Há muitos passos, procedimentos e capacidade profissional envolvidos em transformar anos de poupança progressiva em uma pensão final no momento da aposentadoria. E, entre um mosaico de fórmulas, marcos regulatórios e desenhos de sistemas, em que cada país possui sua própria receita, no coração do sistema estão os responsáveis por cultivar os recursos e colher os retornos: as equipes de investimentos das gestoras de fundos de pensão.
Esses profissionais da indústria financeira são encarregados de desenhar e administrar os portfólios que agrupam bilhões de dólares em recursos de trabalhadores, alinhando critérios de diversificação, limites regulatórios e horizontes de investimento para alcançar as melhores relações risco-retorno possíveis. É aí que a mágica acontece.
Nos maiores mercados da América Latina, as gestoras de maior peso têm suas próprias fórmulas e seus próprios perfis. É essa combinação de talento e ideias que levou ao topo a AFP Habitat, no Chile, a AFP Integra, no Peru, a Afore Profuturo, no México, a AFP Porvenir, na Colômbia, e a Previ, no Brasil.
Habitat, a líder indiscutível no Chile
Com os 66,8 bilhões de dólares que administrava em abril, o equivalente a cerca de 20% do PIB do Chile, a AFP Habitat é sem dúvida a referência da gestão previdenciária no país andino. E tem sido assim durante anos, consolidando a posição da empresa controlada em partes iguais pela Câmara Chilena da Construção (CChC) — por meio de seu braço de investimentos, ILC — e pelo grupo internacional Prudential Financial.
No fechamento do ano passado, a empresa contava com uma participação de mercado de 26,9% em ativos, 14,5% em número de afiliados e 36,5% em poupança voluntária.
O principal executivo da área de investimentos é o CIO da companhia, Rodrigo Nader. O profissional é um rosto relativamente novo na Habitat, já que assumiu o cargo em 2024 após a saída da histórica gerente de investimentos Carolina Mery.
Sob o comando de Nader, há uma variedade de equipes de investimento que alimentam a construção de portfólios, com áreas especializadas lideradas por diferentes gestores. Em renda variável, há cinco pessoas dedicadas à renda variável indireta, lideradas por Francisco Mina, e seis pessoas dedicadas à renda variável direta, lideradas pelo subgerente Gonzalo Menéndez. No caso da renda fixa, a equipe conta com seis pessoas e está, por enquanto, em busca de um líder. Além disso, há a gerência de Ativos Alternativos, em que o gerente Rodrigo Ordóñez lidera uma equipe de quatro pessoas.
Essa estrutura é complementada pela Gerência de Estratégia e Quantitativa. Essa instância, comentam da empresa à Funds Society, é considerada um fator diferenciador, já que outras AFPs operam com estrategistas internos. Na Habitat, essa unidade conta com seis profissionais e está sob responsabilidade de Herman Granzow.
A AFP administra cinco fundos com diferentes perfis de risco, identificados de A a E, em que os primeiros estão mais inclinados ao risco e os últimos mais voltados à renda fixa. Para definir os portfólios, o processo de investimento da companhia combina uma visão top-down com uma análise bottom-up por classe de ativo. Esses processos se articulam em torno de dois comitês mensais, liderados pela Gerência de Estratégia. Um é dedicado à análise internacional e o outro ao Chile, conduzido pelo economista-chefe da entidade, Álvaro González.
Essas instâncias, juntamente com reuniões mensais com os principais asset managers globais — para validar visões, captar perspectivas e calibrar a carteira internacional —, são alimentadas por uma sequência de comitês semanais nas diferentes classes de ativos.
Integra, o principal player no Peru
No caso do Peru, um país cuja indústria de fundos de pensão foi fortemente impactada por uma série de retiradas parciais, o principal ator do ecossistema é a AFP Integra.
Atualmente, a companhia do Grupo Sura administra 11,8 bilhões de dólares, o que equivale a uma participação de mercado de 34%. A participação é ainda maior quando considerado o número de afiliados, já que a AFP atende quase 5 milhões dos 10,4 milhões atualmente ativos no sistema privado de pensões do país.
No topo da pirâmide de investimentos está Jean Pierre Fournier Romero, vice-presidente de Investimentos. O profissional é o principal responsável pela área de investimentos da empresa desde 2023, coroando uma trajetória de mais de uma década na gestora previdenciária.
A Fournier se reportam três áreas de estratégia e portfolio management, juntamente com uma área de Execution, dedicada ao trading. A responsável pela análise top-down é co-liderada pelos gerentes Reyk Itakura Barboza e Álvaro Meléndez Salas, enquanto as outras duas, de bottom-up e alternativos, são lideradas pelo gerente Daniel Jordán.
A AFP administra quatro fundos de pensão, organizados por nível de risco e identificados pelos números de 0 a 3. Enquanto o fundo 0 é dedicado à preservação de capital, com baixo nível de risco na carteira, o fundo 3 é destinado em 80% a ativos de renda variável, com cerca de 20% em alternativos.
A composição das carteiras vive um momento particular, no entanto, devido às retiradas. Segundo explica Fournier à Funds Society, “o allocation foi impactado pelas últimas retiradas, que geraram uma venda majoritária de ativos internacionais para atender às solicitações do oitavo saque”. No futuro, explica, a ideia é equilibrar os investimentos em uma divisão 50/50 entre ativos locais e internacionais.
Como desenham seus portfólios de investimento? A AFP conta com diversos comitês periódicos, liderados por altos executivos da companhia. O comitê de investimentos e o de riscos de investimento — presididos pelo presidente da AFP, José Carlos Saavedra, e pelo diretor independente Vicente Tuesta, respectivamente — reúnem-se mensalmente, enquanto o comitê estratégico de asset allocation — liderado pelo CIO — se reúne semestralmente.
