O gap de expectativas
Hoje, investir está mais acessível do que nunca.
Atualmente, pessoa pode comprar ações de uma empresa global de tecnologia, negociar ativos digitais ou fazer transferências internacional em segundos, tudo pelo smartphone. A experiência é fácil, intuitiva e desenhada em torno da velocidade.
No entanto, quando esse mesmo investidor, ou até mesmo um grande cliente investidor institucional, tenta acessar um fundo de investimento tradicional, a experiência costuma ser bem mais complexa.
Essa contradição está se tornando cada vez mais difícil de ignorar. Em muitos casos, é mais fácil para uma pessoa comprar ações de uma empresa listada nos EUA por meio de um aplicativo do que para um fundo de pensão subscrever cotas de um fundo localmente. Essa tendência revela uma questão mais profunda no setor: não a falta de demanda, mas um descompasso entre expectativa e realidade.
Uma nova geração está entrando no mercado com expectativas diferentes. Esses investidores cresceram em um mundo digital, no qual os serviços são instantâneos, as interfaces são simples e o acesso é sem restrições. Suas preferências foram moldadas pelas plataformas que utilizam no dia a dia – do e-commerce aos bancos digitais e além – e não pela indústria de gestão de recursos.
A decisão de investir deixou de ser guiada apenas pela performance dos investimentos. A experiência do usuário também se tornou um fator determinante.
Dados recentes reforçam a dimensão dessa transformação. Cerca de 59 milhões de brasileiros já investem em produtos financeiros, enquanto outros 18 milhões afirmam ter a intenção de começar a investir, indicando a expansão significativa da base de investidores que ainda está por vir.
Um mercado em expansão, mas ainda pouco evoluído
Nesse contexto, a estrutura do mercado começa a se transformar. Durante décadas, a distribuição de produtos esteve baseada em relacionamentos, com investidores acessando um conjunto relativamente limitado de produtos. Esse modelo, porém, vem se abrindo. As plataformas estão expandindo, os investidores buscam maior diversificação, e as mudanças regulatórias introduzidas pela CVM 175 aceleraram o acesso aos mercados internacionais.
Essa mudança já é visível nos níveis de participação do mercado. Os investidores pessoa física no Brasil ampliaram de modo significativo suas carteiras de investimento nos últimos anos, com os ativos totais de investimentos individuais alcançando aproximadamente R$ 7,22 trilhões até setembro de 2024, um aumento de 11,5% comparado com o final de 2023.
Investidores de varejo buscam cada vez mais oportunidades offshore, muitas vezes por meio de canais digitais, enquanto instituições locais procuram ampliar sua oferta de produtos e se conectar a um ecossistema mais amplo.
Essa tendência aponta para mais opções, maior conectividade e participação crescente.
Entidades do setor, como a ANBIMA, já destacaram a necessidade de aprimorar a eficiência de plataformas e a experiência do investidor, à medida que investimentos cross-border se expandem, reforçando que acesso, por si só, não é suficiente.
Porém, oferecer acesso a diferentes ativos, por si só, não define a experiência de investimento.
Mesmo quando há interfaces digitais, elas nem sempre refletem o que acontece nos bastidores. O que aparenta ser uma experiência fluida ainda pode depender de sistemas fragmentados, intervenções manuais e processos em lote. O resultado é uma experiência que parece digital, mas que, na prática, não é.
Para investidores acostumados a interações em tempo real, isso cria um desalinhamento. A indústria avançou na forma como o investimento é apresentado – e na percepção que transmite –, mas não necessariamente na forma como ele funciona.
A infraestrutura passou a definir a experiência
É nesse contexto em que a discussão sobre automação precisa evoluir.
Tradicionalmente, a automação era associada à eficiência – a redução de custos, diminuição de erros e fortalecimento da resiliência operacional. Esses benefícios continuam sendo fundamentais, especialmente em um ambiente regulatório com maior transparência. Mas já não contam toda a história.
Hoje, a automação é o que viabiliza a experiência que os investidores esperam.
As instituições não conseguem oferecer uma jornada de investimentos rápida, intuitiva e de baixo custo se a infraestrutura que a sustenta for lenta, fragmentada ou dependente de processos manuais. Um front-end moderno não compensa um back-end obsoleto. Se os sistemas subjacentes não conseguem operar de forma integrada, a experiência do investidor sempre ficará aquém das expectativas.
Em mercados em que essa transformação já ocorreu, o impacto é claro. Altos níveis de automação e conectividade permitiram que instituições processassem grandes volumes de transações de forma eficiente, mesmo em períodos de volatilidade, mantendo níveis consistentes de serviço. Isso cria uma clara vantagem competitiva: líderes digitais conseguem fazer o onboarding de novos clientes institucionais mais de duas vezes mais rápido e a um quarto do custo, além de alcançarem crescimento e rentabilidade significativamente superiores.
Mais importante ainda: essa robustez operacional se traduz diretamente em uma experiência melhor para o investidor final – com execução mais rápida, maior transparência e fricção ao longo da jornada.
O Brasil agora se encontra em um ponto de inflexão semelhante.
Competindo pela próxima geração de investidores
Com as bases regulatórias da Resolução CVM 175 amplamente estabelecidas, o foco está mudando de compliance para competitividade. Ao mesmo tempo, tendências mais amplas – dos investimentos internacionais à emergência de modelos tokenizados – elevam ainda mais as expectativas.
Os investidores já não comparam transações em fundos de investimento apenas com outros produtos financeiros. A comparação é feita com experiencias digitais de qualquer setor ou serviço.
O futuro da indústria não será definido apenas pelos produtos que ela oferece, mas por como esses produtos chegam ao investidor.
Para gestores, administradores e plataformas no Brasil, isso representa uma oportunidade relevante. Ao investir na infraestrutura necessária para sustentar um ecossistema totalmente conectado e automatizado, será possível alinhar a experiencia em fundos às expectativas de uma nova geração de investidores – uma geração que valoriza velocidade, simplicidade e acesso tanto quanto performance.
Aqueles que conseguirem avançar nessa direção não apenas melhorarão a eficiência nos bastidores. Eles destravarão crescimento ao tornar o investimento mais acessível, mais escalável e, em última análise, mais relevante.
Em um mercado em que as opções estão se expandindo rapidamente, o diferencial decisivo não será apenas o que você oferece, mas o quão fácil é o acesso para os investidores.
