O gestor de carteiras Thomas Haugaard analisa a surpresa eleitoral no Brasil, a perspectiva de uma orientação política mais favorável ao mercado e por que a credibilidade fiscal e a implementação de políticas são fundamentais para a trajetória de crédito do país.
Liderança surpreendente de Bolsonaro no primeiro turno
O primeiro turno da eleição brasileira trouxe um resultado mais forte do que o esperado para Flávio Bolsonaro (filho do ex-presidente Jair Bolsonaro), que obteve 47,03% dos votos válidos, em comparação com 45,16% do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Bolsonaro superou a média das pesquisas1 em mais de quatro pontos percentuais e liderou nos três maiores campos de disputa eleitoral: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O resultado aponta para uma demanda mais ampla por mudança política, em vez de simplesmente uma consolidação do eleitorado tradicional de direita. Isso acompanha uma guinada geral à direita em toda a América Latina e um realinhamento mais forte com os Estados Unidos.
Perspectivas para o segundo turno – Vantagem para Bolsonaro, mas a disputa permanece aberta
O segundo turno da votação ocorrerá em 25 de outubro, com Bolsonaro agora como favorito. Ele parte de uma vantagem de dois pontos e deverá conquistar uma parcela maior dos votos restantes de centro e centro-direita. Os mercados de previsão se movimentaram acentuadamente após o resultado, com a probabilidade implícita de vitória de Bolsonaro subindo para mais de 80%. Ainda assim, a eleição não está definida. As principais variáveis serão as primeiras pesquisas do segundo turno, os apoios aos candidatos, os índices de rejeição, o desempenho nos debates, o comparecimento às urnas e a mobilização dos 21,1% que se abstiveram no primeiro turno.
Uma guinada à direita no Congresso
O resultado no Congresso reforça a guinada política à direita. O Partido Liberal (PL) tornou-se o maior partido individual no Senado Federal e deverá formar a maior bancada na Câmara dos Deputados, enquanto a direita e a centro-direita, de maneira mais ampla, fortaleceram sua posição legislativa. Isso melhoraria a formação de coalizões e a governabilidade sob uma presidência de Bolsonaro, embora o sistema parlamentar fragmentado e baseado em negociações do Brasil provavelmente continue sendo uma restrição importante. Por outro lado, uma vitória de Lula deixaria o governo diante de um ambiente legislativo significativamente mais difícil.
Expectativas para as políticas – A credibilidade fiscal é o principal teste
O resultado do primeiro turno, em nossa visão, aumenta a probabilidade de uma orientação política mais favorável ao mercado, baseada em consolidação fiscal, reformas econômicas e maior alinhamento com os Estados Unidos. No entanto, as propostas fiscais detalhadas permanecem limitadas, e nenhuma das campanhas apresentou até agora clareza suficiente sobre o ritmo, a composição ou a implementação política do ajuste. A credibilidade fiscal, portanto, continua sendo a principal variável de médio prazo: um arcabouço disciplinado poderia reduzir os prêmios de risco soberano, melhorar a dinâmica da dívida e favorecer a entrada de capitais, mas o mercado, em última análise, exigirá a execução de políticas, em vez de sinalizações eleitorais. Acreditamos que há potencial para o Brasil estabilizar sua classificação de crédito em caso de vitória de Bolsonaro, mas só esperamos ter maior clareza quando tivermos o resultado final da votação do segundo turno.
Há uma mudança duradoura no horizonte?
O potencial de uma orientação política mais favorável ao mercado poderia, portanto, melhorar a trajetória de crédito do Brasil, mas o otimismo eleitoral precisa, em última análise, ser validado por reformas econômicas estruturais. A pesquisa em campo pode ajudar a distinguir se a retórica sobre as políticas está se transformando em reformas estruturais e a avaliar a capacidade de implementação política.
