O ouro recua desde as máximas de janeiro, o bitcoin recupera terreno após um primeiro trimestre adverso e a renda variável permanece em zona de euforia. A leitura habitual interpreta esses movimentos como ruído de ciclo. A leitura correta é outra: as categorias com as quais analisamos as classes de ativos foram concebidas para um balanço soberano disciplinado — e esse balanço já não existe.
A expansão monetária e fiscal sustentada da última década não é conjuntural. É o regime operacional das principais economias avançadas. Dívida pública crescente, juros reais contidos por recompras de balanço e déficits estruturais normalizados. Nesse contexto, a função tradicional de cada ativo está sendo reescrita. A renda fixa soberana deixa de ser livre de risco e passa a ser o veículo silencioso pelo qual o emissor transfere sua indisciplina ao investidor. O ouro recupera seu papel histórico como âncora de reserva, embora sua correção desde o pico de janeiro lembre que até mesmo o refúgio físico enfrenta limites operacionais e de liquidez. Mas a novidade estrutural — e a que realmente importa para quem constrói carteiras e mandatos — está nos ativos digitais.
O erro mais comum é classificá-los como uma classe de ativos emergente. Não são. Eles representam uma resposta de infraestrutura a uma pergunta que a macroeconomia vem formulando: o que sustenta o valor quando o emissor perde disciplina e qual trilho liquida esse valor sem depender de um intermediário soberano? Três categorias cumprem funções distintas dentro de uma carteira institucional e precisam ser analisadas separadamente.
O bitcoin é um ativo de reserva com oferta fixa verificável, emissão previsível e neutralidade sem emissor. Não compete com o ouro em simbolismo; compete em propriedades monetárias. A correção desde as máximas não invalida a tese. Pelo contrário, a reforça: o catalisador estrutural — um modelo fiscal cujo custo os cidadãos pagarão por meio da inflação e da repressão financeira — permanece intacto. A recuperação em direção aos 80 mil dólares após tocar mínimas no primeiro trimestre ocorreu com um perfil de investidores cada vez mais concentrado em tesourarias corporativas, ETFs regulados e veículos institucionais. A migração do investidor especulativo de varejo para os balanços corporativos é, por si só, uma leitura do regime atual.
As stablecoins atreladas ao dólar são o trilho de liquidação programável que o sistema bancário correspondente nunca conseguiu oferecer. Movimentam capital global em segundos, a custo marginal e sem restrições de horário. O aspecto verdadeiramente estrutural não é a velocidade — pagamentos em tempo real já existiam à custa da imobilização de liquidez —, mas o custo de capital. O CEO da Western Union resumiu isso sem ambiguidades: as stablecoins devolverão à empresa 1,5 bilhão de dólares atualmente presos em sua rede de pagamentos, capital que poderá voltar a ser produtivo. O mesmo cálculo já está sendo aplicado por tesourarias corporativas com redes globais de fornecedores, onde o modelo de stablecoin corporativa permite separar o dinheiro operacional do dinheiro produtivo: a moeda fiduciária permanece investida no sistema financeiro tradicional gerando rendimento, enquanto sua versão digital executa os fluxos de pagamento. A GENIUS Act, sancionada em julho de 2025, já possui desde abril seu regime de conformidade contra lavagem de dinheiro e sanções em consulta pública por meio da FinCEN e da OFAC. O Tesouro dos Estados Unidos já enquadra as stablecoins como um vetor de demanda estrutural por dívida soberana. E a disputa atual entre o lobby bancário e os emissores não bancários em torno das stablecoins remuneradas é talvez a melhor confirmação de sua relevância sistêmica: aquilo que ameaça depósitos bancários só passa a ser combatido quando já adquiriu peso significativo.
Já os ativos reais tokenizados — imobiliário, crédito privado e renda fixa estruturada — estão migrando do balanço tradicional para a liquidez digital. Não como exercício cosmético, mas como colateral programável capaz de circular em plataformas DeFi, tesourarias corporativas denominadas em stablecoins e mercados de capitais nativos do ecossistema cripto. Esse segmento já supera 37 bilhões de dólares em valor on-chain, com crescimento superior a 200% em relação ao ano anterior. Os movimentos recentes reforçam essa tendência. A BlackRock registrou em maio duas novas estruturas de fundos tokenizados junto à SEC. Ondo, JPMorgan, Mastercard e Ripple realizaram a primeira liquidação transfronteiriça em tempo real de títulos do Tesouro americano tokenizados na XRP Ledger. Não se trata mais de provas de conceito. São fluxos institucionais operando sobre infraestrutura on-chain, com custodiante especializados, cofres regulados e mecanismos de governança de colateral que reproduzem, em formato programável, as disciplinas tradicionais do crédito estruturado.
A evidência empírica dessa transformação surgiu há meses. O conflito no Golfo interrompeu voos a partir de Dubai, principal centro físico de negociação de ouro do mundo. As barras ficaram retidas, sendo negociadas com desconto de 30 dólares por onça em relação ao benchmark de Londres. O bitcoin, naquele mesmo momento, continuou circulando sem qualquer fricção. A diferença não é filosófica. É operacional. Os fluxos subsequentes confirmaram essa leitura: cada vez mais capital sofisticado prefere trilhos cuja liquidação não depende de aviões, cofres ou janelas de funcionamento.
O arcabouço regulatório europeu já reconhece essa transição. O regulamento MiCA está em vigor desde 2024; a Lei dos Mercados de Valores Mobiliários e Instrumentos Financeiros passou a integrar sistemas baseados em DLT; o Listing Act ajustou os limites de emissão; e a CNMV abriu caminhos para o registro de valores mobiliários tokenizados. Do outro lado do Atlântico, a CLARITY Act foi aprovada pelo Comitê Bancário do Senado neste mês. A infraestrutura regulatória deixou de ser um obstáculo e tornou-se o elemento que separa os participantes sérios do ruído especulativo que dominava a discussão anteriormente.
Há ainda um vetor que acelera todas essas transformações: a economia agêntica. Agentes de inteligência artificial já executam tarefas e ordenam transações dentro de infraestruturas empresariais. O colapso das avaliações de empresas de software baseadas em licenças por usuário ao longo do último ano representa o mercado precificando essa mudança em tempo real. Uma economia na qual agentes autônomos contratam serviços e liquidam pagamentos não pode operar sobre trilhos concebidos para seres humanos atrás de um balcão. Ela exige dinheiro programável, colateral programável e regras verificáveis por código. A infraestrutura digital descrita aqui não é apenas uma alternativa de investimento. É a camada fundamental sem a qual essa nova economia não consegue funcionar.
O que o ambiente atual exige do profissional financeiro é, portanto, diferente. Não basta dominar as categorias tradicionais. É necessário combinar visão macroeconômica, estrutura de mercado, arquitetura regulatória e disciplina operacional aplicada à infraestrutura digital. Esse é o perfil que a indústria está demandando. O desacoplamento observado atualmente não é ruído. É o sinal de que o regime monetário está reescrevendo a função de cada classe de ativos — e de que a própria economia começa a operar em código. Quem souber interpretar esse processo construirá a estratégia. Quem não souber, arcará com os custos.
Artigo de Carlos Salinas, professor do Mestrado em Blockchain e Ativos Digitais do IEB.




