Um dos temas mais recorrentes no universo da gestão patrimonial atualmente é a mudança geracional em um amplo conjunto de fortunas privadas, impulsionada por uma onda global de transferência de riqueza. E, embora esse fenômeno não esteja afetando a dinâmica da América Latina da mesma forma que os mercados desenvolvidos, a UBS destaca que o Brasil desponta como o principal foco dessa tendência na região.
“Temos observado que o mercado de wealth management continua crescendo nos mercados emergentes”, afirmou o economista-chefe da instituição, Paul Donovan, durante a apresentação da mais recente edição do Global Wealth Report do banco de investimentos.
Em relação à transferência de patrimônio entre gerações, a América Latina está menos envolvida nessa tendência global. Segundo Donovan, isso não decorre principalmente de características demográficas da região, mas do fato de que “a riqueza foi criada em um momento posterior ao período do pós-guerra” nessas economias, em comparação com mercados como o europeu e o norte-americano.
Algo semelhante, acrescentou, ocorre na Ásia, excluindo China e Japão.
No entanto, dentro da América Latina, a principal exceção é o Brasil. O país, destacou o economista-chefe da UBS, “se destaca por estar um pouco mais envolvido na transferência de riqueza”.
Nesse sentido, o profissional afirma que esse é um ponto que os gestores patrimoniais devem observar com atenção. Donovan ressaltou que será fundamental acompanhar como a próxima geração de investidores brasileiros irá investir para compreender os rumos da indústria de wealth management.
“Isso nos faz sair dessa perspectiva focada na Europa e nos Estados Unidos quando falamos de transferência de riqueza”, comentou. “Estamos olhando para um grupo diferente de investidores, com experiências culturais distintas. É algo que vou acompanhar com muito interesse nos próximos anos.”
O caso brasileiro
Embora o banco de investimentos europeu considere que o mercado brasileiro continua dinâmico, os dados mostram uma desaceleração no crescimento do segmento de wealth management ao longo dos últimos anos.
O relatório da instituição aponta que a riqueza média dos investidores brasileiros caiu 3% desde o início da década, enquanto a riqueza mediana recuou 20% entre 2020 e 2025.
Os dados da UBS mostram que pouco mais de 4% dos adultos possuem ativos entre US$ 100 mil e US$ 1 milhão. Por sua vez, mais de 26% detêm patrimônio entre US$ 10 mil e US$ 100 mil. Ainda assim, os milionários em dólares representam menos de 0,25% da população adulta, concentrando cerca de 31% do patrimônio pessoal do país.
Em nível regional, devido à exposição dos investidores latino-americanos ao ciclo das commodities, acrescentou Paul Donovan, esses patrimônios normalmente estão ligados às cadeias globais de suprimentos. “Isso cria uma sensibilidade aos fluxos do comércio mundial”, afirmou.
Mesmo assim, o economista-chefe ressaltou que, “graças ao suporte dos preços das commodities, os patrimônios privados têm sido uma área de crescimento bem-sucedida dentro dessas economias. A riqueza continua se expandindo em linha com o comportamento dos preços das commodities”.