Profuturo, a estrela dourada do México
Além de possuir a carteira mais volumosa entre as Afores mexicanas, a Profuturo conta com uma distinção particular. A empresa conquistou a classificação ouro da Morningstar, coroando-se como uma gestora de fundos de padrão global.
A gestora previdenciária encerrou 2025 com um montante de ativos administrados superior a 1,7 trilhão de pesos mexicanos (cerca de 98,3 bilhões de dólares), correspondentes à poupança de 8,4 milhões de afiliados. Isso equivale a uma participação de mercado de 19,9%.
O CIO responsável por essa gigantesca carteira é Antonio Sibaja, que ocupa o cargo de diretor executivo de Estratégias de Investimento. O profissional ocupa o cargo desde 2017, quando chegou vindo da Afore InverCap, com uma extensa trajetória no universo das Afores.
Esse profissional é encarregado de liderar a arquitetura de investimentos da Profuturo, apoiado por diversos executivos especializados. Uma delas é Rocío Vázquez, que ocupa o cargo de diretora de Estratégias e Portfólios, segundo informações da Amafore e da Consar. Também está Fernando Rodríguez, que trabalha estreitamente com Sibaja como responsável pela alocação de ativos desde 2018, segundo a Morningstar.
Essa cúpula da equipe de investimentos é apoiada por uma equipe mais extensa, composta por diversos chefes de área. José Antonio Heredia é o subdiretor responsável pela renda variável, Karla Sánchez é VP de renda fixa e câmbio, Luis Prado é VP de Asset Allocation e Salvador Cruz é o Head de investimentos alternativos.
Dado o desenho de fundos geracionais do sistema previdenciário mexicano, a Profuturo administra atualmente dez Siefores. Esses veículos — nos quais a Afore determina os parâmetros da carteira dentro dos marcos regulatórios — correspondem a dez grupos: um inicial, para nascidos a partir de 2000; um veículo básico para pessoas já aposentadas, nascidas antes de 1960; e oito fundos para os grupos intermediários, divididos a cada cinco anos.
Porvenir, com metade do AUM da Colômbia
Entre as quatro AFPs que operam no mercado colombiano, a Porvenir não é apenas a maior. É a que concentra quase metade do negócio.
Segundo números de fevereiro deste ano, a companhia ligada ao Grupo Aval — controlador do Banco de Bogotá e do Banco de Occidente, entre outros — possui 258,7 trilhões de pesos colombianos (equivalentes a cerca de 68,7 bilhões de dólares) sob gestão em sua carteira. Esses recursos correspondem a 47,6% do AUM total do sistema.
Em termos de afiliados, a posição da Porvenir é ainda mais clara: com 12 milhões de contribuintes, concentram 61,9% do mercado.
Dentro da companhia, as responsabilidades são divididas em vice-presidências, e o profissional que ocupa o cargo de vice-presidente de investimentos é Alonso Ángel. Ele é o responsável pela equipe que desenha e executa a estratégia de investimento dos diferentes portfólios administrados pela companhia em suas distintas modalidades.
Sob sua liderança há uma extensa rede de profissionais de investimentos que alimentam o processo de construção de portfólios. Dois deles são Leonardo Mila, Head de estratégia de investimentos, e Catalina Guevara, diretora de Pesquisas Econômicas da empresa, que cumprem papéis fundamentais na tomada de decisões, segundo descrevem na companhia.
A Porvenir é um player dominante da indústria desde que começou a participar do negócio de fundos de pensão, em 1994. Atualmente, administra uma variedade de fundos de pensão obrigatórios, voluntários e de seguro-desemprego. Em pensões obrigatórias, conta com quatro veículos: um programa conservador, um moderado, um de maior risco e um de aposentadoria programada.
Previ, a gigante ligada ao Banco do Brasil
A Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, conhecida como Previ, é o maior fundo de pensão da maior economia latino-americana e um dos principais fundos previdenciários da América Latina.
Administrando os recursos previdenciários dos trabalhadores do Banco do Brasil, uma das companhias mais proeminentes do país, a empresa encerrou 2025 com 300 bilhões de reais (cerca de 59,8 bilhões de dólares).
À frente da equipe de investimentos está o Chief Investment Officer da companhia, Cláudio Antônio Gonçalves, que tem mandato para liderar a carteira até junho de 2028. O profissional está no cargo há cerca de dois anos, mas passou duas décadas no Banco do Brasil, onde ocupou diversos cargos de responsabilidade nas áreas de asset management e investimentos.
A gestora administra quatro planos de pensão, chamados Plano 1, Previ Futuro, Previ Família e Capec. Os dois primeiros se destacam dentro da companhia por contarem com conselhos consultivos, com membros eleitos e representantes do Banco do Brasil, além das carteiras mais volumosas.
O conselho consultivo do Plano 1 — programa que administra 258,2 bilhões de reais (cerca de 51,5 bilhões de dólares) — conta com a participação de Cláudio José Zucco, Carlos Guilherme Haeser e José Carlos Vasconcelos, como eleitos, e Alexandre Bocchetti, Leandro de Carvalho e Adriano Weber, representando a instituição bancária.
Por sua vez, o conselho consultivo da Previ Futuro — com um AUM de 42,1 bilhões de reais (8,4 bilhões de dólares) — é composto por André Luiz Alves, Carlos Eduardo Bezerra e Juliana Carminato, como eleitos, e Andrea Santana, Bruno Monteiro e Antonio Germano dos Santos, pelo Banco do Brasil.



