No próximo dia 4 de julho, os Estados Unidos celebrarão o 250º aniversário de sua Declaração de Independência. Dois séculos e meio depois, o país não apenas se consolidou como a maior economia do planeta, mas também como o principal destino da poupança global e o mercado de referência para investidores institucionais de praticamente todas as regiões do mundo.
Fundos de pensão na América Latina, seguradoras europeias, fundos soberanos do Oriente Médio, universidades norte-americanas e gestores patrimoniais na Ásia compartilham hoje uma característica em comum: uma parcela relevante de seus portfólios depende do desempenho de Wall Street, do dólar e do mercado de títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
A dimensão desse domínio financeiro é difícil de igualar. A indústria de ETFs nos Estados Unidos administra atualmente cerca de US$ 15,7 trilhões, um recorde histórico, e apenas nos cinco primeiros meses de 2026 captou mais de US$ 837 bilhões em novos recursos.
Em nível global, os ativos sob gestão por meio de ETFs atingiram um recorde de US$ 23,08 trilhões ao fim de maio, refletindo o crescimento estrutural dos investimentos indexados e da gestão passiva, dois segmentos nos quais os mercados norte-americanos continuam ocupando uma posição dominante.
“A integração financeira com os Estados Unidos já não é apenas uma decisão geográfica ou comercial, mas uma consequência natural da profundidade, liquidez e sofisticação de seus mercados”, explica Juan Carlos Eguiarte, da BAI Capital.
A relevância dos Estados Unidos vai além de suas fronteiras. As decisões do Federal Reserve continuam determinando o custo global do dinheiro, os movimentos do dólar e os fluxos para os mercados emergentes, enquanto os títulos do Tesouro norte-americano seguem funcionando como o principal ativo livre de risco utilizado para precificar praticamente qualquer ativo financeiro do mundo.
Nem mesmo as preocupações recentes com o aumento do déficit fiscal dos Estados Unidos, o crescimento da dívida pública ou as tensões geopolíticas alteraram substancialmente essa dinâmica. Os investidores continuam direcionando capital para ações, títulos de dívida e veículos listados nos mercados norte-americanos, reafirmando o papel central desse mercado nas estratégias globais de investimento.
Mas a influência norte-americana também não se limita às bolsas de valores. O dólar continua sendo a principal moeda do sistema financeiro internacional e segue funcionando como o principal ativo de refúgio em momentos de incerteza global. De acordo com dados do Fundo Monetário Internacional, 56,8% das reservas internacionais dos bancos centrais do mundo permanecem denominadas em dólares, uma proporção superior à soma das demais moedas de reserva mais importantes, lideradas pelo euro e pelo iene japonês.
A moeda norte-americana também mantém posição dominante no sistema bancário e de pagamentos internacional. Cerca de 55% dos empréstimos e ativos bancários internacionais estão denominados em dólares, enquanto aproximadamente 60% dos depósitos e passivos transfronteiriços utilizam a moeda norte-americana como referência, consolidando seu papel como a linguagem financeira do comércio e dos investimentos globais.
A isso se soma o papel dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, considerados por investidores e reguladores como o principal ativo livre de risco do planeta e utilizados como referência para precificar desde títulos corporativos até projetos de infraestrutura e ativos de mercados emergentes. O mercado de Treasuries supera atualmente US$ 30 trilhões e constitui o mercado de dívida mais profundo e líquido do mundo.
E, provavelmente, nenhuma instituição simboliza melhor a influência global dos Estados Unidos do que o Federal Reserve. As decisões sobre taxas de juros, liquidez e comunicação de política monetária adotadas pelo Fed têm efeitos imediatos sobre o custo do financiamento, o comportamento do dólar e os fluxos de capital para economias desenvolvidas e emergentes.
Nos mercados internacionais existe até mesmo um antigo princípio não escrito: quando o Fed fala, o mundo escuta. As declarações de seu presidente podem movimentar, em questão de minutos — ou até mesmo segundos —, os preços de títulos, ações, commodities e moedas em praticamente todos os continentes.
No entanto, a hegemonia financeira dos Estados Unidos enfrenta desafios crescentes. A participação do dólar nas reservas internacionais encontra-se em seu menor nível em várias décadas, e alguns bancos centrais começaram a diversificar gradualmente suas reservas para outras moedas e para o ouro. Ainda assim, até o momento, nenhum concorrente conseguiu oferecer simultaneamente a profundidade de mercado, a liquidez, a segurança jurídica e a infraestrutura financeira proporcionadas pelos Estados Unidos.
Para gestores de fundos e administradores de patrimônio, o 250º aniversário da independência norte-americana oferece uma conclusão pouco comum para uma data histórica: a principal exportação dos Estados Unidos já não são apenas bens, tecnologia ou energia, mas a confiança financeira.
Dois séculos e meio depois de 1776, o mundo continua utilizando os Estados Unidos não apenas como referência econômica, mas como o eixo em torno do qual são construídos os portfólios globais.



