Os ativos das EFPC (Entidades Fechadas de Previdência Complementar) cresceram cerca de 82% em termos nominais nos últimos dez anos, passando de R$ 790 bilhões em 2016 para R$ 1,438 trilhão em junho de 2026. Segundo dados divulgados nesta quarta-feira (14) pela Abrapp (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar), o patrimônio do setor equivale atualmente a aproximadamente 11% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
A expansão ocorreu ao longo da última década, com os ativos alcançando R$ 1,049 trilhão em 2020, R$ 1,176 trilhão em 2022, R$ 1,275 trilhão em 2024 e R$ 1,374 trilhão em 2025.
“Quando olhamos uma série de dez anos, fica mais clara a dimensão que a previdência complementar fechada alcançou no Brasil. Saímos de R$ 790 bilhões em ativos, em 2016, para mais de R$ 1,4 trilhão. É um patrimônio formado para garantir benefícios no longo prazo, mas que também tem um papel relevante na economia brasileira”, afirma Devanir Silva, diretor-presidente da Abrapp.
Segundo o executivo, o crescimento também amplia a responsabilidade do setor em relação à cobertura previdenciária. “Esse crescimento mostra a solidez do sistema e, ao mesmo tempo, aumenta nossa responsabilidade de ampliar a cobertura e levar a proteção previdenciária a uma parcela maior da população.”
Renda fixa representa 86,1% da carteira de investimentos
A carteira de investimentos das EFPC totalizava R$ 1,362 trilhão em junho de 2026, dos quais R$ 1,173 trilhão estavam alocados em renda fixa, equivalente a 86,1% do total. A participação da modalidade aumentou em relação aos 85,2% registrados no encerramento de 2025, aos 82,9% de 2024 e aos 75,7% de 2021.
Do montante investido em renda fixa, R$ 264,1 bilhões estavam aplicados em títulos públicos e R$ 900,7 bilhões em fundos de investimento classificados nesse segmento.
Em contrapartida, a participação da renda variável recuou de 15,8% em 2021 para 6,7% em junho deste ano. Ao final do primeiro semestre, a modalidade reunia R$ 91,3 bilhões, sendo R$ 55,7 bilhões investidos diretamente em ações.
“A previdência complementar trabalha com horizontes de décadas, e isso exige disciplina na gestão dos recursos. A elevada participação da renda fixa reflete as condições atuais de mercado e a necessidade de buscar uma relação adequada entre retorno, risco e os compromissos de longo prazo dos planos”, explica Silva.
“Mesmo em cenários de maior volatilidade, o foco permanece na segurança e na sustentabilidade dos benefícios”, acrescenta.
Abrapp projeta rentabilidade de até 14,77% em 2026
Para o encerramento de 2026, a Abrapp estima que os ativos das entidades possam atingir R$ 1,51 trilhão. O Consolidado Estatístico da associação considera três cenários de rentabilidade, que variam conforme o comportamento da renda variável.
No primeiro cenário, a rentabilidade projetada é de 11,70%. No segundo, utilizado como referência pela associação, a estimativa é de 14%. Já no terceiro, o retorno pode alcançar 14,77%.
No cenário de referência, a Abrapp projeta superávit de aproximadamente R$ 52 bilhões e déficit de R$ 19 bilhões, resultando em uma diferença positiva de R$ 33 bilhões. Nos demais cenários, esse resultado poderia variar entre R$ 28 bilhões e R$ 37 bilhões.
“Trabalhamos com diferentes cenários porque o comportamento dos mercados ainda pode influenciar os resultados até o final do ano. No cenário de referência, projetamos rentabilidade de 14%, ativos da ordem de R$ 1,51 trilhão e uma diferença positiva entre superávits e déficits próxima de R$ 33 bilhões”, afirma o diretor-presidente.
“Somados ao índice de solvência acima de 100%, são números que demonstram a robustez e a maturidade alcançadas pela previdência complementar fechada, com entidades estruturadas, governança consolidada e gestão profissional de recursos destinados primordialmente ao pagamento de benefícios”, acrescenta.
Superávits somam R$ 41,4 bilhões no primeiro semestre
Os dados do primeiro semestre de 2026 mostram que 136 entidades, responsáveis por 415 planos, apresentavam superávit acumulado de R$ 41,4 bilhões. Em contrapartida, 84 entidades, reunindo 184 planos, registravam déficit de R$ 22,2 bilhões.
Na comparação histórica, os superávits passaram de R$ 21,6 bilhões em 2024 para R$ 38,3 bilhões em 2025, antes de atingirem R$ 41,4 bilhões em junho deste ano. Os déficits, por sua vez, recuaram de R$ 30,5 bilhões em 2024 para R$ 20,9 bilhões em 2025, chegando a R$ 22,2 bilhões no primeiro semestre de 2026.
