Do exclusivo e tradicional dinamismo da banca privada de antigamente, dominada por algumas tradicionais casas de investimento locais e grandes nomes internacionais, até a caleidoscópica indústria de gestão patrimonial de hoje, o Chile viu florescer, nos últimos anos, modelos independentes de wealth management. Com mais de uma centena de empresas e indivíduos registrados junto ao regulador, os atores locais apontam para um elemento-chave desse fenômeno: o crescimento do modelo multi-family office (MFO) no país andino.
Impulsionado por uma crescente demanda por assessorias independentes, serviços holísticos e arquiteturas abertas – juntamente com uma regulação que vem evoluindo e moldando o setor desde 2022 –, o segmento vem se expandindo e se organizando. Inclusive, em 2023, um grupo de empresas de assessoria independente uniu forças para criar a Associação Chilena de Assessores de Investimento (ACHAI).
Hoje, a indústria conta com 117 assessores – principalmente sociedades, embora também existam profissionais individuais registrados – inscritos na Comissão para o Mercado Financeiro (CMF). Esse registro é um requisito para operar no mercado local, segundo a regulamentação vigente.
“Essa evolução reflete um amadurecimento do mercado”, comenta à Funds Society o cofundador da Grey Capital e diretor da ACHAI, Nicolás Bacarreza. “O que vemos hoje é uma indústria que já não é de nicho, mas um ator sistêmico com um AUM superior a 19 bilhões de dólares, o que representa quase um terço do patrimônio total administrado pela indústria local de fundos mútuos”, acrescenta.
Vale destacar que vários desses assessores são multi-family offices, que oferecem assessoria de investimentos e uma diversidade de serviços complementares para diferentes faixas patrimoniais.
Uma assessoria integral
“O modelo multi-family office no Chile cresceu principalmente impulsionado por dois fatores. Por um lado, o acúmulo de riqueza no segmento de altos patrimônios e, por outro, uma demanda maior por um modelo verdadeiramente integral”, comenta o gerente de Estudos e Investimentos da AMM Capital, Benjamín Bravo.
Hoje em dia, relatam os atores locais, os clientes não querem recorrer a diferentes assessores para tratar de investimentos, sucessão patrimonial, estruturas societárias e impostos. “Eles querem um assessor que compreenda toda a sua situação patrimonial e seja capaz de coordená-la”, explica.
Além disso, o modelo de MFO permitiu que mais clientes tivessem acesso a um nível de sofisticação de serviço mais próximo ao de um family office, em termos de acesso a produtos de investimento, infraestrutura e construção de portfólio, sem os custos associados.
Nesse contexto, os atores locais observaram investidores se afastando de modelos que combinam assessoria com distribuição de produtos próprios. “A busca por independência e pela liberdade de oferecer aos clientes uma assessoria integral, que vá além dos produtos próprios de um banco ou instituição financeira, continua sendo relevante”, comenta Pablo Recio, diretor-geral da Addwise MFO.
Nesse sentido, o executivo descreve a arquitetura aberta como “o grande impulsionador da indústria” no Chile.
Demanda por arquitetura aberta
De novidade há algumas décadas a padrão geral da indústria, a adoção do modelo de arquitetura aberta foi impulsionada pela busca por eficiência, pela exigência de maior transparência, pela necessidade de alinhar os interesses de gestores e clientes e pelo maior acesso à informação por parte do investidor, segundo relatam os participantes do setor.
“Em um mercado globalizado, a arquitetura aberta deixou de ser um diferencial para se tornar uma exigência técnica e ética. O investidor atual entende que nenhuma instituição, sozinha, possui o ‘melhor gestor’ em todas as classes de ativos”, afirma Bacarreza, da Grey.
Nesse contexto, como os assessores independentes operam sem produtos próprios, eles podem selecionar, dentre a ampla oferta global, com base apenas em critérios técnicos e nos perfis dos clientes, sem compromissos comerciais. “Isso transforma o assessor em um comprador de soluções em nome do cliente, em vez de um canal de distribuição”, acrescenta.
Acesso a investimentos internacionais
Uma variável que se tornou essencial no contexto do crescimento dos MFOs é a demanda por investimentos internacionais. As empresas de assessoria locais apontam essa oferta como um componente fundamental do setor, desempenhando um papel central na construção de portfólios.
“O mercado de capitais local não tem profundidade nem liquidez suficientes para construir um portfólio verdadeiramente diversificado. A exposição internacional permite acesso a classes de ativos que simplesmente não estão disponíveis localmente, na escala necessária”, explica Bravo, da AMM. Ele acrescenta que a “dolarização parcial do patrimônio também cumpre uma função de proteção frente à volatilidade do peso e aos riscos idiossincráticos do ciclo político local”.
Essa demanda se acelerou no país após outubro de 2019, quando a sequência de protestos contra o aumento do custo de vida – fenômeno conhecido como “estallido social” – iniciou uma onda de fluxos para estruturas offshore. Isso colocou fim a décadas de home bias entre os investidores chilenos.
“Esse fenômeno não é novo. Se em alguns segmentos demorou mais para se consolidar, as mudanças produzidas em nossa sociedade a partir de 2019 levaram à adoção de uma participação muito mais significativa de instrumentos internacionais na maioria das carteiras”, relata Recio, da Addwise.
Concorrência e perspectivas
No futuro, os profissionais da indústria preveem que o setor continuará crescendo. Citando oportunidades associadas à transferência geracional de patrimônio, à abertura dos mercados privados, ao avanço da tecnologia, à distribuição internacional de produtos, à conscientização sobre conflitos de interesse e às opções de personalização de soluções de investimento, os atores locais enxergam ventos favoráveis para os próximos anos.
Ainda assim, o crescimento trouxe consigo um aumento na concorrência do setor. Bravo ressalta, no entanto, que essa disputa se concentra no segmento de clientes tradicionalmente atendidos pela banca privada. Esses investidores, explica, “estão em busca dos benefícios de trabalhar com um MFO”. Em contrapartida, a concorrência no segmento de clientes HNWI e UHNWI permaneceu “relativamente estável”, acrescenta o executivo da AMM Capital.
Considerando a proliferação de empresas de assessoria de investimentos, a expectativa é de que haja espaço para fusões e aquisições. “Provavelmente ocorrerá um processo de consolidação, devido à necessidade de maior escala operacional para absorver os custos crescentes trazidos pela regulação”, prevê Recio, da Addwise.
Já a Grey Capital alerta para um potencial risco de concentração associado às normas que regem o setor. “Uma regulação excessiva pode atuar como uma barreira que expulse os especialistas, beneficiando apenas os grandes incumbentes”, afirma Bacarreza, acrescentando que “a diversidade de atores é o que garante que o cliente final sempre tenha opções alinhadas aos seus interesses, e não aos objetivos de uma instituição”.



