O Global Head de Produtos Securitizados, John P. Kerschner, e os gestores de portfólio Ian Bettney e Denis Struc analisam como o forte volume de emissões e a crescente dispersão nos mercados europeus de produtos securitizados estão criando novas oportunidades, reforçando a importância da expertise especializada para navegar por um universo de investimentos cada vez mais diversificado.
Emissões de securitizados europeus atingem máximas do período pós-crise financeira global
As emissões de produtos securitizados continuaram avançando em 2026, com a oferta chegando ao mercado em ritmo recorde. Considerando os títulos lastreados em ativos (ABS), os títulos lastreados em hipotecas residenciais (RMBS) e as obrigações de empréstimos colateralizados (CLOs), as emissões no mercado primário atingiram os níveis mais altos desde a crise financeira global (GFC) (Figura 1). Para os investidores, isso significa mais opções, maior flexibilidade e um dos cenários de mercado mais dinâmicos dos últimos anos.
Figura 1: Emissões de securitizados europeus atingem máximas do período pós-crise financeira global

Source: JP Morgan, 17 July 2026.
Ao mesmo tempo, o mercado tem se tornado cada vez mais seletivo. Embora a demanda por crédito securitizado continue forte, o volume elevado de emissões, os spreads mais estreitos e a incerteza macroeconômica tornam a seleção de ativos fundamental para gerar retornos acima do mercado. Em nossa visão, esse cenário favorece a gestão ativa, uma due diligence rigorosa e a capacidade de diferenciar de forma eficaz setores, estruturas e gestores de CLOs.
Emissões recordes estão criando oportunidades
As emissões primárias de securitizados europeus têm se mantido em torno de € 14 bilhões por mês durante quatro meses consecutivos, um nível historicamente elevado para a Europa. Uma oferta maior significa mais opções. Isso nos permite fazer rotações nas carteiras, renovar exposições e acessar oportunidades que poderiam ser difíceis de encontrar quando as emissões eram mais limitadas. Em um mercado no qual os spreads se estreitaram significativamente em relação às máximas registradas no início do ano, as emissões primárias representam uma importante fonte de valor relativo.
É importante destacar que essa oferta tem sido absorvida de forma notável, com as operações, em geral, registrando forte demanda. Nos últimos meses, observamos volatilidade geopolítica, preocupações com a inflação e mudanças nas expectativas para as taxas de juros. Apesar dessas incertezas, os investidores continuaram destinando capital aos mercados de securitizados. A capacidade do mercado de absorver um volume elevado de oferta primária sugere que a demanda subjacente por ativos securitizados de alta qualidade e geradores de renda permanece robusta.
A retomada dos CMBS é um dos desenvolvimentos mais interessantes
Talvez o movimento mais marcante nas emissões deste ano tenha sido a retomada do mercado europeu de títulos lastreados em hipotecas comerciais (CMBS). As emissões de CMBS retornaram aos níveis mais elevados desde a crise financeira global, com o volume do primeiro semestre no mesmo ritmo dos números recordes do ano passado.
O que chama particularmente a atenção é a diversidade dos ativos que estão chegando ao mercado e dos patrocinadores, depois de o setor ter sido dominado por um único sponsor durante algum tempo. Grande parte das emissões recentes tem sido lastreada em ativos de logística, refletindo a evolução contínua das cadeias globais de suprimentos e o crescimento do comércio eletrônico. Estamos observando uma combinação de grandes centros logísticos (“Big Box”), ativos de logística de última milha e parques industriais com múltiplos locatários, criando uma variedade de tipos de ativos industriais para investimento. Além disso, há uma proliferação de operações envolvendo data centers, que vêm ganhando força com a expansão da inteligência artificial.
A retomada das emissões está, portanto, criando um conjunto mais amplo de oportunidades no segmento de CMBS. Um dos atrativos do setor é a possibilidade de oferecer títulos com preços atrativos e tranches mezanino relativamente robustas, permitindo aos investidores obter uma exposição relevante quando têm convicção na qualidade do crédito subjacente. Ao mesmo tempo, os CMBS frequentemente apresentam um comportamento diferente de outros segmentos de securitizados; as oportunidades tradicionais de valor relativo baseadas na curva geralmente são menos pronunciadas em comparação com mercados negociados com maior frequência, como o de CLOs. Em nossa visão, isso torna a análise bottom-up ainda mais importante para identificar e avaliar oportunidades. À medida que a oferta continua se recuperando, vemos oportunidades crescentes em operações cuidadosamente selecionadas, respaldadas por sponsors de alta qualidade e perfis de ativos atrativos.
Forte demanda por CLOs continua absorvendo a oferta
A retomada das emissões de CMBS não ocorre de forma isolada. De maneira mais ampla, a atividade nos mercados de securitizados tem permanecido forte, com os CLOs continuando entre os maiores responsáveis pelo volume total de emissões e sustentando o crescimento do mercado europeu de CLOs (Figura 2). A atividade de negociação de CLOs também tem se mantido elevada, refletindo tanto o volume saudável de novas emissões quanto o reposicionamento ativo das carteiras pelos investidores. No início do ano, por exemplo, os volumes negociados aumentaram à medida que os investidores reavaliaram suas exposições aos setores de tecnologia e software nas carteiras de empréstimos, enquanto os últimos meses continuaram registrando atividade à medida que os investidores fizeram rotações em direção a novas oportunidades no mercado primário.
Figura 2: O crescimento do mercado europeu de CLOs

