As cartas mais recentes de Larry Fink, presidente e CEO da BlackRock, e Jamie Dimon, presidente e CEO do JPMorgan Chase, aos seus respectivos conselhos de administração, têm uma particularidade que não era observada em outros anos: ambas revelam duas estratégias diferentes, mas uma coincidência fundamental: o antigo mapa dos investimentos já não é suficiente para explicar onde estará o crescimento nos próximos anos. Trata-se de uma grande transformação do ecossistema dos investimentos para as próximas décadas.
Fink escreve à frente da maior gestora de ativos do mundo e defende que o futuro dos investimentos passa por conectar mercados públicos e privados, tecnologia, infraestrutura, inteligência artificial e uma participação muito mais ampla dos investidores. Dimon, por sua vez, faz isso a partir do maior banco dos Estados Unidos, mas com uma visão que também busca integrar banco, gestão patrimonial, mercados privados, ETFs, ativos digitais e inteligência artificial.
Eles não estão propondo exatamente a mesma coisa. Mas ambos estão chegando a uma conclusão semelhante: o investimento do futuro não estará organizado em torno de um único ativo, mas sim de um ecossistema.
E os números mostram que não se trata apenas de discurso. A BlackRock encerrou junho com um recorde de US$ 15,3 trilhões em ativos sob gestão, após captar US$ 321 bilhões em entradas líquidas durante o primeiro semestre de 2026, dos quais US$ 192 bilhões chegaram no segundo trimestre. Os fluxos foram amplos e vieram de ETFs, mercados privados, renda fixa ativa e estratégias sistemáticas de renda variável. Paralelamente, as receitas com serviços tecnológicos e assinaturas cresceram 13% na comparação anual, impulsionadas pelo Aladdin e por soluções multiproduto.
O JPMorgan Asset & Wealth Management também não fica atrás. Encerrou 2025 com US$ 7,1 trilhões em ativos de clientes, frente aos US$ 5,9 trilhões reportados um ano antes. Seus ativos alternativos alcançaram US$ 560 bilhões, ante US$ 504 bilhões em 2024 e apenas US$ 221 bilhões em 2015. A divisão registrou ainda US$ 553 bilhões em fluxos de ativos de clientes em 2025, um recorde que também marca o vigésimo segundo ano consecutivo com entradas líquidas positivas.
O tamanho de ambos os negócios ajuda a entender a magnitude do que está mudando.
Fink: investir já não significa apenas comprar ações e títulos
A carta de Larry Fink de 2026, intitulada Growing with your country: Thoughts from a long-term optimist (Crescendo com seu país: Reflexões de um otimista de longo prazo), parte de uma preocupação que poderia parecer distante da gestão de carteiras: o mundo está deixando para trás o modelo de globalização que dominou as últimas décadas.
A Europa está aumentando seus gastos com defesa, os Estados Unidos buscam reconstruir sua capacidade industrial e os mercados emergentes desenvolvem fontes domésticas de energia. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial está exigindo a construção de centros de dados, redes elétricas, semicondutores e novas capacidades de computação.
O ponto central de Fink é que essa transformação exige enormes quantidades de capital. E, em sua opinião, bancos e governos já não podem financiar sozinhos os investimentos de que a nova economia precisa. Os mercados de capitais terão de assumir uma parcela cada vez maior dessa tarefa.
Aqui surge uma mudança fundamental na visão da BlackRock. Durante décadas, o crescimento da empresa esteve associado principalmente à renda fixa institucional, aos fundos indexados e, posteriormente, aos ETFs da iShares. Agora, Fink descreve uma empresa consideravelmente mais ampla: uma plataforma que quer atuar em renda variável, renda fixa, ETFs, mercados privados, infraestrutura, crédito privado, ativos digitais, tecnologia e dados.
Essa evolução se reflete até mesmo na estrutura de suas aquisições. A BlackRock concluiu, em 2025, as aquisições da HPS Investment Partners, da Preqin e da ElmTree, depois de ter adquirido a Global Infrastructure Partners (GIP) em 2024. O resultado é uma plataforma que combina mercados públicos, mercados privados e tecnologia.
E o objetivo está claramente definido: a BlackRock quer alcançar US$ 400 bilhões em captação bruta acumulada em mercados privados até 2030. Sua plataforma de infraestrutura já conta com o principal fundo da GIP, que levantou US$ 25,2 bilhões, enquanto no crédito privado registrou quase US$ 20 bilhões em entradas líquidas em 2025.
Não é por acaso que Fink coloca os mercados privados no centro dessa transformação. A BlackRock já administra US$ 3 trilhões para clientes de seguros, wealth management e outsourcing, possui cerca de US$ 700 bilhões em ativos de contas gerais de seguradoras e mais de US$ 30 bilhões em ativos de varejo em mercados privados. A estratégia consiste em levar esses investimentos para segmentos de clientes que, durante muito tempo, estiveram concentrados quase exclusivamente em ações, títulos e fundos tradicionais.
