A competição pelo dinheiro latino-americano está adquirindo uma nova dimensão: deslocou-se para um ativo muito mais escasso — o talento capaz de entender o novo investidor da região e acompanhá-lo em um mercado que está mudando a uma velocidade sem precedentes. Já não se trata apenas de quem tem os melhores fundos, quem cobra as menores comissões ou quem oferece acesso aos mercados internacionais.
Nos últimos meses, gestoras internacionais, bancos privados, plataformas independentes de wealth management e empresas especializadas em serviços para family offices aceleraram a contratação e a movimentação de executivos com experiência regional, conhecimento de mercados privados, distribuição institucional, investimentos globais e gestão de grandes patrimônios.
O fenômeno não é casual. O investidor latino-americano está mudando ao mesmo tempo em que muda a arquitetura da indústria.
As grandes fortunas têm uma exposição internacional cada vez maior. Os fundos de pensão buscam ampliar seu universo de investimentos para ativos privados e mercados globais; os gestores tradicionais competem com plataformas independentes; os ETFs modificam a distribuição de produtos; a inteligência artificial começa a transformar a análise e a relação com os clientes, e as fronteiras entre asset management, wealth management, private banking e family offices estão cada vez menos claras.
O resultado será, provavelmente, um novo ecossistema de investimentos na América Latina. E as instituições que estão tentando construí-lo já estão disputando as pessoas que terão de liderá-lo. O talento se move para onde está o crescimento.
Um dos exemplos mais recentes ocorreu em janeiro, quando a Capital Group nomeou Patricia Hidalgo como Managing Director e Head of Latin America. Hidalgo chegou da J.P. Morgan Asset Management, onde passou mais de uma década e ocupou, entre outros cargos, a posição de Head of Alternatives for Latin America. Antes, havia trabalhado no CitiBanamex, no México.
Sua nova responsabilidade tem relevância especial porque a Capital Group não busca apenas ampliar sua distribuição entre investidores institucionais e distribuidores. A empresa afirmou expressamente que sua estratégia inclui aprofundar as relações com administradoras de fundos de pensão no México, Chile e Colômbia, além de bancos centrais e fundos soberanos.
O movimento mostra para onde a indústria está olhando: alternativos, institucionais, distribuição e conhecimento regional estão convergindo em uma mesma posição executiva. E também mostra outro elemento da nova competição: os grandes gestores não estão necessariamente buscando talentos exclusivamente dentro de suas próprias organizações. Estão buscando no mercado.
Hidalgo é precisamente um exemplo dessa mobilidade, uma executiva que passa de uma das maiores plataformas globais de gestão de ativos para outra com uma missão explícita de acelerar sua presença latino-americana.
Dos bancos globais às plataformas independentes
Outro movimento ocorrido neste verão é ainda mais revelador para o segmento de wealth management. Em julho, a Insigneo incorporou Juan C. Londoño e Felipe Quintero como Senior Vice Presidents. Ambos vieram do Merrill Lynch, onde construíram, durante mais de 15 anos, uma carreira conjunta assessorando famílias empresárias e investidores da Colômbia, México, América Central e Estados Unidos. A operação tem um significado que vai além das duas nomeações.
A própria empresa destacou que os executivos trazem experiência em estratégia global de investimentos, private banking e wealth management global. Em outras palavras, não trazem apenas conhecimento técnico, mas também relacionamentos, conhecimento das famílias e experiência acumulada em diferentes jurisdições. Esse ativo é cada vez mais valioso.
Durante décadas, uma parte importante dos grandes patrimônios latino-americanos foi atendida pelas principais instituições bancárias internacionais. Agora, as plataformas independentes estão tentando disputar esse negócio oferecendo arquitetura aberta, acesso a múltiplos gestores e maior flexibilidade para construir portfólios.
Isso explica por que a contratação de equipes completas se tornou uma ferramenta estratégica; não se trata simplesmente de contratar um bom private banker. Trata-se de adquirir conhecimento de mercado, relacionamentos e capacidade de distribuição.
