A Argentina se torna o primeiro país do mundo onde a Schroders implementa um modelo de distribuição digital de fundos comuns de investimento integrado diretamente a ecossistemas fintech, carteiras digitais e cadeias de valor setoriais.
A gestora global firmou parceria com a Poincenot, empresa local de infraestrutura financeira digital, para levar adiante a iniciativa, que a posiciona como a primeira gestora global independente a operar sob esse modelo no país. A aliança combina mais de 220 anos de experiência global em gestão de ativos com infraestrutura tecnológica local e busca conectar produtos de investimento aos ecossistemas nos quais pessoas e organizações já administram seu dinheiro no dia a dia.
A escolha não foi casual. Gonzalo Binello, head of Latin America da Schroders, explicou à Funds Society quais condições do mercado local foram determinantes: “O mercado argentino combina uma série de atributos especialmente atrativos para a distribuição digital de fundos comuns de investimento. Por um lado, apresenta um alto nível de digitalização, com uma penetração de internet próxima a 90%, um ecossistema fintech desenvolvido e uso massivo de carteiras digitais e banco digital. Isso permite alcançar uma ampla base de usuários de forma eficiente e com grande capacidade de escalabilidade”, afirmou.
A isso se somam fatores de demanda estrutural: “O contexto macroeconômico — marcado por inflação e volatilidade — impulsiona uma demanda estrutural por instrumentos de poupança acessíveis e líquidos, o que favorece a adoção de soluções digitais”, destacou Binello.
Ele também descreveu uma base de investidores jovens, digitais e altamente transacionais, com inclusão financeira elevada, mas ainda concentrada mais em pagamentos do que em investimentos, o que gera “uma oportunidade clara para canalizar esses fluxos para produtos de investimento, em particular soluções de liquidez”.
O marco regulatório completou o quadro: “Embora ainda existam certos requisitos relevantes, houve avanços em processos de desregulamentação, simplificação operacional e reconhecimento da distribuição digital, o que viabiliza esse tipo de modelo”. Em conjunto, a Argentina reúne o que Binello definiu como “um caso ideal para modelos B2B2C apoiados em plataformas digitais”.
Como funciona o modelo
A arquitetura da iniciativa é B2B2C: a Schroders fornece os produtos a intermediários — fintechs, neobancos, plataformas setoriais e algumas ALyCs que já operam com a gestora — que mantêm a relação direta com o cliente final. A responsabilidade sobre a adequação do investidor cabe ao distribuidor, dentro do marco regulatório vigente. Nesta primeira etapa, o foco está em fintechs, ALyCs e plataformas vinculadas a cadeias de valor setoriais.
A integração é feita por meio de APIs seguras, e o tempo de implementação varia conforme as capacidades tecnológicas de cada parceiro, embora as duas empresas trabalhem de forma coordenada para executá-la no menor prazo possível. O pipeline atual já mostra forte interesse do mercado, com vários projetos em processo de integração.
Diante dos participantes locais que já atuam em canais digitais, Binello destacou a diferenciação trazida pela Schroders: “Nossas capacidades globais de investimento, a diversificação internacional e mais de 200 anos de experiência em gestão de ativos nos permitem nos posicionar não apenas como provedores de produtos, mas como uma ponte de acesso a mercados globais, algo especialmente relevante no contexto argentino”. O modelo se completa com iniciativas de marketing, educação financeira e desenvolvimento de produtos voltadas especificamente para esse canal.
A oferta inicial inclui toda a gama de produtos locais da Schroders Argentina: fundos de renda fixa, renda variável e money market, tanto em pesos quanto em dólares, cobrindo diferentes perfis e necessidades de investimento.
O lançamento ocorre, ainda, em um momento de expansão contínua da indústria local. Segundo dados da CAFCI e estimativas do setor, os ativos sob gestão em fundos comuns de investimento superam os 90 trilhões de pesos, com dois anos consecutivos de crescimento real acima da inflação. A participação de investidores individuais no patrimônio total cresceu de forma significativa nos últimos cinco anos, evidenciando uma rápida democratização do acesso à poupança e ao investimento que esse modelo busca aprofundar.
A visão regional
Com a Argentina como laboratório, a Schroders já considera uma expansão. Binello foi claro sobre prazos e etapas: “Hoje nosso foco está na Argentina. Queremos consolidar a implementação inicial e, com base nos resultados que formos obtendo, avaliar oportunidades de expansão para outros países em uma segunda etapa”, afirmou. Ele não mencionou mercados específicos, mas identificou as condições necessárias para replicar o modelo em outros países: digitalização avançada, demanda estrutural por instrumentos de poupança e um ambiente regulatório que permita a distribuição digital.
Enquanto isso, em comunicado oficial da gestora, Binello destacou o significado de a iniciativa nascer na região: “Temos orgulho de que esta iniciativa seja desenvolvida na América Latina, uma região que continua se destacando por sua inovação financeira, e vemos grande potencial para que as capacidades desenvolvidas aqui possam ser escaladas para outros mercados”.
Pela Poincenot, Augusto Fernández Villa, CEO e cofundador da empresa, resumiu a lógica de negócios por trás do modelo: “Onde há usuários, quem os detém quer monetizá-los. Hoje os usuários estão principalmente dentro das comunidades. Por isso, há tantas oportunidades para oferecer diferentes tipos de produtos e soluções financeiras embutidas”.
As soluções financeiras embutidas, ou embedded finance, são a integração de serviços financeiros — como pagamentos, empréstimos, seguros ou investimentos — diretamente em plataformas ou aplicativos que não são financeiros. Elas permitem que os usuários realizem transações sem sair do aplicativo que estão utilizando.



