Segundo a análise Global Healthcare Private Equity Report 2026, publicada pela Bain & Company, o valor global das operações de private equity no setor de saúde atingiu um novo recorde em 2025, com um volume estimado de US$ 191 bilhões em transações, superando o máximo histórico registrado em 2021.
O relatório aponta que esse crescimento foi impulsionado principalmente pelo forte aumento das operações acima de US$ 1 bilhão, o que compensou a desaceleração observada no segundo trimestre devido às tarifas na América do Norte e na Ásia-Pacífico. O volume de negócios também permaneceu robusto, com 445 aquisições anunciadas, o segundo maior número já registrado.
Além disso, os desinvestimentos registraram forte recuperação e alcançaram US$ 156 bilhões — o segundo maior nível da história — ante US$ 54 bilhões em 2024, graças ao retorno das transações sponsor-to-sponsor após os mínimos observados no período pós-pandemia.
Para Cira Cuberes, sócia da Bain & Company, “o mercado de private equity em saúde teve um desempenho recorde no ano passado, com um forte aumento das operações de grande porte e crescimento em todos os segmentos, liderados pelos setores biofarmacêutico e de prestadores de serviços, além do impulso da atividade em medtech. Também observamos uma sólida recuperação no valor dos desinvestimentos após os mínimos recentes, o que indica o retorno da atividade de saídas à medida que os patrocinadores retomam processos de venda de ativos estratégicos. Tudo aponta para um 2026 muito dinâmico, sustentado pelos elevados níveis de liquidez e pelo número crescente de ativos sob gestão de patrocinadores que se aproximam do fim de seu ciclo de investimento”.
Operações entre patrocinadores ganham força
A análise destaca que, após a desaceleração registrada em 2023 e 2024, as operações entre patrocinadores voltaram a crescer de forma expressiva em 2025, atingindo recordes históricos tanto em volume quanto em valor. A expectativa é de mais de 150 transações, com valor estimado superior a 120 bilhões de dólares.
A Bain & Company também destaca o aumento do tamanho médio das operações: mais de 30 ultrapassaram US$ 1 bilhão, ante apenas oito em 2024. Além disso, operações public-to-private e carve-outs continuam ganhando relevância como alternativas para investidores, apresentando crescimento consistente desde 2023.
Recuperação após a desaceleração do segundo trimestre
O relatório aponta que o crescimento global foi sustentado pela atividade constante na Europa e pela recuperação da América do Norte e da Ásia-Pacífico após a desaceleração observada no segundo trimestre. O volume de operações aumentou 39% entre o segundo e o terceiro trimestre, enquanto o segundo semestre encerrou 7% acima do primeiro.
América do Norte: impulso das grandes operações
Segundo o estudo, a região conseguiu superar a desaceleração do segundo trimestre graças ao aumento das transações de grande porte. Até novembro de 2025, foram registradas 26 operações superiores a 1 bilhão de dólares, frente a 14 em todo o ano de 2024, e mais de 70% delas foram sponsor-to-sponsor.
O volume total de operações cresceu ligeiramente em relação ao ano anterior, embora ainda permaneça abaixo do recorde histórico de 2021. Nos desinvestimentos, 2025 encerrou com valor estimado de 90 bilhões de dólares, muito acima dos US$ 35 bilhões registrados em 2024.
Europa: liderança biofarmacêutica e grandes transações
Na Europa, o valor das operações deve dobrar em relação ao ano anterior, alcançando aproximadamente 59 bilhões de dólares. O setor biofarmacêutico liderou esse crescimento, concentrando as cinco maiores transações da região e representando 65% do valor total.
As grandes operações retornaram com força: em 2025 foram registradas cerca de 15 transações acima de US$ 1 bilhão, frente a apenas três em 2023 e quatro em 2024. O número total de operações também aumentou, superando o recorde de 2024 e mantendo a tendência de crescimento iniciada em 2022.
Os desinvestimentos registraram recuperação significativa, atingindo cerca de 53 bilhões de dólares após a forte queda do ano anterior, impulsionados principalmente por grandes operações entre patrocinadores.
Ásia-Pacífico: crescimento generalizado
O relatório mostra que o valor das operações na Ásia-Pacífico alcançou um recorde em 2025, superando em mais de 30% o pico registrado em 2021, apesar da desaceleração do segundo trimestre. Os segmentos biofarmacêutico e de prestadores de serviços continuam sendo os principais motores do mercado de private equity em saúde na região, embora os setores de medtech e tecnologia da informação em saúde também tenham registrado crescimento relevante.
