Ao comparar os eventos de fraudes e liquidações ocorridos no ano passado no mercado de crédito privado que envolveram problemas com os ativos de Ambipar, Raízen e Pão de Açúcar, os impactos foram bem menores que aqueles ocorridos em 2023. Naquele ano, as dificuldades verificadas com os papéis das Americanas e da Light representaram uma queda de 3,69% no retorno do mercado de dívida corporativa. Já em 2025, o impacto representou uma queda de apenas 0,6% na rentabilidade média do IDEX CDI – índice que mede o retorno das 500 debêntures com maior negociação do mercado brasileiro.
Os dados foram apresentados por Alexandre Muller, CIO da JGP Crédito, no 15º Seminário de Investimentos nas EFPC, realizado nesta quarta-feira (06/05) em São Paulo. Organizado pela Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), o evento reúne gestores de assets e fundos de pensão em São Paulo em dois dias de palestras e debates sobre os investimentos do setor. “O impacto dos eventos do ano passado foram bem menores se comparados aos de 2023 porque as carteiras estão mais diversificadas e o mercado está mais maduro”, explicou Muller.
Com base no desempenho do índice, o gestor mostrou que o mercado de crédito registrou rentabilidade média de CDI mais 1,04% ao ano nos últimos nove anos – desde quando o IDEX foi criado. se não fossem os eventos de 2023 e 2025, o retorno teria sido de 1,54%. Ou seja, os eventos de Americanas, Light e das empresas que enfrentaram dificuldades no ano passado consumiu cerca de 0,5% no retorno do segmento no período analisado. Ainda assim, o desempenho do crédito privado foi bastante superior ao CDI, ao índice de small caps e do IMA-B, perdendo apenas para o Ibovespa. O principal índice da B3 superou o IDEX apenas nos últimos meses, devido ao rally verificado no ano passado e início de 2026.
Ao analisar o cenário atual do mercado de crédito brasileiro, o gestor da JGP Crédito admitiu que o setor enfrenta um momento desafiador de forte pressão com taxas de juros ainda elevadas, prêmios comprimidos e riscos altos. Ele avalia que é um momento bastante complicado para as pequenas empresas, que apresentam altos níveis de inadimplência. O mesmo acontece com o endividamento das famílias brasileiras, que agora podem ter a inadimplência aliviada com um novo programa Desenrola 2.0, que deve ser lançado pelo Governo Federal nas próximas semanas.
Por outro lado, Alexandre Muller enaltece a resiliência de grandes empresas com maior capacidade de pagamento de seus compromissos devido à capacidade de repasse de preços. Exemplos dessas empresas são a Localiza, a Rede D’Or, CCR e Iguatemi. O gestor da JGP explicou que se trata de empresas com posição econômica privilegiada, com o que se chama “price in power” que possuem capacidade de repassar o aumento dos custos e dos juros para os preços de seus produtos e serviços. “A economia brasileira está verificando um fenômeno de oligopolização deste seleto grupo de empresas”, disse Muller.
Apesar dos desafios enfrentados pelo mercado de dívida no momento atual, o gestor da JGP acredita que há melhores oportunidades agora do que em outros momentos de instabilidade, como por exemplo, em 2021 ou 2022, quando as taxas de juros eram mais baixas. Hoje existe um desafio de selecionar os papéis mais adequados, mas há mais oportunidades do que há cinco ou seis anos.
Horizontes mais longos
Ulisses Nehmi, CEO da Sparta Investimentos, apontou para a importância de olhar para horizontes de maior prazo em momentos de dificuldade como o que é enfrentado no cenário atual. Com cenário de juros ainda altos, spreads amassados e riscos mais altos, o gestor destacou a importância de manter a cautela para não incorrer em erros que possam comprometer o desempenho futuro das carteiras.
“Não devemos olhar apenas os horizontes de curto prazo. O retorno recente pode enganar. E errar pode custar muito caro”, apontou Nehmi. Ele alertou que é importante buscar consistência com a adoção de uma postura mais cautelosa, capaz de trazer maiores retornos no longo prazo”, recomendou. Ele recomendou que não é o momento de aumentar o risco e a exposição em ativos de crédito privado. Para o gestor, pode ser que o cenário esteja começando a mudar e novas oportunidades podem aparecer, mas ainda não é o momento de aumentar a exposição.
Por isso, ele acredita que o mais importante é estar preparado para aumentar a exposição quando aparecem as melhores oportunidades. “O ganho não está no carrego, está no preço de entrada. E ainda não estamos no momento adequado, no momento de entrar. Temos de esperar pelas boas janelas para investir, quando os ativos estejam com desconto relevante”, disse Nehmi. Ele explicou que as boas oportunidades aparecem quando há ondas de resgates significativas, quando aparecem os descontos mais atrativos. “O momento de entrada pode estar se aproximando, mas ainda não chegou”, comentou.
Pequenas empresas
Com uma visão diferente dos gestores mencionados anteriormente, Eduardo Telles, Head de Gestão de Crédito High Yield na Bradesco Asset Management, analisa que o segmento de pequenas empresas oferece oportunidades atrativas no cenário atual. “Não tivemos grandes disrupções em pequenas empresas e a inadimplência está em níveis estáveis”, comentou. Ele alerta, porém, para as dificuldades de segmentos de dependem de pessoas físicas e das famílias, que estão com nível de endividamento alto e inadimplência crescente.
“O endividamento das famílias cresceu muito. As famílias aumentaram muito o nível de endividamento agora que estamos em um cenário de pleno emprego. Com a perspectiva de aumento do desemprego, o cenário deve piorar”, alertou o gestor. As perspectivas não são favoráveis também para o agronegócio que enfrenta, o que ele chamou de tempestade perfeita. O setor já vinha enfrentando dificuldades desde o ano passado, mas o cenário de guerras deste ano, agravou ainda mais o cenário para as empresas do agronegócio no Brasil.
Crédito estruturado
Eduardo Telles analisou ainda a evolução e as oportunidades do segmento de FIDCs e títulos securitizados. “É um segmento com pouca volatilidade e pouca correlação com ativos de risco. Os FIDCs e debêntures financeiras são veículos muito flexíveis, tanto para investimentos com risco bastante controlado quanto mais arrojados”, disse.
Apesar das boas oportunidades de retorno do segmento, nem tudo são flores. O gestor do Bradesco apontou e analisou “cases” negativos com os FIDCs, como aqueles que ocorreram com a Empírica e Captalys, que foram mais noticiados na mídia. E citou ainda outros que não foram muito noticiados, mas que apresentaram dificuldades para os gestores e investidores.
Baixa exposição
Com uma postura mais conservadora, os fundos de pensão brasileiros mantêm distância dos ativos de crédito privado. Há dez anos, ou seja em 2016, cerca de 3% do patrimônio total das fundações estavam alocados em ativos de crédito. Hoje são apenas 0,7% das reservas que estão aplicadas neste tipo de papéis, mostrou Adílson Stodulski, membro da Comissão Técnica de Investimentos da Abrapp.
Ele disse que os fundos de pensão têm revisado os critérios de análise de risco dos ativos de crédito em decorrência de recentes eventos de fraudes e liquidações de empresas dos últimos anos. E indicou que o setor tem apresentado sinais de maturidade ao não apresentar perdas devido às aplicações em ativos com dificuldades, como foram os papéis do Banco Master. Os fundos de pensão não apresentaram exposição a esses ativos segundo informações do órgão fiscalizador do sistema, a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc).