Esse movimento é particularmente significativo porque implica que a fronteira entre os mercados públicos e privados começa a perder relevância na construção de carteiras. A BlackRock reconhece isso explicitamente em suas perspectivas para mercados privados em 2026: os investidores estão combinando cada vez mais ativos públicos e privados para buscar exposição à inteligência artificial, infraestrutura e outros grandes temas estruturais, enquanto os mercados privados evoluem para um ecossistema mais integrado aos mercados públicos.
Mas a transformação proposta por Fink não termina nos ativos privados, já que sua carta introduz uma segunda revolução: a digitalização da propriedade financeira.
O CEO da BlackRock afirma que, com a tokenização, uma mesma carteira digital poderá conter ETFs, títulos tokenizados, moedas digitais e participações fracionadas em ativos que historicamente estavam fora do alcance dos pequenos investidores, incluindo projetos de infraestrutura e fundos de crédito privado. Em outras palavras, não está mudando apenas aquilo em que se investe. Também pode mudar a infraestrutura por meio da qual um investimento é comprado, mantido e negociado.
Essa é uma diferença importante. O ETF democratizou o acesso a uma carteira diversificada; nesse sentido, a próxima etapa imaginada pela BlackRock poderá democratizar o acesso a ativos que, até agora, exigiam grandes aportes, estruturas sofisticadas e relações institucionais.
E é aí que entra o Aladdin. A plataforma tecnológica da BlackRock já não é apenas uma ferramenta interna de gestão de riscos. As receitas com tecnologia e assinaturas cresceram 13% no segundo trimestre de 2026, enquanto a companhia continua posicionando o Aladdin como uma peça central de sua oferta multiproduto.
A BlackRock está, portanto, tentando se tornar simultaneamente gestora de ativos, originadora de investimentos privados, distribuidora, fornecedora de tecnologia e operadora de infraestrutura financeira.
Dimon: o banco também quer se tornar uma plataforma de investimentos
Jamie Dimon chega a uma conclusão semelhante a partir de uma posição diferente. Em sua carta aos acionistas, publicada em 6 de abril de 2026, o CEO do JPMorgan Chase reconhece que a concorrência já não vem apenas de outros bancos. Ela também vem de gestoras de ativos, fintechs, plataformas digitais, blockchain, stablecoins e outras formas de tokenização.
A resposta do JPMorgan, diz Dimon, é investir e agir rapidamente, incorporando inteligência artificial a praticamente tudo o que faz. Sua descrição do JPMorgan é reveladora: uma instituição que deve continuar permitindo que seus clientes guardem dinheiro, movimentem dinheiro, invistam, captem capital e administrem investimentos, mas por meio de tecnologias e produtos que estão modificando a forma como essas atividades são realizadas.
Em 2025, o JPMorgan obteve receitas recordes de US$ 185,6 bilhões, lucro líquido de US$ 57 bilhões e um retorno sobre o patrimônio tangível de 20%. Mas talvez seja ainda mais importante, para entender sua estratégia, o fato de que, durante esse ano, o banco concedeu crédito e captou capital no valor de US$ 3,3 trilhões para seus clientes, movimentou diariamente quase US$ 12 trilhões em mais de 120 moedas e mais de 160 países, e mantinha sob custódia mais de US$ 41 trilhões em ativos.
Ou seja, o JPMorgan não está tentando se adaptar à nova economia apenas como administrador de carteiras. Está buscando controlar boa parte dos diferentes canais pelos quais o capital circula.
E, no tema da IA, Fink e Dimon voltam a convergir. Para ambos, a inteligência artificial é muito mais do que uma oportunidade para comprar ações de empresas de tecnologia.
Fink sustenta que a IA está transformando a própria forma de investir. A combinação de grandes bases de dados, modelos sistemáticos, aprendizado de máquina e supervisão humana está levando a um modelo de gestão capaz de analisar milhares de ativos de forma simultânea e disciplinada. A BlackRock desenvolve capacidades de dados e tecnologia para esse propósito há quatro décadas.
Dimon é ainda mais direto. Em sua carta, afirma que a IA afetará praticamente todas as funções, aplicações e processos do JPMorgan e que sua adoção pode avançar muito mais rapidamente do que as transformações tecnológicas anteriores.
Mas o banco também está investindo para construir essa infraestrutura. O JPMorgan prevê um orçamento tecnológico de aproximadamente US$ 19,8 bilhões para 2026. Sua divisão de Asset & Wealth Management utiliza, entre outras ferramentas, o SpectrumIQ para integrar pesquisa, dados e risco sobre cerca de 90 mil securities e 22 milhões de documentos, reduzindo em 80% o tempo entre a pesquisa manual e a geração de informações úteis.
