A corrida global pela inteligência artificial costuma ser analisada sob a ótica do software e dos semicondutores. No entanto, na América Latina, a IA está ganhando forma como uma transformação física e geopolítica muito mais ampla. À medida que o mundo caminha para investimentos em infraestrutura de IA entre US$ 5 trilhões e US$ 8 trilhões até 2030, segundo as Perspectivas Globais 2026 do BlackRock Investment Institute, a região está se integrando cada vez mais a essa mudança estrutural.
Estamos testemunhando a convergência de três poderosas megaforças: a revolução da inteligência artificial, a reconfiguração das cadeias globais de suprimentos e a transição para uma economia de baixo carbono. Essas forças não atuam de forma isolada; estão profundamente interligadas e se reforçam mutuamente, criando um novo cenário para os investidores.
A escala da infraestrutura digital que sustenta a IA está se tornando cada vez mais visível em toda a América Latina. Provedores globais de serviços em nuvem e parcerias com o setor privado vêm ampliando seus investimentos em data centers e conectividade, refletindo a crescente demanda por capacidade computacional. No fim de 2025, a Cushman & Wakefield projetou um aumento significativo da capacidade dos data centers em toda a região até o final da década.
Essa expansão da infraestrutura ocorre em meio a um cenário geopolítico cada vez mais complexo. À medida que cresce a fragmentação global, os países passam a dar maior ênfase à resiliência tecnológica. Na América Latina, esse movimento contribui para o desenvolvimento de capacidades locais em inteligência artificial e para um foco mais sólido em governança de dados e infraestrutura local.
Ao mesmo tempo, os esforços para fortalecer a resiliência das cadeias de suprimentos estão reconfigurando a manufatura e os fluxos comerciais. O México, por exemplo, passou a integrar de forma mais estreita as cadeias de suprimentos de alto valor da América do Norte, expandindo sua atuação para além da manufatura tradicional em direção a setores mais avançados, incluindo tecnologia e componentes de alta complexidade. Essa tendência evidencia a crescente relevância da região na evolução das redes globais de produção.
No entanto, um dos principais obstáculos para essa transformação é a energia. A infraestrutura que sustenta a inteligência artificial exige um fornecimento abundante e confiável de eletricidade. Nesse contexto, diversas áreas da América Latina se beneficiam de níveis relativamente elevados de geração de energia renovável, o que pode apoiar o desenvolvimento de infraestrutura intensiva em consumo energético ao mesmo tempo em que contribui para as metas de descarbonização. A região também desempenha um papel central no fornecimento global de minerais críticos, reforçando ainda mais sua importância tanto para a transição energética quanto para a transformação digital.
Sob a perspectiva dos investimentos, essas dinâmicas reforçam a importância de adotar uma abordagem mais granular e seletiva para capturar oportunidades. À medida que forças estruturais remodelam economias e mercados, é provável que os resultados variem significativamente entre setores, países e classes de ativos. Isso sugere que uma abordagem mais seletiva poderá ser necessária para identificar com precisão onde o valor está sendo criado.
Nossa perspectiva combina análises globais com experiência de investimento diretamente no mercado. Embora as oportunidades relacionadas à inteligência artificial, à infraestrutura e às mudanças nas cadeias de suprimentos sejam relevantes, elas vêm acompanhadas de desafios macroeconômicos, regulatórios e de execução. Compreender esse equilíbrio é fundamental para investidores que buscam navegar pelo papel cada vez mais relevante da região na economia global.
Para os investidores, a América Latina não é apenas uma beneficiária passiva dessas tendências globais, mas uma parte cada vez mais importante da forma como elas se materializam. Na interseção entre as ambições por uma inteligência artificial soberana, a reconfiguração das cadeias de suprimentos e a transição energética, a região está se posicionando como um componente relevante para o crescimento estrutural de longo prazo.