Miami se consolida como um dos grandes campos da batalha
A transformação também está reforçando o papel de Miami como plataforma financeira para o patrimônio latino-americano. Em julho, a M&G Investments incorporou Vince León como Senior Sales Manager para seu negócio US Offshore e América Latina. León, com mais de 20 anos de experiência em distribuição de investimentos nas Américas, veio da Voya Investment Management, onde era Senior Vice President e Senior Regional Director para US Offshore. Ele se reporta a Ander López, Sales Director para LatAm.
Seu trabalho consiste em se relacionar com assessores financeiros, bancos privados, grandes plataformas de assessoria e empresas independentes que atendem ao mercado US Offshore. A leitura estratégica é clara: a distribuição está se tornando uma competência especializada.
A gestora já não precisa apenas de um bom administrador de portfólios. Agora precisa de pessoas capazes de traduzir uma oferta global de ativos públicos e privados para as necessidades específicas de assessores, family offices, bancos privados e fundos institucionais latino-americanos, e essa capacidade não se improvisa.
O fenômeno é ainda mais importante quando observado sob a perspectiva dos family offices. As grandes famílias latino-americanas estão deixando de pensar em termos exclusivamente nacionais. Seus portfólios incorporam cada vez mais ativos denominados em diferentes moedas e jurisdições, dos Estados Unidos e Europa à Ásia, além de estratégias de private equity, private credit, infraestrutura e outros ativos alternativos.
As análises especializadas apontam que os family offices estão reagindo a um ambiente de maior incerteza geopolítica e econômica por meio de uma maior diversificação geográfica e cambial, ao mesmo tempo em que aumentam seu interesse por temas como inteligência artificial, infraestrutura e energia. Daniel Bassan, então responsável pelo UBS no Brasil e na América Latina, destacou precisamente a importância dessas mudanças na alocação estratégica.
Isso modifica as habilidades de que um assessor precisa; o novo profissional de wealth management terá de compreender investimentos tradicionais, mas também estruturas internacionais, tributação, mercados privados, planejamento patrimonial, sucessão, governança familiar e, cada vez mais, tecnologia.
A fronteira entre private banker, assessor de investimentos e especialista em family office começa a desaparecer; os grandes executivos também estão se movimentando porque a mobilidade de talentos não se limita a posições comerciais.
Em agosto, Daniel Bassan, que até então era CEO do UBS para o Brasil e responsável regional pela América Latina, foi anunciado como novo vice-presidente do Santander Corporate & Investment Banking no Brasil, cargo que assumirá no início de 2027. No UBS, seu lugar como country chief do Brasil será ocupado por Daniel Barros, que também manterá sua posição como CEO do UBS BB.
O movimento é significativo porque mostra como as grandes instituições estão competindo por executivos capazes de transitar entre diferentes segmentos do mercado: banco de investimento, clientes institucionais, corporativos e grandes patrimônios.
Em outras palavras, o talento financeiro latino-americano também está se tornando transversal; o executivo mais valioso já não é necessariamente o especialista que conhece perfeitamente uma única classe de ativos. É aquele que entende como os diferentes negócios financeiros interagem e consegue conectar capital institucional, mercados privados, banco de investimento e patrimônio.
Os fundos de pensão também entram de vez na transformação
A transformação também alcança os fundos de pensão. No México, por exemplo, as Afores se encontram diante de um cenário em que a maior capacidade para investir em ativos alternativos exige profissionais capazes de analisar private equity, infraestrutura, dívida privada e outros instrumentos que tradicionalmente tiveram uma participação muito menor nos portfólios.
O mapa de talentos já mostra essa especialização. Aurora Fadile Herrera, por exemplo, atua como PM Diretora de Investimentos Alternativos na Principal Afore México, onde participa da estratégia de ativos privados, incluindo private equity, infraestrutura e dívida privada.
A relevância desse tipo de perfil aumentará à medida que os fundos de pensão latino-americanos busquem sofisticar suas carteiras, porque o desafio não consiste apenas em dispor de mais recursos para investir; na realidade, consiste em ter capacidade interna para selecionar gestores, negociar estruturas, avaliar riscos, administrar liquidez e monitorar investimentos que podem permanecer em carteira durante muitos anos.