A transformação também alcança a assessoria. O Connect Coach utiliza 25 agentes especializados em IA para fornecer ideias personalizadas aos assessores do JPMorgan e gerou um milhão de insights personalizados para cerca de 5.000 usuários do Global Private Bank.
A inteligência artificial, portanto, começa a desempenhar uma dupla função: ajuda a encontrar investimentos e, ao mesmo tempo, muda a forma de distribuí-los e assessorá-los.
A estratégia do JPMorgan em mercados privados é especialmente significativa porque mostra que a mudança não se limita à BlackRock. Dimon afirma em sua carta que o JPMorgan está expandindo suas capacidades em private markets, enquanto o Asset & Wealth Management aumenta sua exposição a investimentos alternativos e ETFs.
O volume de US$ 560 bilhões em ativos alternativos do JPMorgan AWM ao final de 2025 representa um aumento de aproximadamente US$ 339 bilhões em relação a 2015, ou seja, mais de três vezes o nível de uma década atrás.
Mas o JPMorgan não está abandonando a gestão ativa tradicional, apenas a está modernizando. A empresa informou que 83% dos ativos de seus fundos ativos de longo prazo apresentaram desempenho superior à mediana de seus pares durante o período de dez anos encerrado em 2025. Ao mesmo tempo, transformou os ETFs ativos em um de seus principais motores de crescimento: encerrou 2025 com US$ 250 bilhões em ativos de ETFs ativos e US$ 65 bilhões em fluxos, ocupando o primeiro lugar da indústria em ambos os indicadores, segundo a própria companhia.
A empresa também espera que o mercado de ETFs ativos cresça de aproximadamente US$ 2 trilhões em 2025 para mais de US$ 6 trilhões em 2030. Isso produz um paradoxo interessante: a nova arquitetura não elimina os instrumentos tradicionais; ela os integra. Dessa forma, o ETF não desaparece diante do mercado privado; o fundo ativo não desaparece diante da inteligência artificial; e o assessor financeiro não desaparece diante da automação. Todos passam a ser peças de uma carteira mais complexa.
A mudança consiste em deixar de pensar em ativos, BlackRock México
A perspectiva de Sergio Méndez, diretor-geral da BlackRock México, é especialmente útil para entender essa transformação a partir da América Latina.
Na apresentação de seu relatório “Panorama de investimentos para o segundo semestre de 2026”, Méndez afirmou que “o mais importante é a mudança tecnológica” e que a inteligência artificial está moldando os mercados. Mas sua visão vai além de apostar em empresas de tecnologia.
Em conversa com a Funds Society, Méndez explica que a IA exige a construção de toda uma estrutura de infraestrutura, energia, capital e talento para que seu crescimento seja sustentável; aí surge uma das ideias mais relevantes para compreender para onde está caminhando a gestão de ativos.
Méndez afirmou que já não basta falar de ativos ou empresas específicas, mas sim de “uma carteira completa”, na qual, além de renda fixa e renda variável, também haja espaço para ativos como commodities e metais.
A frase é particularmente significativa porque coincide com a mudança de paradigma que aparece, ainda que sob perspectivas diferentes, tanto em Fink quanto em Dimon: primeiro identificar os grandes temas e riscos do novo regime econômico; depois construir a carteira; e, por fim, decidir qual veículo financeiro utilizar.
No México, essa visão ganha uma dimensão adicional. Méndez afirmou que a BlackRock enxerga oportunidades em tecnologia, energia e logística, incluindo ferrovias e portos, e que a expansão da inteligência artificial aumentará a necessidade de infraestrutura capaz de sustentar o crescimento tecnológico.
Não é uma coincidência menor. A tese de investimento deixa de ser simplesmente “comprar tecnologia” e passa a ser muito mais ampla: investir em tudo aquilo que permite que a tecnologia exista e se desenvolva. Isso inclui centros de dados, eletricidade, redes, infraestrutura digital, minerais, logística, semicondutores, crédito e capital privado.
Nesse sentido, o México aparece dentro de uma tendência maior: a realocação das cadeias produtivas e a necessidade de investir em infraestrutura para sustentar uma economia cada vez mais digitalizada.
A outra grande transformação: do 60/40 à carteira total
A consequência mais importante desses movimentos pode ser observada na construção de carteiras. O modelo tradicional baseado em ações e títulos não está desaparecendo, mas está deixando de ser suficiente como representação de todo o universo de oportunidades.
