O desempenho superior das ações de empresas de energias renováveis em 2025 refletiu mudanças reais nas prioridades das políticas públicas e da economia, que continuaram ao longo de 2026. As recentes e persistentes tensões geopolíticas reforçaram uma realidade que muitos países passaram a enfrentar diretamente: a segurança energética importa.
Em toda a Europa, a iniciativa REPowerEU, de 300 bilhões de euros (US$ 353 bilhões), lançada em 2022 após a crise energética provocada pela guerra na Ucrânia, foi reforçada por novas medidas destinadas a reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados em resposta ao conflito no Oriente Médio. A Alemanha comprometeu-se a realizar leilões adicionais de 12 gigawatts (GW) de energia eólica onshore em março, enquanto a França lançou, em abril, licitações para 10 GW de energia eólica offshore, explicitamente vinculadas à fabricação europeia. Já o Reino Unido antecipou para julho a oitava rodada de seu programa de leilões, principal mecanismo do governo para apoiar a geração de eletricidade de baixo carbono.
Em outras regiões, a China continua investindo fortemente em energia limpa, reafirmando a meta de dobrar sua capacidade de geração renovável até 2035, partindo de uma base já elevada. Nos Estados Unidos, por sua vez, permanecem em vigor incentivos para determinadas tecnologias renováveis, como energia solar e armazenamento em baterias, apesar de metas aparentemente menos ambiciosas.
Os preços mais elevados do gás natural e a incerteza geopolítica reforçaram a importância de fontes renováveis confiáveis, como sistemas solares combinados com armazenamento em baterias. Está surgindo um “prêmio de confiabilidade verde” em mercados onde a energia renovável com capacidade firme já alcança preços superiores aos do gás natural sem restrições.
À medida que os custos continuam caindo graças aos avanços tecnológicos e aos ganhos de escala, a economia das energias renováveis melhora. No caso do armazenamento em baterias, isso cria um círculo virtuoso que impulsiona um crescimento expressivo da capacidade instalada, transformando fontes intermitentes em geração despachável e confiável.
Os riscos que os investidores ainda precisam considerar
Essa transição, porém, não está livre de riscos. Apesar do cenário estruturalmente favorável, alguns fatores ainda exigem cautela. Projetos de energia renovável continuam sensíveis às variações das taxas de juros, devido ao elevado investimento inicial exigido em comparação com alternativas baseadas em combustíveis fósseis, tornando o Custo Nivelado de Energia (LCOE) mais vulnerável ao aumento do custo de financiamento. Além disso, a inflação dos custos de insumos — especialmente aço, cobre, lítio e outros materiais críticos — pode comprometer a viabilidade econômica dos projetos caso não seja adequadamente administrada.
Esses fatores exigem seletividade. Nem todas as tecnologias, desenvolvedores ou mercados apresentam o mesmo potencial, e a disciplina na alocação de capital continua sendo essencial. Na avaliação do autor, investidores que focam apenas no crescimento da capacidade instalada, sem analisar balanços, contratos e estruturas de custos, correm o risco de se decepcionar.
Por que as tecnologias habilitadoras podem oferecer os retornos mais resilientes
Sob a perspectiva de alocação de ativos, as oportunidades mais atrativas surgem na interseção entre a transição energética, a eletrificação e o crescimento da demanda impulsionado pela inteligência artificial. Armazenamento em baterias, infraestrutura de redes elétricas e energia solar em escala de concessionárias destacam-se como segmentos com crescimento estrutural de longo prazo e catalisadores claramente identificáveis.
O sistema energético do futuro será mais eletrificado, mais distribuído e significativamente mais complexo do que o atual. Na visão do autor, empresas que tornam essa transformação possível — por meio de armazenamento, redes ou outras tecnologias habilitadoras — estão mais bem posicionadas para gerar retornos sustentáveis no longo prazo.
Reavaliando a energia tradicional
As perspectivas para petróleo e gás tornam-se cada vez mais dependentes da região. Nos Estados Unidos, o gás natural mantém elevado valor estratégico graças às abundantes reservas domésticas e à sua competitividade econômica. Já fora do país, os argumentos para investimentos em hidrocarbonetos tradicionais vêm perdendo força.
A persistente sensibilidade da União Europeia aos preços da energia importada ilustra esse cenário. Em 2025, o bloco importou 337 bilhões de euros em produtos energéticos. Países com menor dependência de combustíveis fósseis para geração de eletricidade, como França e Espanha, enfrentaram melhor os recentes choques de preços do que economias mais dependentes, como a Itália.