Implicações para o mercado e próximos passos
A interpretação imediata é claramente favorável aos ativos brasileiros, refletindo a maior probabilidade de consolidação fiscal e reformas estruturais. São necessários mais detalhes sobre as políticas e os planos de implementação, e visitaremos o Brasil em novembro. O novo governo ainda não terá tomado posse, mas nos reuniremos com analistas políticos locais próximos ao novo governo e com investidores locais. O objetivo final é obter uma visão mais clara da situação política e avaliar se o otimismo eleitoral tem potencial para se traduzir em uma melhora duradoura na trajetória de crédito do Brasil.
1 Uma média de pesquisas é uma agregação de várias pesquisas de opinião individuais, em vez do resultado de uma única pesquisa.
Títulos de dívida soberana estão sujeitos ao risco adicional de que, em determinadas circunstâncias políticas, diplomáticas, sociais ou econômicas, alguns países em desenvolvimento que emitem títulos de dívida de menor qualidade possam ser incapazes ou não estar dispostos a efetuar os pagamentos de principal ou juros em seus vencimentos.
Títulos estrangeiros estão sujeitos a riscos adicionais, incluindo flutuações cambiais, incertezas políticas e econômicas, maior volatilidade, menor liquidez e diferentes padrões de divulgação de informações financeiras e de outros dados, todos ampliados nos mercados emergentes.
Carteiras geridas ativamente podem não produzir os resultados pretendidos. Nenhuma estratégia de investimento pode garantir lucro ou eliminar o risco de perda.
Investimentos em mercados emergentes têm estado historicamente sujeitos a ganhos e/ou perdas significativos. Dessa forma, os retornos podem estar sujeitos à volatilidade.
Definições e Notas de Rodapé
Bottom-up fundamental research: The analysis of individual securities or issuers using financial, economic and other relevant information to assess their value and risks.
Candidate endorsements: Public declarations of support for one candidate by politicians or candidates who are no longer in the race.
Capital inflows: The movement of money into a country for investment, trade or business activity.
Credit fundamentals: The financial and economic factors used to assess a borrower’s creditworthiness and ability to meet its debt obligations.
Credit rating: An independent assessment of the creditworthiness of a borrower by a recognised agency such as Standard & Poors, Moody’s, or Fitch. Standardised scores such as ‘AAA’ (a high credit rating) or ‘B’ (a low credit rating) are used, although other agencies may present their ratings in different formats.
Debt dynamics: The way a borrower’s level of debt changes over time, influenced by factors including borrowing costs, economic growth, fiscal balances and inflation.
Fiscal consolidation: Measures taken by a government to reduce its budget deficit or stabilise its debt, generally through changes to public spending, taxation or both.
Fiscal credibility: The degree of confidence that a government can establish and implement a sustainable fiscal policy while meeting its financial commitments.
Mobilisation: How successfully a candidate encourages their supporters, particularly those who did not vote previously, to turn out and vote.
Prediction market: A market in which participants trade contracts whose value depends on the outcome of a future event, with market prices often interpreted as an indication of the perceived probability of that outcome. In an election context, prediction markets are markets where participants trade contracts based on who they think will win an election.
Rejection rates: The proportion of voters who say they would not vote for a particular candidate under any circumstances.
Run-off polls: Opinion polls taken ahead of the second round of voting, indicating which of the two remaining candidates voters currently favour.
Sovereign credit: Debt issued by a national government and the assessment of that government’s capacity and willingness to meet its financial obligations.
Sovereign risk premium: The additional return investors require for holding a country’s debt relative to an investment considered to have minimal risk, reflecting factors such as credit, political and economic risk.
Structural reform: A change to a country’s economic institutions, regulations or policies intended to improve the functioning and resilience of its economy.
Turnout: The proportion of eligible voters who actually cast a vote.
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As informações contidas neste artigo não constituem uma recomendação de investimento.
Não há garantia de que as tendências passadas se mantenham ou de que as previsões se concretizem.