A demanda por exposição a CLOs permaneceu forte, apesar dos elevados volumes de emissão, o que contribuiu para o estreitamento dos spreads em todo o mercado. Após a abertura dos spreads em fevereiro e março, os spreads dos CLOs europeus recuaram de forma constante ao longo do segundo trimestre, com os spreads dos títulos AAA retornando, na prática, aos níveis observados no início do ano.
Ainda assim, não acreditamos que a oportunidade de valor relativo tenha desaparecido. Embora os spreads dos CLOs tenham se estreitado, eles ainda oferecem um prêmio em relação aos mercados de títulos corporativos com classificação de crédito semelhante. Como resultado, os investidores continuam recebendo uma remuneração atrativa pelo risco, especialmente quando considerados também a diversificação, a geração de renda e a resiliência que os CLOs têm apresentado ao longo de diferentes ciclos de mercado.
Por que o “prêmio de especialista” persiste
Uma pergunta recorrente é por que os CLOs continuam oferecendo um prêmio de spread relevante se os fundamentos das empresas subjacentes permanecem robustos.
Em nossa visão, existe um “prêmio de especialista” incorporado a essa classe de ativos. Os CLOs exigem uma análise mais aprofundada do que muitos investimentos tradicionais de renda fixa. Os investidores precisam compreender a estrutura, os ativos subjacentes e, talvez o mais importante, o gestor de CLO responsável pela construção e administração da carteira.
As exigências regulatórias reforçam essa dinâmica. Uma due diligence adequada exige uma análise detalhada dos conjuntos de ativos subjacentes, das estruturas das operações, do comportamento dos gestores e da construção das carteiras. Essas barreiras à entrada ajudam a explicar por que os spreads dos CLOs continuam oferecendo uma remuneração atrativa em relação a outros segmentos de renda fixa.
A dispersão está aumentando e a seleção de gestores importa mais do que nunca
À medida que as emissões aumentaram e as condições de mercado evoluíram, uma maior dispersão passou a ser observada entre os gestores de CLOs. Uma possível explicação é o aumento da participação de gestores de menor nível, classificados como tier 3, no volume total de emissões — cerca de 25% tanto no acumulado deste ano quanto no ano passado (Figura 3).
Em nossa experiência, compreender como um gestor avalia os riscos, constrói as carteiras e reage às mudanças nas condições de mercado está se tornando cada vez mais importante para determinar o desempenho de longo prazo. Os gestores de CLOs negociam empréstimos ativamente, fazendo rotações na exposição ao crédito e buscando otimizar a qualidade da carteira ao longo de toda a vida da operação. Sua habilidade, experiência e filosofia de investimento influenciam diretamente os resultados.
Figura 3: Emissões de CLOs por categoria de gestor

Por esse motivo, continuamos favorecendo gestores de maior qualidade, com processos comprovados de análise de crédito, recursos sólidos nessa área e capacidade demonstrada de atravessar diferentes ambientes de mercado. Damos grande importância não apenas à compreensão dos ativos que possuem atualmente, mas também à forma como provavelmente reagirão quando as condições se tornarem mais desafiadoras.
A inovação pode transformar o mercado ao longo do tempo
Olhando mais adiante, a inovação tem potencial para mudar a forma como os investidores acessam os ativos securitizados, por exemplo, por meio do amadurecimento da tokenização e das estruturas de propriedade digital. Atualmente, o ecossistema de securitização envolve diversos intermediários, incluindo gestores, estruturadores, dealers, agências de classificação de risco e prestadores de serviços jurídicos, entre outros. Com o tempo, a tecnologia poderá criar oportunidades para simplificar partes desse processo, aumentar ainda mais a transparência e, potencialmente, melhorar a liquidez.
Embora esses desenvolvimentos ainda estejam distantes de se tornarem predominantes, eles ressaltam um ponto importante: a securitização continua evoluindo. O mercado atual é significativamente diferente daquele que existia há uma década, e a inovação provavelmente continuará sendo uma característica dessa classe de ativos.
Mais oferta, mais oportunidades, mas também maior necessidade de seletividade
Em última análise, embora o aumento das emissões esteja criando um universo mais amplo de oportunidades em CMBS, CLOs, ABS e RMBS, ele também está aumentando a importância da seletividade. As diferenças na qualidade dos ativos subjacentes, nas estruturas das operações e na capacidade dos gestores de CLOs significam que os spreads, isoladamente, contam apenas parte da história.
Em nossa visão, o “prêmio de especialista” disponível nos mercados de securitizados continua sendo impulsionado pela necessidade de uma análise de crédito detalhada, uma due diligence rigorosa e uma compreensão aprofundada dos ativos subjacentes e, no caso dos CLOs, dos gestores. A capacidade de avaliar oportunidades entre diferentes regiões, setores e estruturas pode fornecer um contexto importante na análise de valor relativo e na construção de carteiras em um mercado cada vez mais diversificado. É isso que nossa plataforma global de securitizados busca facilitar.
Em um mercado sustentado por uma demanda resiliente, proteções estruturais e uma geração de renda atrativa, acreditamos que uma seleção disciplinada de ativos e uma análise criteriosa de crédito podem contribuir para melhores resultados para os investidores.
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