Outro indicador apresentado pela associação foi o índice de solvência dos planos de Benefício Definido (BD), que alcançou 102% em junho, considerando a média ponderada dos planos.
“Temos hoje um número significativamente maior de planos em situação superavitária e, quando olhamos para os déficits, observamos que a maior parte está concentrada em um grupo bastante reduzido de planos”, afirma Silva.
“É importante analisar essas situações individualmente, porque superávits e déficits refletem realidades atuariais específicas. O conjunto dos dados, no entanto, reforça a solidez e a maturidade alcançadas pela previdência complementar fechada”, complementa.
Previdência complementar fechada reúne 8,4 milhões de pessoas
Além dos resultados financeiros, os dados da Abrapp mostram que a previdência complementar fechada alcança aproximadamente 8,4 milhões de pessoas, entre participantes ativos, dependentes e assistidos.
Desse total, cerca de 3,27 milhões são participantes ativos, 4,21 milhões são dependentes e 873 mil são assistidos. Entre os participantes ativos, 63,56% são homens e 36,44% mulheres, com maior concentração na faixa etária de 35 a 54 anos, que representa 57,15% da amostra analisada.
Os planos de Contribuição Definida (CD) correspondem a 47% dos planos e da população atendida. Já os de Benefício Definido (BD) representam 25% dos planos e 22% da população, mas concentram 54% dos ativos. Os planos de Contribuição Variável (CV) respondem por 28% dos planos, 31% da população e 30% dos ativos.
Em 2025, as entidades pagaram R$ 82 bilhões em benefícios. O valor médio mensal da aposentadoria programada foi de R$ 8.261, enquanto a aposentadoria por invalidez registrou média de R$ 3.457 e as pensões, de R$ 4.438.
“Temos milhões de brasileiros protegidos pelo sistema, mas ainda existe um contingente muito maior que está fora ou insuficientemente protegido. O Brasil convive hoje com essas duas realidades: de um lado, milhões de trabalhadores sem proteção previdenciária adequada e, de outro, um sistema de previdência complementar fechada sólido e maduro”, observa Silva.
Micropensões entram na agenda de expansão do setor
Diante da necessidade de ampliar a cobertura previdenciária, a Abrapp defende mecanismos voltados a trabalhadores autônomos, informais, microempreendedores individuais (MEIs) e profissionais de aplicativos.
Entre as alternativas estão as micropensões, propostas como instrumentos para adequar a previdência complementar às condições de trabalhadores independentes.
Segundo dados apresentados pela associação, com base no Relatório da ANFIP de 2025, a arrecadação previdenciária alcança R$ 709,7 bilhões. Considerando as renúncias estimadas, os recursos vinculados ao Regime Geral de Previdência Social (RGPS) chegariam a aproximadamente R$ 808 bilhões, diante de despesas de R$ 1,027 trilhão e necessidade de aporte do Tesouro de R$ 218,8 bilhões.
A Abrapp também apresentou simulações considerando aproximadamente 50 milhões de trabalhadores sem proteção previdenciária adequada e contribuições hipotéticas de R$ 200 mensais.
Nesse exercício, a inclusão de 5 milhões de pessoas representaria R$ 12 bilhões anuais em contribuições. Com 10 milhões de participantes, o montante subiria para R$ 24 bilhões e, com 20 milhões, chegaria a R$ 48 bilhões por ano. A associação ressalta que os valores representam exercícios de potencial, e não projeções atuariais.
“Ampliar a cobertura previdenciária é, ao mesmo tempo, uma agenda de inclusão social e de sustentabilidade econômica. Não podemos discutir o futuro da Previdência apenas pelo lado das despesas. Precisamos olhar para os milhões de brasileiros que estão fora ou insuficientemente protegidos e criar mecanismos para incorporá-los ao sistema”, afirma Silva.
Os planos instituídos já somavam R$ 30 bilhões em recursos e aproximadamente 913 mil participantes ativos em junho de 2026. A proposta de micropensões se soma a iniciativas como o Previdência para Todos e a instrumentos de orientação e simulação previdenciária.
“Não estamos partindo do zero. A previdência complementar fechada já dispõe de instrumentos para se aproximar desses trabalhadores. As micropensões podem representar uma nova etapa dessa agenda, aproveitando a experiência, a estrutura e a capacidade de gestão do sistema para levar proteção previdenciária a um número maior de brasileiros”, conclui o diretor-presidente.
As discussões sobre investimentos, sustentabilidade e ampliação da cobertura previdenciária estarão entre os temas do 47º Congresso Brasileiro da Previdência Complementar, promovido pela Abrapp entre os dias 21 e 23 de outubro, em São Paulo.
