As famílias de alto patrimônio e os family offices brasileiros estão revendo suas estratégias de preservação e sucessão patrimonial diante das incertezas geopolíticas, das mudanças regulatórias e da transição política no país. O movimento tem ampliado a procura por estruturas flexíveis, descentralizadas e capazes de administrar ativos em diferentes jurisdições.
O Brasil ocupa a terceira posição entre as jurisdições mais complexas do mundo para a realização de negócios, segundo o Índice Global de Complexidade Empresarial (GBCI), citado no estudo “Desenvolvendo uma estratégia de patrimônio familiar pronta para o futuro”, da TMF Group.
Além da complexidade regulatória, a reintrodução da retenção na fonte de 10% sobre dividendos pagos a acionistas não residentes tem levado investidores e estruturas privadas a revisar suas bases operacionais e a distribuição dos portfólios.
“As famílias estão realizando, cada vez mais, movimentos estratégicos para diversificar sua atuação geográfica, protegendo-se contra a volatilidade local e acessando novas oportunidades”, afirma Tim Houghton, Global Head of Private Wealth and Family Offices da TMF Group.
Segundo o levantamento, a tendência não envolve a saída completa dos mercados tradicionais, mas a expansão para outras praças. Cerca de 31% das famílias permanecem próximas de seus mercados habituais de investimento enquanto ampliam suas atividades geográficas para reduzir a exposição à volatilidade.
Na escolha de novas jurisdições, 23% apontam a estabilidade política como um fator decisivo. Outros 23% priorizam a estabilidade econômica. Na América Latina, reformas e transições políticas têm estimulado a procura por centros internacionais e veículos flexíveis de investimento como complemento às estruturas locais.
A maior distribuição geográfica dos ativos busca reduzir o risco associado à concentração regional e proteger o patrimônio multigeracional. No Brasil, esse processo também responde às exigências fiscais e regulatórias aplicadas à estruturação de negócios e portfólios corporativos.
Family offices ampliam profissionalização
A reorganização patrimonial ocorre em paralelo à profissionalização dos family offices. Essas estruturas estão incorporando ferramentas tecnológicas e inteligência artificial aos processos de due diligence, compliance, prevenção à lavagem de dinheiro, identificação de clientes e avaliação prévia de investimentos.
A participação das novas gerações nas decisões também tem direcionado parte dos recursos para investimentos de impacto social, práticas ambientais e modelos de governança. O estudo ainda identifica maior interesse por crédito privado e investimentos diretos, que permitem às famílias ampliar o controle sobre suas carteiras.
“As famílias ricas e family offices frequentemente compartilham um objetivo comum: preservar e aumentar seu patrimônio, protegendo simultaneamente seu legado para as gerações futuras”, diz Houghton.
Para o executivo, as estruturas precisam acompanhar as mudanças no ambiente de negócios. “Para sobreviver e prosperar, os family offices precisam evoluir, adotando modelos operacionais mais flexíveis, utilizando conhecimentos especializados e mantendo a agilidade diante das mudanças”, completa.
Nesse cenário, a capacidade de antecipar alterações normativas, incorporar tecnologias sob mecanismos de governança e operar por meio de estruturas flexíveis passa a integrar as estratégias de proteção patrimonial de longo prazo.