Japão, Índia e Austrália–Nova Zelândia apresentaram avanços significativos em relação a 2024, enquanto a China dobrou seu desempenho do ano anterior tanto em volume quanto em valor, embora sua atividade ainda permaneça abaixo dos níveis históricos mais elevados.
Setor biofarmacêutico: concentração de valor
O estudo aponta que o valor das transações no segmento biofarmacêutico aumentou para cerca de 80 bilhões de dólares em 2025, ante US$ 55 bilhões em 2024, enquanto o volume deve crescer aproximadamente 20%, superando 130 operações. Desde 2020, esse setor representa cerca de 30% do volume total e pelo menos 22% do valor global das operações.
A Europa liderou boa parte desse crescimento, com aumento de aproximadamente 40% no número de operações e de 70% em valor em relação a 2024. Na América do Norte, o crescimento foi mais moderado: o valor avançou 20%, enquanto o volume permaneceu estável.
Prestadores de serviços: crescimento impulsionado pela tecnologia
Segundo a análise, o valor das transações envolvendo prestadores de serviços e atividades relacionadas cresceu 57%, alcançando aproximadamente 62 bilhões de dólares, enquanto o volume permaneceu estável, refletindo operações de maior porte. O crescimento foi liderado pelas áreas de tecnologia da informação e serviços para prestadores de saúde, embora os investimentos exclusivamente em prestadores não tenham apresentado a mesma aceleração.
Os investidores concentraram-se em ativos habilitados por tecnologia, como soluções de análise de dados, otimização de força de trabalho e plataformas digitais. Dentro desse segmento, o valor das operações em tecnologia da informação em saúde dobrou em 2025, alcançando cerca de 32 bilhões de dólares.
Medtech: impulso na era pós-Covid
O relatório destaca que o valor das operações em tecnologia médica praticamente dobrou em relação ao ano anterior, atingindo cerca de 33 bilhões de dólares, enquanto o volume cresceu aproximadamente 20%, para cerca de 88 transações. O setor vem ganhando tração à medida que os investidores identificam oportunidades para aplicar estratégias comprovadas de criação de valor, focadas no crescimento das receitas, expansão de margens e múltiplos, ao mesmo tempo em que administram riscos de queda.
Três tendências-chave para 2026
A análise aponta que a tecnologia em saúde mantém uma trajetória de crescimento em volume e valor desde 2023, refletindo o interesse contínuo dos investidores. Aqueles que se concentrarem em alavancas específicas de criação de valor — como o desenvolvimento de estratégias abrangentes de precificação e empacotamento de serviços ou a realização de fusões e aquisições de grande escala para construir plataformas sinérgicas — estarão mais bem posicionados para diferenciar suas ofertas e alcançar saídas mais rentáveis em um ambiente de avaliações elevadas e forte concorrência.
No mercado de serviços farmacêuticos, embora historicamente seja um segmento atrativo e de grande porte, os desafios recentes levaram alguns investidores a adotarem uma postura mais cautelosa. Outros optaram por uma abordagem seletiva, priorizando ativos premium com elevado potencial de melhoria operacional e modelos de negócios mais resilientes à volatilidade do mercado.
Por sua vez, embora a atividade permaneça abaixo dos níveis máximos observados há alguns anos, o interesse por grupos médicos continua presente entre investidores americanos. As plataformas líderes vêm se diferenciando ao ir além do tradicional modelo de buy-and-build, avançando para abordagens integradas e centradas no profissional de saúde, com foco na melhoria da qualidade assistencial. Aqueles que investirem em modelos de nova geração, baseados em tendências promissoras como a exposição farmacêutica ou a assistência baseada em valor, encontrarão oportunidades interessantes.
“Estamos otimistas em relação à evolução do mercado de private equity em saúde neste ano, sobretudo porque a confiança dos investidores nos fundamentos do mercado permaneceu sólida apesar das dificuldades enfrentadas na primavera passada. A força das operações public-to-private e dos carve-outs, somada ao retorno das transações entre patrocinadores, reforça a expectativa de intensa atividade. Olhando para frente, os investidores precisarão ter estratégias claras de criação de valor para alcançar retornos diferenciados em um ambiente onde a competição por ativos continua muito elevada”, conclui Cira Cuberes, sócia da Bain & Company.