A BlackRock já propõe um modelo que integra mercados públicos e privados. O JPMorgan, por sua vez, está combinando ETFs ativos, gestão fundamentalista, investimentos alternativos, private banking e soluções personalizadas. E o mercado começa a incorporar estruturas capazes de levar esses investimentos a clientes que antes não tinham acesso a eles.
Na BlackRock, por exemplo, a empresa lançou, em parceria com a Partners Group, uma solução de carteira que integra private equity, private credit e ativos reais dentro de um mesmo veículo para clientes de wealth management.
O JPMorgan está fazendo algo semelhante por outro caminho. Sua infraestrutura de contas administradas separadamente, combinada com ferramentas como 55ip e OpenInvest, permite realizar transições fiscais, colheita sistemática de prejuízos (tax-loss harvesting) e construção de carteiras alinhadas às preferências individuais. Ao final de 2025, administrava US$ 434 bilhões para investidores de SMA, aproximadamente o dobro do número de contas em relação a 2021; a personalização torna-se, assim, outro componente da nova arquitetura. Não se trata apenas de oferecer mais ativos. Trata-se de combiná-los de forma diferente para cada cliente.
O risco: a democratização também pode ampliar as perdas
A transformação, no entanto, não é apenas uma história de oportunidades. O próprio Dimon faz um alerta especialmente relevante sobre o crescimento do crédito privado. Em sua carta, estima o mercado de private credit alavancado em aproximadamente US$ 1,8 trilhão, frente a US$ 1,5 trilhão do mercado americano de high yield e US$ 1,7 trilhão do mercado de empréstimos alavancados sindicalizados.
Seu alerta é claro: quando chegar o próximo ciclo de crédito, as perdas poderão ser maiores do que o esperado e nem todos os participantes têm a mesma capacidade para originar e administrar crédito. Ele também adverte que os produtos vendidos a investidores de varejo precisam de maior transparência, padrões mais elevados e menos conflitos de interesse.
Essa é, provavelmente, a principal tensão do novo modelo. As grandes gestoras querem ampliar o acesso aos mercados privados, mas, quanto mais esses ativos se aproximarem do pequeno investidor e da poupança para a aposentadoria, maior será a exigência de liquidez, transparência, avaliação, governança e proteção ao investidor.
Fink reconhece isso por outro ângulo ao falar sobre tokenização: a modernização financeira precisa de regras claras, proteção ao comprador, padrões de risco de contraparte e identidade digital.
A democratização financeira, portanto, não significa simplesmente permitir que mais pessoas comprem mais ativos. Significa criar uma infraestrutura capaz de fazer isso sem transferir ao investidor de varejo riscos que antes estavam restritos a instituições sofisticadas.
Dois gigantes, uma mesma mudança estrutural
A comparação entre Fink e Dimon leva, por fim, a uma conclusão interessante. A BlackRock está tentando se tornar uma plataforma que conecte mercados públicos, mercados privados, tecnologia, dados e distribuição. O JPMorgan está tentando se tornar uma plataforma financeira integrada, na qual banco, investimentos, pagamentos, mercados privados, ETFs, wealth management e inteligência artificial funcionem como partes de um mesmo sistema.
Um parte da gestão de ativos; o outro, do setor bancário, mas ambos estão avançando na mesma direção. A próxima década dos investimentos poderá ser menos definida pela pergunta “ações ou títulos?” e muito mais por outras questões: que infraestrutura a inteligência artificial necessita? Quem financiará a transição energética? Onde estará o capital privado? Quais economias terão os recursos críticos? Quais mercados se beneficiarão da fragmentação geopolítica? Como serão combinados os ativos públicos e privados? Que parte de uma carteira poderá ser automatizada? Como o risco será personalizado? E como um investidor comum poderá acessar oportunidades que, historicamente, estiveram reservadas às instituições?
A resposta que Fink e Dimon estão construindo parece ser que o ativo individual deixará de ser o centro da conversa e será substituído pela carteira completa, apoiada por tecnologia e desenhada em torno de grandes forças estruturais. Isso não significa que os ETFs, as ações ou os títulos tenham perdido relevância. Na verdade, os fluxos de ambas as instituições nesses ativos mostram justamente o contrário.
Significa que agora eles terão de conviver com crédito privado, infraestrutura, ativos reais, investimentos alternativos, ativos digitais, estratégias sistemáticas e novas formas de assessoria; em outras palavras: uma “carteira completa”, como a define Sergio Méndez, líder da BlackRock no México.
A mudança mais profunda, portanto, não está em um produto específico, mas na arquitetura. E as duas instituições estão apostando que o gestor do futuro não será simplesmente aquele que souber escolher um ativo, mas aquele que conseguir integrar o maior número possível de fontes de retorno, risco, liquidez, informação e tecnologia dentro de uma única experiência de investimento.



