Os vaivéns políticos registrados especialmente na América Latina ao longo deste século aprofundaram o fenômeno da migração patrimonial, a saída de capitais, riqueza e cidadãos que buscam mais estabilidade e segurança para seus patrimônios, suas famílias e para si mesmos.
Essa migração patrimonial impulsiona, por sua vez, uma espécie de «reconquista» de lugares e cidades onde os migrantes ricos se instalam e geram polos de riqueza e ultrarriqueza, especialmente em várias das principais cidades dos Estados Unidos, e inclusive na Europa.
«O fenômeno migratório patrimonial não é algo novo, mas é algo que se intensificou nos últimos anos, não apenas no México, mas em toda a América Latina; diante da ascensão de governos de esquerda na região, gerou-se certo grau de incerteza jurídica e financeira, intensificando a migração de patrimônios em busca de segurança», explica Juan Carlos Eguiarte, Country Manager da BAI Capital Financial no México, desenvolvedora imobiliária boutique com sede na Flórida, EUA.
Quais são esses polos de riqueza e ultrarriqueza impulsionados pela migração patrimonial ? Temos um levantamento de alguns dos mais notórios dos últimos anos, que não são necessariamente os únicos.
Key Biscayne, a «Espanha da América»
Key Biscayne, cidade-ilha residencial situada ao sudeste de Miami, Flórida, está plenamente consolidada como um dos enclaves residenciais mais exclusivos e valorizados, residência de famílias ricas, celebridades e executivos de alto nível, com forte presença de latino-americanos e, sobretudo, espanhóis, a ponto de alguns a chamarem carinhosamente de «Key Spain».
Os gestores imobiliários dessa região sabem o que os migrantes ricos procuram e oferecem isso a seus clientes; a proposta para fazê-los «se estabelecer» ali é simples: estilo de vida de «country club», máxima segurança, privacidade e beleza natural, tudo próximo à vibrante vida urbana de Brickell e Miami Beach.
Key Biscayne, ou «Key Spain», oferece condomínios de luxo à beira-mar e mansões privadas, com preços que refletem a alta demanda e a limitada disponibilidade de terrenos. Além disso, a maioria da população do condado de Miami-Dade é hispânica (69,1%), o que facilita a integração cultural dos recém-chegados. Mas não só isso, a sequência de dados relacionados a esse polo de riqueza e ultrarriqueza nos Estados Unidos, vinculado à Espanha e à América Latina, não deixa dúvidas sobre o que a migração patrimonial gerou nesse local.
Key Biscayne é uma das comunidades com maior concentração de residentes nascidos no exterior; a população hispânica total representa 70,3% dos habitantes (aproximadamente 10.400 pessoas), e estima-se que 58,1% da população atual nasceu fora dos EUA, segundo dados de 2025 do Data USA.
Nessa região concentra-se uma das maiores densidades de riqueza per capita na Flórida. A renda familiar média (Median Household Income) está em 181.505 de dólares (mais do que o dobro da média nacional dos EUA); além disso, a renda familiar média total (Average Household Income) é de 309.291 dólares (esse valor é maior devido à concentração de famílias ultrarricas).
No que diz respeito à distribuição de riqueza, estima-se que 48% dos domicílios em Key Biscayne tenham rendimentos superiores a 200.000 dólares anuais, enquanto a renda per capita é estimada em 106.219 dólares (avaliados para o ano de 2024). Tudo isso com dados do U.S. Census Bureau, ao final de 2025.
Mas a narrativa de «refúgio de capitais» se sustenta no fato de que esses grupos não apenas vivem ali, mas utilizam a ilha para dolarizar e proteger seu patrimônio. Os dados da MIAMI Association of Realtors (relatórios 2025-2026) indicam que os compradores internacionais (liderados por latino-americanos) adquiriram 49% de todas as novas unidades de luxo no sul da Flórida até junho de 2025.
Além disso, 68% dos investidores latino-americanos na região pagam suas propriedades totalmente à vista, prova de sua altíssima liquidez e de sua intenção de proteger suas economias da instabilidade em seus países de origem. E não estão ali apenas por moda ou para estadias temporárias: 91% dos compradores dessa região adquirem imóveis em Miami e suas ilhas com fins de investimento ou segunda residência.
Mas não apenas em Key Biscayne; a Flórida possui outros locais atraentes para os ricos latino-americanos que migram em busca de segurança e estabilidade.
Weston, Flórida (a «Westonzuela», o polo sul-americano)
Localizada no condado de Broward, perto de Fort Lauderdale, Weston é considerada uma das cidades com melhor qualidade de vida nos EUA e já se tornou o epicentro da migração patrimonial de venezuelanos, colombianos e argentinos, ou seja, da América do Sul como um todo. Por mais curioso que pareça, Weston é considerada uma das cidades mais hispânicas do país; 56,8% de seus habitantes são latinos. A concentração de venezuelanos é tão alta que a cidade é informalmente chamada de «Westonzuela» (Venezuela).
Weston atrai profissionais e empresários com alta formação acadêmica; estima-se que mais de 53% de seus residentes tenham nascido no exterior, muitos dos quais chegaram com capital para investir em franquias e imóveis. Esse pequeno território dos Estados Unidos representa o sucesso da classe média-alta e alta da América do Sul, que busca um ambiente suburbano ideal (escolas de alto nível, segurança total e parques), sem perder a conexão cultural latina.
Miami, ímã de capitais latino-americanos
A migração patrimonial transformou Miami em uma espécie de «ímã» para capitais latino-americanos, e há vários outros exemplos. Doral é um polo onde a migração patrimonial se traduz diretamente em atividade comercial e logística, ao contrário de Key Biscayne, que é mais residencial e voltada ao descanso. Cerca de 80% de sua população é de origem hispânica, e a cidade registra a maior concentração de venezuelanos per capita nos Estados Unidos.
