O mercado brasileiro de crédito privado vive hoje uma das piores relações risco-retorno da história recente. Essa é a principal conclusão de um estudo (leia na íntegra) produzido pela fintech Nexa Finance, que argumenta que os spreads da indústria comprimiram justamente no momento em que os fundamentos de crédito se deterioraram.
Segundo a análise, houve uma “dissonância entre preço e fundamentos”: enquanto a inadimplência corporativa avançou, as recuperações judiciais bateram recorde e o endividamento das famílias atingiram máximas históricas, o prêmio pago ao investidor caiu cerca de 100 pontos-base desde 2023.
“O mercado de crédito privado está em dissonância: spreads fecharam enquanto os fundamentos se deterioraram”, afirma a Nexa no relatório.
Durante a apresentação do estudo, o CEO da companhia, Lucas Danicek, resumiu a tese de forma mais direta. “Para o investidor é o cenário da pior combinação possível. Você tem menos retorno e mais risco hoje”, diz, em roundtable promovido pela empresa junto a jornalistas.
Segundo ele, o mercado passou a remunerar menos justamente quando o risco estrutural aumentou.
“A inadimplência PJ está na máxima da série histórica. O número de RJs está na máxima da série histórica. Todos os indicadores de qualidade de crédito estão deteriorando”, afirma.
A tese da companhia é que o movimento foi provocado muito mais por fluxo do que por melhora estrutural do risco.
Com juros elevados, investidores migraram em massa para renda fixa. Segundo o estudo, cerca de R$ 538 bilhões entraram em fundos com exposição a crédito privado nos últimos 30 meses, praticamente dobrando o estoque da indústria.
“O fluxo entra em fundos que precisam alocar, e a oferta de crédito corporativo de qualidade não cresce na mesma velocidade — pressionando spreads para baixo mesmo com fundamentos piorando”, diz o material.
Danicek afirma que houve uma migração massiva de investidores da bolsa para crédito privado.
“Todas as pessoas físicas tiraram dinheiro da bolsa nos últimos três anos e jogaram R$ 1 trilhão em crédito”, diz.
Compressão de 106 bps
O estudo aponta que hoje o spread médio ponderado das debêntures gira em torno de CDI +1,63%, contra CDI +2,69% em junho de 2023 — uma compressão de 106 bps em dois anos e meio.
“A indústria de crédito não está ganhando dinheiro porque as empresas performaram bem. A indústria está ganhando dinheiro porque teve fechamento de spread”, afirmaDanicek.
Segundo ele, cerca de metade da performance recente da indústria veio apenas da compressão de spreads.
“O investidor acha que está ganhando dinheiro porque o crédito está saudável. Mas ele está ganhando dinheiro porque o mercado ficou mais caro”, diz. “Se você não tivesse uma compressão de taxa, o retorno da indústria seria CDI mais 1,2%. É um retorno muito baixo para correr esse tipo de risco”, pontua. Para a Nexa, isso reduziu drasticamente a margem de segurança do investidor.
“O ponto de entrada explica 42% da variação do retorno forward. Com spread baixo, o histórico mostra retornos materialmente piores nos 12 meses seguintes”, afirma o estudo.
Retorno de apenas CDI +1,16%
O estudo mostra que usando uma regressão histórica sobre o IDEX-CDI, a fintech projeta que, no nível atual de spreads, o retorno esperado do crédito privado seria de apenas CDI +1,16% nos próximos 12 meses.
Enquanto isso, os indicadores de deterioração do crédito continuam avançando. A inadimplência PJ acima de 90 dias chegou a 2,75% em março de 2026, mais que o dobro do observado no fim de 2020. O número de empresas inadimplentes alcançou 8,9 milhões, enquanto as recuperações judiciais bateram recorde, com 977 pedidos em 2025.
O estudo também aponta que o aperto monetário já chegou aos balanços corporativos. A despesa financeira das empresas listadas passou de 6,5% da receita líquida em 2019 para 9,4% em 2024, enquanto a relação dívida líquida/EBITDA atingiu a máxima do ciclo.
