A discussão sobre o futuro da previdência deixou de se concentrar exclusivamente na sustentabilidade financeira. Agora, o verdadeiro desafio é adaptar os sistemas previdenciários a uma economia transformada pela inteligência artificial, por uma população que vive cada vez mais e por um mercado de trabalho em que o emprego tradicional perde espaço para o trabalho autônomo e as novas plataformas digitais.
Essa foi a principal mensagem do Seminário Internacional FIAP–World Pension Alliance (WPA) 2026, realizado em San José, na Costa Rica, onde reguladores, administradores de fundos de pensão, organismos internacionais e especialistas concordaram que as mudanças estruturais enfrentadas pela economia global exigem uma revisão profunda dos modelos previdenciários.
O encontro, inaugurado pela presidente da Costa Rica, Laura Fernández, reuniu durante dois dias representantes da América Latina, Europa e América do Norte para discutir como responder a três fenômenos que avançam simultaneamente: o envelhecimento acelerado da população, a disseminação da inteligência artificial e a transformação das relações de trabalho.
Uma pressão sem precedentes sobre os sistemas de aposentadoria
O alerta dos especialistas sobre o futuro é significativo. Projeções de organismos como as Nações Unidas mostram que o número de pessoas com mais de 65 anos deverá dobrar nas próximas décadas, enquanto a relação entre trabalhadores ativos e aposentados continua se deteriorando em praticamente todas as economias desenvolvidas e em boa parte da América Latina.
A isso se soma a rápida incorporação de tecnologias de inteligência artificial, que modificarão a demanda por mão de obra, a produtividade e a forma como milhões de pessoas geram renda — fatores que impactam diretamente as contribuições aos sistemas de previdência.
Guillermo Zamarripa, presidente da Federação Internacional de Administradoras de Fundos de Pensão (FIAP), resumiu o desafio durante o evento: “O mundo está mudando mais rápido do que nossos sistemas previdenciários. A inteligência artificial, a longevidade e a transformação do trabalho estão redefinindo o contexto em que as aposentadorias operam. Não basta reagir: precisamos nos antecipar.”
Do desempenho financeiro à resiliência do sistema
Uma das principais mensagens apresentadas ao longo das palestras foi que o sucesso dos sistemas previdenciários já não dependerá apenas da obtenção de bons retornos financeiros.
Os especialistas afirmaram que será necessário incorporar novas estratégias de investimento, ampliar o universo de ativos elegíveis — incluindo ativos alternativos —, fortalecer a regulação e utilizar ferramentas tecnológicas que permitam aprimorar a gestão da poupança previdenciária.
Nesse contexto, nos últimos anos, grandes fundos de pensão do Canadá, Austrália, Países Baixos e países nórdicos aumentaram sua exposição a infraestrutura, crédito privado, energia, mercado imobiliário e private equity, como forma de diversificar as carteiras e melhorar os retornos ajustados ao risco em horizontes de investimento de longo prazo.
Essa tendência também começa a ser observada em alguns mercados latino-americanos, onde os administradores buscam ampliar as fontes de retorno em um ambiente de juros reais mais baixos e maior volatilidade financeira.
A cooperação internacional ganha protagonismo
Outro destaque do encontro foi a realização, pela primeira vez, de uma conferência conjunta entre a FIAP e a World Pension Alliance, a maior rede mundial de associações que reúne provedores e organizações de previdência. A iniciativa sinaliza que os desafios previdenciários estão deixando de ser tratados exclusivamente sob uma perspectiva nacional.
A World Pension Alliance foi formalmente fundada em 2016, representa mais de 400 milhões de participantes e reúne cerca de 5 mil entidades que administram trilhões de dólares em ativos ao redor do mundo.
Karol Fernández, vice-presidente executiva da FIAP e presidente da World Pension Alliance, afirmou que, embora existam diferenças importantes entre os sistemas previdenciários de cada país, os riscos estruturais são cada vez mais comuns e exigem cooperação internacional e intercâmbio de experiências.
América Latina: o desafio da “tempestade perfeita”
Para a América Latina, o desafio é particularmente complexo. A região combina elevados níveis de informalidade no mercado de trabalho, baixas taxas de poupança previdenciária e um acelerado processo de envelhecimento demográfico, fatores que limitam a capacidade de financiar aposentadorias adequadas sem a implementação de reformas estruturais.
Ao mesmo tempo, a expansão da economia digital e do trabalho independente cria novos desafios para incorporar milhões de trabalhadores que atualmente permanecem fora dos sistemas contributivos.
Na prática, apesar dos avanços macroeconômicos registrados na região — que tornaram sua economia muito diferente daquela observada no último quarto do século passado —, a América Latina enfrenta o desafio de lidar, nas próximas décadas, com uma verdadeira “tempestade perfeita” em seus sistemas previdenciários e, consequentemente, em sua economia.
Nesse contexto, os participantes concordaram que as futuras reformas deverão se apoiar em evidências técnicas, maior cooperação internacional e marcos regulatórios suficientemente flexíveis para acompanhar uma economia que evolui muito mais rapidamente do que a legislação previdenciária.
Um debate que está apenas começando
Além das conclusões específicas do seminário, o encontro deixou uma mensagem clara para governos, reguladores e administradores de fundos de pensão: o principal desafio já não é apenas financiar as aposentadorias do futuro, mas fazê-lo em um ambiente em que a inteligência artificial, a longevidade e a transformação do mercado de trabalho modificarão profundamente a forma como as pessoas trabalham, poupam e investem nas próximas décadas.



