Durante anos, boa parte da indústria financeira considerou os ETFs como simples veículos passivos desenhados para replicar índices bursáteis a baixo custo. Mas essa definição começa a ficar limitada.
A nova etapa do mercado global de fundos negociados em bolsa aponta para algo muito mais ambicioso: produtos ativos, estratégias de renda, acesso a mercados privados, tokenização e modelos de distribuição digital capazes de alterar profundamente a arquitetura tradicional de investimento.
Essa foi uma das principais mensagens levantadas por Frank Koudelka, vice-presidente sênior de Soluções de Produtos ETF da State Street Global Advisors, durante uma entrevista recente ao ETF TV ao lado de Deborah Fuhr e Margareta Hricova.
A conversa evidenciou uma mudança estrutural que começa a ganhar força dentro do ecossistema global de asset management: os ETFs estão deixando de ser apenas instrumentos de indexação para se transformar em plataformas flexíveis de construção patrimonial e distribuição financeira.
O mercado que sobreviveu a todas as crises
Um dos elementos mais destacados por Koudelka foi a capacidade de resiliência demonstrada pelos ETFs durante diferentes episódios de volatilidade financeira. Diferentemente de outros veículos tradicionais, os ETFs conseguiram se consolidar graças a vantagens estruturais como: liquidez, transparência, negociação intradiária e eficiência operacional.
Essas características permitiram que os investidores reagissem com maior rapidez durante períodos de estresse de mercado, desde a crise financeira de 2008 até a pandemia e os recentes ciclos de aperto monetário global.
A importância dessa mudança é considerável se levado em conta o tamanho já alcançado pela indústria. O mercado global de ETFs supera atualmente 15 trilhões de dólares em ativos sob gestão e continua expandindo tanto em produtos quanto em geografias.
Mas o verdadeiro ponto de inflexão, segundo a conversa, não está apenas no crescimento dos ativos, mas na ampliação das funções que os ETFs começam a desempenhar dentro das carteiras.
Regulação: o catalisador que acelerou a adoção
Koudelka também destacou um aspecto que frequentemente recebe menos atenção fora do setor: o papel da regulação na expansão global dos ETFs.
Mercados como Austrália, Canadá e várias jurisdições europeias experimentaram uma aceleração significativa na adoção de ETFs após implementar reformas relacionadas à eliminação de retrocessões, maior transparência nas comissões e mudanças nos modelos de assessoria financeira.
A lógica é relativamente clara: quando os investidores conseguem observar de forma mais transparente os custos de distribuição e administração, os ETFs tendem a ganhar atratividade frente a produtos tradicionais mais caros.
Esse fenômeno modificou gradualmente as dinâmicas competitivas dentro do wealth management e da distribuição de fundos.
A pressão sobre custos, particularmente em gestão patrimonial e private banking, tornou-se um dos principais motores estruturais por trás do crescimento dos ETFs em nível global.
O mercado americano já não é suficiente
Embora os Estados Unidos continuem dominando amplamente a indústria global de ETFs, a entrevista deixou claro que o próximo ciclo de crescimento dependerá cada vez mais dos mercados internacionais.
E aí o desafio muda completamente. Europa e Ásia apresentam estruturas regulatórias fragmentadas, diferentes canais de distribuição, preferências distintas entre investidores institucionais e de varejo e estruturas fiscais muito mais complexas.
Por isso, Koudelka destacou que o sucesso internacional exige abandonar a abordagem uniforme que historicamente dominou muitas gestoras americanas. O crescimento global dos ETFs já não depende apenas do lançamento de produtos, mas da adaptação de infraestrutura, distribuição e regulação a cada mercado local.
América Latina e Oriente Médio aparecem no radar
Um dos pontos mais interessantes da conversa foi a identificação de novas regiões de expansão para a indústria. Koudelka destacou particularmente a América Latina e o Oriente Médio como mercados com potencial significativo de crescimento na adoção de ETFs nos próximos anos.
No caso latino-americano, estruturas internacionais como os UCITS europeus continuam funcionando como porta de entrada para investidores regionais que buscam exposição global sob veículos regulados e líquidos.
A tendência coincide com um fenômeno mais amplo: crescimento de plataformas digitais, expansão wealthtech, democratização do investimento internacional e aumento gradual de investidores de varejo em mercados emergentes.
No Oriente Médio, por sua vez, a combinação de crescimento patrimonial, sofisticação financeira e expansão do capital institucional começa a posicionar a região como um dos novos focos estratégicos para emissores globais de ETFs.
O ETF já não é um produto passivo
Talvez a mensagem mais relevante da entrevista tenha sido conceitual. Koudelka insistiu que o ETF não deve ser entendido como um “produto passivo”, mas como um veículo estruturalmente eficiente capaz de abrigar múltiplas estratégias de investimento.
Essa mudança semântica reflete uma transformação importante dentro da indústria. Hoje, o universo ETF já inclui gestão ativa, estratégias de geração de renda, produtos com proteção contra perdas, exposição temática, acesso a ativos alternativos e até mercados privados.
A evolução está ampliando radicalmente o alcance original do formato ETF. Em outras palavras, o ETF está deixando de ser apenas um instrumento de réplica de índices para se transformar em uma espécie de “contêiner financeiro” adaptável a diferentes necessidades patrimoniais.
Tokenização e digitalização: a próxima fronteira
A conversa também abordou um dos temas mais observados atualmente pela indústria: a infraestrutura digital. Koudelka afirmou que avanços como tokenização, digitalização de ativos e novos sistemas de distribuição podem transformar profundamente o funcionamento do mercado de ETFs no futuro.
Embora ainda se trate de um processo inicial, a tokenização aparece cada vez mais como uma ferramenta potencial para ampliar o acesso, reduzir fricções operacionais, melhorar a distribuição internacional e fragmentar ativos de investimento.
O impacto pode se estender muito além dos ETFs e acabar modificando a arquitetura geral dos mercados financeiros.
A indústria entra em uma nova etapa
A entrevista termina com uma mensagem que reflete o momento atual do setor: a indústria de ETFs continua se expandindo muito além das definições tradicionais que dominaram as últimas duas décadas.
A próxima fase parece ser marcada por inovação de produto, digitalização, pressão sobre custos, acesso global e competição crescente com veículos tradicionais.
Para as grandes gestoras, o desafio já não será apenas lançar mais ETFs, mas entender como esses produtos estão mudando toda a cadeia de valor dos investimentos.
Porque o verdadeiro ponto de inflexão talvez não seja o tamanho alcançado pelos ETFs, mas o fato de que eles estão começando a redefinir silenciosamente a maneira como o mundo investe.