Dinâmicas semelhantes podem ser observadas em partes da Ásia. O rápido avanço da energia solar em países como o Paquistão ajudou a proteger sua economia da volatilidade dos preços do petróleo, enquanto Bangladesh e outros países fortemente dependentes de importações sofreram impactos mais intensos.
Esses exemplos reforçam a visão de que a capacidade doméstica de geração renovável representa uma vantagem estratégica para regiões importadoras de energia.
Embora o gás natural mantenha importância estratégica nos Estados Unidos e como fonte de respaldo ao sistema energético global, o crescimento da demanda por petróleo — estimado em cerca de 1 milhão de barris por dia por ano até 2030 —, aliado à disciplina de capital, à volatilidade geopolítica e aos riscos associados a projetos de ciclo longo, torna a seletividade essencial, sobretudo fora da América do Norte.
Energia nuclear, metais críticos e infraestrutura para a eletrificação
Além das energias renováveis e dos hidrocarbonetos, o autor identifica oportunidades relevantes em energia nuclear e metais críticos. A energia nuclear ressurge como solução tanto para a segurança energética quanto para os objetivos climáticos. O Japão pretende elevar a participação da energia nuclear para 22% da geração elétrica até 2030, ante cerca de 8% atualmente. A China busca alcançar 110 GW de capacidade nuclear até 2030, enquanto os Estados Unidos anunciaram planos para construir 10 novos reatores até o fim da década.
Ao mesmo tempo, espera-se que a demanda por urânio aumente, enquanto a oferta proveniente da mineração deverá diminuir. Esse desequilíbrio sugere preços elevados do urânio no futuro previsível. Além disso, grandes empresas de tecnologia (hyperscalers) estariam dispostas a pagar prêmios entre 60% e 100% acima dos preços de mercado para garantir fornecimento de energia nuclear, criando um ambiente favorável para os produtores.
Os metais críticos também ocupam posição central nessa transformação. O domínio da China no processamento desses materiais criou dependências geopolíticas que estão redefinindo os fluxos globais de comércio e investimento. Cobre, lítio, terras raras, grafite e outros minerais não estão sendo produzidos em ritmo suficiente para atender às metas de eletrificação. Na visão do autor, será necessário um período prolongado de preços elevados para estimular os investimentos necessários ao fechamento dessa lacuna. Não apenas os produtores desses metais deverão se beneficiar, mas também os fabricantes de equipamentos de mineração e perfuração, indicando o início de um ciclo de investimentos de vários anos.
Onde o autor vê mais oportunidades — e onde permanece cauteloso
O autor mantém uma visão bastante positiva para os segmentos ligados à infraestrutura elétrica, competitividade e segurança energética. O armazenamento em baterias se destaca em praticamente todos os cenários, sustentado pela necessidade de estabilidade das redes elétricas, pela competitividade econômica das energias renováveis com capacidade firme e pelo aumento da demanda por eletricidade. Os investimentos em transmissão e distribuição também são considerados fundamentais para eliminar gargalos das redes e permitir tanto a integração das fontes renováveis quanto a expansão dos centros de dados.
Por outro lado, o autor adota uma postura cautelosa em relação aos produtores de petróleo upstream fora dos Estados Unidos. A capacidade ociosa da OPEP e a limitada expansão da capacidade global de refino favorecem produtores integrados. No entanto, a dependência de energia importada e o risco de ativos obsoletos reduzem a atratividade de projetos de petróleo de ciclo longo fora da América do Norte. Além disso, a relação entre risco e retorno também parece menos favorável em parte do segmento de energia eólica offshore, onde elevados riscos de execução e pressão sobre margens continuam exigindo apoio externo para garantir a viabilidade econômica dos projetos.
Uma oportunidade de investimento em nível sistêmico
Na visão do autor, investir em energia em 2026 não significa escolher entre fontes renováveis e tradicionais, mas compreender como um sistema energético complexo está evoluindo.
Confiabilidade, resiliência e competitividade estão se tornando os principais critérios de investimento.
Empresas que viabilizam a eletrificação — sejam produtoras de metais, desenvolvedoras de projetos ou fornecedoras de equipamentos — e que conseguem fazê-lo em larga escala, com segurança e eficiência econômica, deverão moldar e capturar os benefícios da transformação dos mercados globais de energia nos próximos anos.
Tribuna de opinião assinada por Tal Lomnitzer, CFA, Senior Investment Manager da Janus Henderson Investors.
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