A Argentina vive, segundo os economistas Marcos Buscaglia e Dante Sica, um daqueles raros momentos que surgem uma ou duas vezes por geração. O mundo está se fragmentando, a globalização está se transformando em direção ao controle das cadeias de suprimentos, e o país reúne exatamente aquilo que essa nova economia global demanda: segurança alimentar, energética e de minerais.
Mas o diagnóstico compartilhado pelos dois durante o painel macroeconômico do evento “Perspectivas 2026”, organizado pela Cohen, vai além da mineração em San Juan ou de Vaca Muerta, a formação geológica localizada na Patagônia argentina que abriga uma das maiores reservas de shale oil e shale gas do mundo.
Para Sica, ex-ministro da Produção e do Trabalho, a Argentina possui quatro ecossistemas que o mundo demandará nos próximos anos: energia, mineração, agronegócio e tecnologia. E os possui “em uma escala de mercado relevante, com uma base industrial de apoio e uma importante capacidade de recursos humanos”. A diferença em relação aos ciclos anteriores, destacou, é que esses setores hoje não enfrentam problemas de demanda nem de preços: sua principal restrição é a capacidade de execução.
É aí que surge uma oportunidade concreta para investidores e assessores: não nas grandes empresas que lideram esses ecossistemas — que, em geral, têm acesso ao financiamento internacional —, mas nos círculos de fornecedores que as cercam. “As grandes empresas captam recursos no exterior. Depois vêm o segundo e o terceiro círculo, que são os fornecedores. É preciso olhar muito para eles”, afirmou Sica, apontando especialmente para o setor metalmecânico e para as empresas de serviços industriais.
Buscaglia, economista com ampla trajetória na análise de mercados emergentes, apresentou um marco conceitual relevante: em economias fechadas, a concentração geográfica em torno da principal capital é inevitável, porque os produtores preferem estar próximos ao maior centro consumidor. Quando uma economia se abre e se estabiliza, essa lógica se inverte.
“Você dá estabilidade ao país, promove abertura, melhora a infraestrutura e reduz o custo de capital, e uma série de atividades vai surgir, muitas delas no interior”, afirmou. Como exemplo, citou Córdoba como um potencial hub logístico regional — “a duas horas de voo de qualquer parte do país, como Atlanta nos Estados Unidos” — e destacou o desenvolvimento do setor madeireiro em Corrientes e Misiones, onde já se discute inclusive a instalação de uma fábrica de celulose, algo impensável há poucos anos.
O agronegócio, acrescentou, também será beneficiado por razões que vão além de uma eventual redução dos impostos sobre exportações: o fim do regime de câmbio dual, os avanços em propriedade intelectual e a expansão para novos segmentos produtivos configuram um cenário de crescimento sustentado. Como referência do que pode acontecer quando abertura e estabilidade caminham juntas, citou o caso das cerejas chilenas: de US$ 35 milhões exportados em 2004 para mais de US$ 3 bilhões no ano passado.
Serviços, turismo e construção: a oportunidade urbana
Além do interior produtivo, ambos os economistas identificaram setores urbanos com elevado potencial de desenvolvimento, justamente porque os investimentos ficaram praticamente paralisados desde 2011.
Buscaglia destacou a hotelaria de alto padrão — com projetos como a renovação do Plaza Hotel e a torre do Sofitel em Puerto Madero —, a expansão dos centros comerciais e o retorno de redes internacionais de varejo que haviam deixado o mercado argentino. “Há muitas coisas que foram feitas em todos os lugares e que aqui, em Buenos Aires, ainda não foram feitas”, afirmou.
Sica aprofundou a análise sobre o papel do setor de serviços como principal gerador de empregos no futuro. “Os empregos do futuro não estarão na indústria, mas nos serviços”, afirmou, apontando o complexo de entretenimento, gastronomia e hotelaria como um dos maiores potenciais empregadores da região. A isso acrescentou a construção civil — tanto de infraestrutura quanto residencial privada, que deixará de funcionar como reserva de valor à medida que o sistema financeiro se normalize — e os serviços de saúde no interior do país, onde a infraestrutura é insuficiente para atender à demanda que será gerada pelos novos investimentos.
Talvez a mensagem mais disruptiva do painel tenha sido o alerta de Sica contra a análise setorial tradicional. Em uma economia que altera seus preços relativos, a renda entre setores é redistribuída e, dentro de um mesmo segmento, podem coexistir empresas que exportam, empresas que importam e reinventam seu modelo de negócios e empresas que encerram suas atividades. “Os setores não vão desaparecer; eles vão se reorganizar e se reestruturar”, afirmou.
O exemplo apresentado foi ilustrativo: no setor de linha branca, uma empresa de Córdoba exporta centrífugas para os Estados Unidos, outra fabrica apenas um modelo e complementa sua oferta com importações do México, enquanto uma terceira deixou completamente de montar produtos. Três modelos de negócios distintos dentro do mesmo setor, diante dos mesmos sinais de preços. “Procurem as unidades de negócios e entendam em que cadeia produtiva elas estão inseridas”, recomendou aos participantes.
O deserto que precisa ser atravessado
Os dois economistas reconheceram que essa transformação não ocorrerá sem custos. Buscaglia descreveu a situação atual como “atravessar um deserto”: o governo conduz simultaneamente duas transformações de enorme magnitude — a mudança da matriz econômica e o processo de desinflação —, o que gera tensões inevitáveis.
Os gargalos de infraestrutura em Neuquén, San Juan e Catamarca já são visíveis, e a capacidade de fornecer escolas, estradas, hospitais e moradias no ritmo exigido pelos investimentos aprovados é, segundo Buscaglia, “questionável”.
Ainda assim, o diagnóstico de fundo é otimista. “Se conseguirmos completar essas duas travessias sem sucumbir no caminho, o que vem pela frente será muito positivo”, resumiu Buscaglia. Sica acrescentou a dimensão temporal: os US$ 25 bilhões já aprovados no âmbito do RIGI (Regime de Incentivo para Grandes Investimentos, marco legal aprovado em 2024 que oferece estabilidade fiscal, aduaneira e cambial por 30 anos para projetos superiores a US$ 200 milhões em setores estratégicos como energia, mineração e tecnologia) e os US$ 70 bilhões atualmente em avaliação deverão se materializar de forma mais intensa nos próximos quatro anos, com a mineração acelerando especialmente a partir deste ano após o esclarecimento do marco regulatório relacionado às geleiras.