“Empresas listadas chegam ao fim do ciclo mais alavancadas em despesa financeira e em dívida líquida — pressionando geração de caixa e elevando risco de default”, diz a Nexa.
A aposta da Nexa: crédito pulverizado e customização
Fundada por ex-executivos da Tera Capital, multi-family office dos sócios da Pátria Investments, a Nexa defende uma alternativa ao crédito corporativo tradicional: operações pulverizadas com risco bancário ou soberano, como carteiras de consórcio e antecipação de saque-aniversário do FGTS.
A startup já distribuiu cerca de R$ 200 milhões em produtos estruturados e pretende alcançar R$ 1 bilhão distribuído ainda este ano, segundo executivos da companhia.
A tese da Nexa é substituir risco corporativo tradicional por estruturas pulverizadas e estatísticas. A empresa, que também possui uma asset, opera hoje FIDCs em três grandes estratégias: antecipação de saque-aniversário do FGTS, consórcios e carteiras pulverizadas de recebíveis. A lógica é trocar o risco de uma única companhia por milhares ou milhões de pequenos créditos com comportamento estatístico previsível.
“Crédito pulverizado troca risco idiossincrático por estatística de carteira: a perda vira previsível, não surpresa”, afirma o estudo da companhia.
Segundo Lucas Danicek, o objetivo é evitar exposição direta ao risco corporativo tradicional.
“No crédito corporativo, quem assina o cheque é a empresa. Aqui, quem paga é Itaú, Porto, Caixa, governo”, afirmou o CEO.
A Nexa estrutura esses ativos dentro dos FIDCs, securitiza os recebíveis e depois utiliza tokenização para transformar os fluxos financeiros em produtos customizados para cada cliente. Na prática, a empresa separa os fluxos mensais de pagamento dessas carteiras e reorganiza os recebimentos conforme a necessidade do investidor.
“Quando você compra uma carteira de FGTS, essa carteira tem prazo de 60 meses. Todo mês a gente recebe dinheiro dessa carteira. O que a gente faz é tranchar e segregar cada fluxo de caixa”, explicou Danicek.
Segundo ele, o investidor deixa de comprar um ativo padronizado e passa a adquirir fluxos específicos de recebimento.
“Você não está comprando um crédito que paga juros em maio. Você está comprando os juros de maio”, afirmou.
O principal diferencial da Nexa é justamente a personalização dos fluxos financeiros para o investidor.
“Na Nexa não tem cardápio. Você fala o que quer e eu te devolvo um produto”, disse Danicek.
Em vez de vender produtos padronizados, a fintech afirma montar estruturas sob medida conforme o objetivo do cliente — como geração de renda mensal específica, reforço de caixa em determinados períodos do ano ou distribuição programada de fluxo.
A tokenização é a infraestrutura tecnológica que permite essa customização. Segundo o executivo, a blockchain funciona como uma camada operacional para controlar e negociar parcelas individuais dos recebíveis.
“A blockchain permite controlar de forma mais eficiente essas parcelinhas, permite vender uma parcela e criar um produto customizado para o cliente”, afirmou.
Danicek afirma que o objetivo da companhia é usar IA e tokenização para criar investimentos sob demanda.
“Em algum momento a gente vai lançar um produto que vai ser o ChatGPT que cria o seu investimento”, disse.
Segundo ele, a ideia é que o investidor consiga estruturar uma carteira personalizada em tempo real, em questão de minutos.
“Ninguém no mundo cria o seu produto em um minuto. Você aperta o botão e liquida a transação”, afirmou.
A fintech compara a experiência a uma espécie de streaming de investimentos, no qual o cliente define objetivo, fluxo e prazo desejado e a plataforma estrutura automaticamente o produto.
“Você pode escrever ou falar o que você quer. ‘Quero comprar uma casa’, ‘quero aposentar’, ‘quero uma renda’. A IA interpreta aquilo e devolve um produto feito só para você”, afirmou Danicek.
