A febre pela inteligência artificial e os ralis que ela gerou nos mercados acionários — especialmente o dos Estados Unidos — voltaram a colocar o debate sobre as valorizações em pauta. Enquanto alguns defendem que se trata de uma tecnologia tão revolucionária que é capaz de sustentar todas as expectativas dos investidores, outros veem uma promessa grande demais para cumprir as elevadas expectativas do mercado. Embora a questão de se existe uma bolha nas ações associadas à IA continue sem resposta, por enquanto, a história dos mercados financeiros contém alguns exemplos relevantes.
Um deles é a chamada Bolha dos Mares do Sul, que teve como protagonista uma companhia britânica que alcançou sucessivamente novos patamares com base no entusiasmo gerado por seu respaldo real e pelo comércio de escravizados. Em questão de meses, a ação se valorizou até níveis insustentáveis e, quando a bolha estourou, o escândalo chegou às portas do Parlamento inglês.
Fundada em 1711 como uma parceria público-privada, voltada para consolidar, controlar e reduzir a dívida nacional e ajudar o Reino Unido a participar do lucrativo comércio de escravizados, a The South Sea Company despertou o interesse dos investidores da época.
Em 1713, a companhia conseguiu o monopólio do comércio de africanos escravizados no Mar do Sul do Pacífico, entre as colônias espanholas nas Américas. O documento conhecido como “asiento de negros”, um contrato de monopólio firmado entre a Coroa espanhola e comerciantes de outros países, serviu como marco para o negócio. Isso porque a monarquia espanhola preferia não participar diretamente da prática, mas terceirizava os serviços para outras potências europeias.
Começa a febre
Considerando o quão lucrativo havia sido o comércio de escravizados nos dois séculos anteriores, a expectativa era de que a operação fosse altamente lucrativa. O entusiasmo foi impulsionado pela ideia de que o comércio exterior se normalizaria após o fim da Guerra da Sucessão Espanhola, em 1713.
Essa perspectiva, juntamente com a confiança gerada pelo respaldo real à companhia, atraiu diversos investidores ingleses. Há inclusive relatos de que o físico e matemático Sir Isaac Newton participou dessa moda financeira, investindo o equivalente atual a milhões de libras esterlinas.
Inicialmente, a empresa oferecia juros de 6% àqueles que compravam a ação, mas a euforia em torno do papel levou-o a um pico em 1720. E a ação continuava forte, apesar de nenhum boom no comércio de escravizados ter se materializado após a assinatura do Tratado de Utrecht, que encerrou a guerra.
Os espanhóis concederam aos britânicos uma parcela limitada do negócio e ainda ficaram com parte dos lucros, impuseram impostos sobre a importação de escravizados e estabeleceram restrições rigorosas às frotas de navios que poderiam ser enviadas. Isso reduziu as perspectivas de rentabilidade do negócio.
No entanto, o preço da ação continuou subindo, apoiado por um respaldo real. Em 1718, o rei Jorge I da Grã-Bretanha assumiu o governo da The South Sea Company, o que gerou mais confiança entre os investidores, elevando ainda mais os preços e chegando a gerar um retorno de 100% nas ações.
O princípio do fim
Como acontece com muitas bolhas, os preços se distanciaram dos fundamentos do negócio. Considerando que o comércio de africanos escravizados não estava gerando as receitas necessárias para justificar a alta no mercado acionário, o rali começou a perder força.
Além disso, a companhia negociava cada vez mais suas próprias ações e começava a participar de práticas pouco recomendáveis. Há registros de que pessoas ligadas à companhia pressionavam — ou subornavam — amigos e conhecidos para comprar ações, mantendo as valorizações elevadas, e houve inclusive subornos e outros atos de corrupção envolvendo ministros e autoridades britânicas.
Em 1720, ano em que o castelo de cartas desmoronou, o Parlamento britânico permitiu que a The South Sea Company comprasse a dívida nacional. A companhia desembolsou 7,5 milhões de libras para adquirir uma dívida de 32 milhões de libras. O plano era usar os lucros da venda de ações para pagar os juros da dívida.
Foi nesse momento que o preço da ação atingiu seu ponto máximo. O papel da companhia passou de cerca de 100 libras esterlinas em 1719 para 128,5 libras em janeiro de 1720. A partir desse ponto, o entusiasmo generalizado do mercado levou o preço para mais de 1.000 libras em agosto daquele ano.
Pouco depois, o preço despencou para pouco acima do valor de seu IPO.
O dilema do modelo criado pela The South Sea Company é que ele funcionava como uma espécie de carrossel financeiro, no qual o valor agregado esperado pelo comércio de escravizados não se concretizou. Em vez disso, a companhia inflava o preço de suas ações por meio de suas próprias operações no mercado acionário contra a dívida pública que havia adquirido.
O estouro
O ponto de ruptura ocorreu em setembro de 1720, quando as ações começaram a cair. Assim que a dúvida se instalou, os investidores começaram a perder a confiança e a vender as ações, derrubando os preços. O papel da companhia britânica acabou recuando para 124 libras em questão de dias, acumulando uma queda de mais de 80% em relação ao seu ponto mais alto.
O fim da bolha trouxe grandes perdas e, ao mesmo tempo, indignação entre os investidores. Como o colapso aconteceu nos primórdios do mercado acionário inglês — a criação da The Royal Exchange data de 1571, impulsionada pela rainha Elizabeth I —, não havia explicações disponíveis para o nível de especulação que havia gerado a bolha em primeiro lugar.
Um número relevante de pessoas perdeu muito dinheiro, a ponto de a taxa de suicídios aumentar, segundo relatos da época, e os afetados chegaram à esfera política exigindo explicações. Assim, o Parlamento iniciou uma investigação que revelou as más práticas da companhia, transformando o caso em um escândalo financeiro e político.
Em resposta, os legisladores aprovaram a Bubble Act de 1720, proibindo a criação de sociedades anônimas como a The South Sea Company sem uma autorização especial por carta real.
Ainda assim, embora o efeito tenha recebido ampla atenção, não teve um impacto maior sobre a economia em geral e não provocou uma recessão, como outras bolhas famosas da história.
A companhia, por sua vez, continuou sendo negociada até 1853, passando, nesse intervalo, por uma reestruturação.