O fluxo de riqueza para escritórios de private banking em Miami (que atendem Doral) cresceu 10% ao ano, proveniente do México, Argentina, Chile e Peru, em busca de segurança diante da instabilidade política. Doral abriga mais de 150 sedes corporativas e milhares de pequenas e médias empresas fundadas por migrantes patrimoniais que replicaram seus modelos de negócios bem-sucedidos da América Latina em solo americano.
Trata-se de um centro logístico chave; sua proximidade com o Aeroporto Internacional de Miami facilita que capitais latino-americanos controlem grande parte do comércio de importação/exportação com a região. Brickell (Miami) é, por sua vez, o distrito financeiro que recebeu uma migração massiva de «technolatinas» (startups avaliadas em milhões) e banqueiros de investimento da região.
Por sua vez, Coral Gables é considerada o refúgio histórico de famílias industriais centro-americanas e espanholas, caracterizada por uma arquitetura mediterrânea e uma das maiores concentrações de consulados e empresas multinacionais da América Latina.
Se algo fica claro, é que a riqueza das famílias latino-americanas e espanholas não chega aos Estados Unidos de forma passiva (poupança), mas de maneira altamente ativa, dominando 49% das novas construções de luxo na região até meados de 2025. Mas ao sul dos Estados Unidos, e cruzando o Atlântico, há mais exemplos do que os capitais conseguem fazer quando encontram segurança e estabilidade.
Woodlands (Texas), o refúgio da elite mexicana
Localizado ao norte de Houston, Woodlands se consolidou como um refúgio residencial e um «oásis» de luxo para milhares de famílias mexicanas de alto poder aquisitivo, empresários e políticos que buscam segurança, estabilidade e qualidade de vida. Mas Woodlands não é apenas um subúrbio; o que os ricos e ultrarricos latino-americanos construíram ali, especialmente os mexicanos, é todo um ecossistema financeiro e de segurança voltado à transferência de grandes capitais do México (principalmente da Cidade do México, Monterrey e Puebla).
Ao contrário de outras ondas migratórias, nesse caso a migração é puramente patrimonial e empresarial. Estima-se que em Woodlands vivam mais de 10.000 mexicanos de alto e muito alto poder aquisitivo; o boom se deveu a picos de insegurança no México (2006-2012 e 2018-2024), o que transformou The Woodlands em uma «extensão de luxo» de bairros como San Pedro Garza García (Monterrey; o município mais rico da América Latina) ou Tecamachalco (Cidade do México). De fato, a presença de instituições como The John Cooper School ou The Woodlands Prep é um fator decisivo. Por exemplo, as mensalidades podem superar 30.000 dólares anuais por criança.
O mercado imobiliário é o principal veículo de refúgio para o capital mexicano no Texas. Embora o preço médio das casas esteja entre 600.000 e 800.000 dólares , nas áreas onde se concentram os ricos e ultrarricos mexicanos (como Carlton Woods), as mansões variam entre 2,5 milhões e até 15 milhões de dólares.
E, se toda a sequência de dados e números anteriores não fosse suficiente, há um que reflete de forma contundente o nível de riqueza gerado em Woodlands graças à migração patrimonial latino-americana: em Woodlands, o custo de vida é 12% superior à média dos Estados Unidos, devido ao consumo de luxo de seus residentes.
Barrio Salamanca (Madrid), a migração patrimonial que cruza oceanos
Madrid, Espanha, é um atrativo para americanos e latino-americanos; nessa cidade, há alguns anos, ouve-se a brincadeira de que o bairro de Salamanca se tornou o “novo Miami”. Não se trata de uma percepção, os números confirmam; o relatório Luxury Homes 2025, elaborado pela Colliers, aponta que 55% da oferta high-end de Madrid se concentra no bairro de Salamanca e que a cidade atrai investidores internacionais “especialmente da América Latina e dos Estados Unidos”. Segundo suas conclusões, Madrid subiu posições até se consolidar como a segunda cidade europeia mais atrativa para investimento imobiliário, superada apenas por Londres.
Durante 2024, aproximadamente metade das moradias adquiridas na Comunidade de Madrid está localizada na capital, e 7% delas correspondem a investidores estrangeiros. Esse fenômeno foi protagonizado especialmente por compradores provenientes da América Latina e dos Estados Unidos, posicionando Madrid entre os cinco mercados mais rentáveis para investimento em imóveis high-end. Da mesma forma, Madrid se posicionou como a quarta cidade mais atrativa globalmente para indivíduos de alto patrimônio (HNWI), liderando o ranking europeu.
Em particular, o bairro de Salamanca tem sido o maior expoente dessa tendência. Segundo o relatório Madrid Insight 2025/26, elaborado pela Knight Frank, a oferta de habitação prime de obra nova em suas ruas caiu cerca de 20% entre 2020 e 2025, o que ajuda a explicar a pressão sobre os preços em uma área onde a demanda internacional é muito forte.
“O distrito de Salamanca continua sendo o epicentro do mercado prime, concentrando a maior parte das operações de alto valor. Dentro do distrito, destacam-se bairros como Castellana e Recoletos, com preços médios que atualmente variam entre 13.000 €/m² e 15.400 €/m². Aqui se concentram as residências mais exclusivas, junto com uma oferta comercial e gastronômica de alto nível, que reforça seu posicionamento como a área mais prestigiosa de Madrid”, aponta o relatório. Por enquanto, não se prevê aumento nos desenvolvimentos de habitação prime de obra nova nesse distrito devido, segundo o relatório da Knight Frank, à regulação local e ao próprio estilo urbano da cidade.