Por isso, a competição por especialistas em mercados privados não ficará limitada às gestoras internacionais. Também chegará às próprias instituições previdenciárias.
O novo profissional financeiro
Todos esses movimentos apontam para uma conclusão: o perfil do profissional de que a indústria precisa está mudando. Há uma década, um bom especialista podia construir sua carreira em torno de uma classe de ativos, uma região ou uma função específica. O novo ecossistema exige uma combinação muito mais ampla.
As instituições precisarão de pessoas que entendam uma diversidade de temas especializados, como: mercados privados e ativos alternativos; ETFs, indexação e gestão passiva; investimento internacional e portfólios multimoedas; inteligência artificial e análise de dados; ativos digitais e tokenização; planejamento patrimonial e sucessão; tributação e estruturas transfronteiriças; family offices e governança familiar; distribuição institucional e US Offshore; gestão de relacionamentos com clientes de alto e ultra-alto patrimônio.
Mas há algo mais importante: precisarão de profissionais capazes de conectar todas essas disciplinas. A revolução tecnológica também não significa que o talento humano perderá valor. Em wealth management, pode acontecer exatamente o contrário.
A tecnologia pode automatizar boa parte da análise, gerar informações e melhorar a construção de portfólios. Mas, quando se trata de administrar uma fortuna familiar, estruturar uma sucessão ou decidir como distribuir um patrimônio entre várias jurisdições, a confiança continua sendo um ativo difícil de substituir.
América Latina, ímã para talentos
A movimentação de executivos também reflete uma realidade mais ampla: as instituições internacionais estão enxergando oportunidades na América Latina. Raimundo Diaz, Executive Vice President, Americas da Vistra, explicou recentemente que a empresa criou a Vistra Latam para atender a região, integrando sua plataforma global à experiência local da Biz Latin Hub, adquirida no final de 2025. A organização conta com cerca de 550 pessoas trabalhando na região.
A empresa identifica oportunidades relacionadas a companhias latino-americanas que estabelecem operações nos Estados Unidos, empresas internacionais que chegam à região e famílias que precisam de estruturas para administrar patrimônios e operações globais.
A mensagem é importante porque demonstra que o crescimento não está ocorrendo apenas na gestão de ativos. Está surgindo um ecossistema em torno do patrimônio: gestores, bancos privados, family offices, administradores fiduciários, assessores fiscais, advogados, plataformas tecnológicas e especialistas em investimentos alternativos.
Todos competem pelo mesmo recurso: profissionais capazes de conectar essas peças. O talento será uma vantagem competitiva.
A indústria financeira latino-americana está entrando, assim, em uma etapa na qual o capital continuará sendo indispensável, mas não suficiente. Uma gestora pode ter uma estratégia competitiva de private credit; um banco privado pode oferecer acesso a praticamente qualquer mercado do mundo; um family office pode contar com uma plataforma sofisticada e um fundo de pensão pode dispor de recursos crescentes para investir.
Mas todos precisam de pessoas que saibam utilizar essas ferramentas; a contratação de Patricia Hidalgo pela Capital Group, a chegada de Londoño e Quintero à Insigneo, a mudança de Vince León para a M&G e a mudança de liderança protagonizada por Daniel Bassan e Daniel Barros no UBS e no Santander são peças de uma mesma história.
Nesse sentido, a batalha pelo talento financeiro latino-americano está apenas começando. Nos próximos anos, provavelmente veremos mais movimentos entre gestoras, bancos privados, fundos de pensão, family offices e plataformas independentes. Também aumentará a contratação de especialistas vindos de tecnologia, consultoria, banco de investimento e mercados privados.
A razão é simples: o negócio já não consiste apenas em administrar dinheiro, mas em entender onde estará o dinheiro, como ele se movimentará, de quais produtos precisará, em quais jurisdições estará e, sobretudo, quem terá a confiança de seus proprietários. Esse será um dos principais fatores que definirão os vencedores do novo ecossistema financeiro latino-americano.



