infraestrutura para produtividade, software e eficiência operacional. O Japão proporciona acesso a um mercado onde a reforma da governança corporativa, a melhoria da disciplina na alocação de capital e o aumento da rentabilidade para os acionistas continuam criando uma oportunidade diferenciada. O investimento em empresas de qualidade acrescenta resiliência por meio de companhias com balanços sólidos, lucros sustentáveis e capacidade de gerar crescimento composto mesmo em ambientes mais incertos. Já a dívida de mercados emergentes em moeda local adiciona uma fonte distinta de retorno, apoiada em rendimentos reais, carry e diversificação cambial.
O valor de combinar essas ideias não está no fato de que todas precisem funcionar ao mesmo tempo. Na verdade, não esperamos que isso aconteça. A força dessa estratégia reside justamente no fato de que essas exposições são impulsionadas por fatores diferentes. Algumas são mais sensíveis ao crescimento econômico global; outras, à trajetória do dólar; outras, às reformas estruturais; outras, à solidez dos lucros corporativos; e outras, à continuidade do ciclo de investimentos em inteligência artificial.
É por isso que a construção de carteiras é tão importante. Uma carteira sólida não é simplesmente uma lista das melhores ideias de investimento. É uma estrutura em que cada ideia cumpre uma função específica, na qual as exposições têm pesos adequados e o resultado global depende menos de um único cenário de mercado.
Continuamos otimistas em relação a cada uma dessas temáticas, mas não as consideramos apostas incondicionais. A tecnologia continua exigindo disciplina nas avaliações. O Japão ainda depende de que as reformas se traduzam em maior rentabilidade sobre o capital. O investimento em empresas de qualidade deve ser realizado a preços razoáveis. E a dívida de mercados emergentes continua demandando uma gestão cuidadosa do risco cambial e do risco-país.
Combinamos essas exposições por meio da seleção ativa de gestores, de uma alocação disciplinada de pesos e de uma gestão contínua de riscos. O objetivo não é prever qual temática dominará a próxima década, mas construir carteiras com múltiplas fontes potenciais de retorno e menor probabilidade de sofrer perdas permanentes.
Em nossa visão, essa é a oportunidade mais duradoura: não uma carteira construída em torno de uma única narrativa de mercado, mas uma baseada em diferentes motores de retorno, capazes de gerar crescimento sustentável do capital em diversos ambientes de mercado.
Artigo assinado por Riaan Wagner, gestor da Investec.
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