“Os mercados globais de renda fixa registraram um forte aumento da volatilidade, já que a significativa alta dos preços da energia e a incerteza geopolítica provocaram uma reprecificação abrupta dos riscos inflacionários, com forte elevação dos rendimentos e redução da inclinação das curvas de juros”, relatou Álvaro Peró, diretor de investimentos em renda fixa da Capital Group, em comentário recente de mercado.
Apesar desse contexto, a dívida de mercados emergentes mostrou-se relativamente sólida. Mesmo após os choques consecutivos provocados pelo chamado Dia da Libertação de 2025 — quando o presidente Donald Trump anunciou uma série de aumentos tarifários para todos os países — e pelo atual conflito no Oriente Médio, os títulos permaneceram relativamente resilientes.
Do início de abril do ano passado até o início de maio deste ano, destacaram os especialistas da Vontobel, a renda fixa emergente em moeda local superou o benchmark Global Aggregate em mais de 11% (todos os dados medidos em dólares). Paralelamente, os títulos soberanos em moeda forte renderam mais de 9% acima da referência global. Esses mercados, ressaltou a gestora, “demonstraram uma estabilidade notável, sem saídas drásticas de capital nem quedas acentuadas das moedas locais”.
Uma história de resiliência
Para a equipe da Vontobel — segundo relatório assinado por Jean-Louis Nakamura, Thomas Schaffner e Raphael Lüscher, com foco em renda variável, e Adrian Bender, em renda fixa —, a narrativa clássica sobre os mercados emergentes já não corresponde à realidade atual.
Se a visão antiga, de mercados frágeis e vulneráveis às oscilações dos fluxos de capital e das commodities, ainda fosse válida, a classe de ativos teria sido duramente impactada pelos acontecimentos dos últimos anos. Em vez disso, o que observam é “um nível de resiliência estrutural que era inimaginável” no passado.
“Muitos mercados emergentes passaram por uma transformação fundamental durante a última década: suas posições fiscais tornaram-se mais sólidas, seus marcos monetários mais críveis, sua governança corporativa melhorou e, em última instância, cresceu sua dependência da demanda interna e do comércio com outros parceiros dentro dos próprios mercados emergentes, ao mesmo tempo em que assumiram liderança em muitos dos temas vencedores de economias cada vez mais fragmentadas”, afirmaram os profissionais da Vontobel.
Essa transformação, concluíram, consolidou as bases da atual resiliência desses mercados e explica “a forma como enfrentaram crises recentes que, no passado, teriam sido extremamente desestabilizadoras”.
Boas perspectivas para a dívida emergente
Olhando para frente, as gestoras enxergam, de forma geral, um ambiente favorável para a renda fixa dos mercados emergentes.
Em um contexto global marcado por respostas distintas dos principais bancos centrais — com Fed, BCE, Banco da Inglaterra e Banco do Japão ajustando suas estratégias de política monetária —, a Capital Group vê sinais positivos dentro dessa classe de ativos.
“Identificamos oportunidades seletivas de valor em dívida emergente de qualidade denominada em moeda local, com fundamentos sólidos e rendimentos reais elevados”, afirmou Peró, acrescentando que também há atratividade em “certas moedas emergentes que apresentam uma dinâmica favorável dos termos de troca”.
Já a equipe de renda fixa da Neuberger observou que, embora os riscos de curto prazo permaneçam relevantes, o potencial continua presente. “Acreditamos que o ajuste significativo para cima nos rendimentos da dívida emergente, a desvalorização das moedas e um ponto de partida geralmente sólido em termos de fundamentos sustentam uma perspectiva positiva de retorno total no médio prazo, com potencial especialmente atrativo à medida que a crise avance em direção a uma resolução”, comentaram.
Ainda assim, em um cenário no qual a complexidade geopolítica global gerou respostas diferentes entre os países, as perspectivas dentro do universo emergente permanecem heterogêneas.
O caso latino-americano
Para a gestora, à medida que o conflito no Oriente Médio se prolonga, o principal risco negativo é o impacto indireto do choque do petróleo sobre fatores como inflação e crescimento econômico. “Para os mercados emergentes, que vêm crescendo a um ritmo anual próximo de 4%, o limiar para um cenário realmente negativo é elevado, mas a dispersão pode ser significativa”, apontaram em comentário recente de mercado.
Considerando o atual panorama de riscos inflacionários, a Neuberger vê os mercados latino-americanos como relativamente protegidos em comparação com outras regiões emergentes. Isso ocorre, explicaram, “graças à sua exposição a commodities e energia, além de sua distância geográfica em relação ao conflito”.
O Brasil é uma área de especial interesse para a gestora. “A combinação de um ciclo de flexibilização monetária, dos ventos favoráveis proporcionados pelos preços das commodities e de avaliações atrativas pode criar uma oportunidade assimétrica”, afirmaram.
Essa visão é complementada pelo México, devido aos benefícios que a economia mexicana pode obter com o processo de nearshoring impulsionado pelos Estados Unidos em resposta às tensões com a China.



