O Associate Portfolio Manager Suney Hindocha, da equipe de Global Sustainable Equities, explica por que a inteligência artificial não deve ser analisada apenas sob uma perspectiva simplificada de vencedores e perdedores. Ele apresenta uma estrutura baseada em quatro perspectivas para avaliar empresas ao longo da cadeia de valor da IA, mantendo duas questões centrais na construção de portfólios: a empresa contribui para tornar o mundo melhor e é capaz de gerar riqueza no longo prazo?
Todo ciclo tecnológico acaba produzindo seu próprio vocabulário de medo e ganância, e este não é uma exceção. Em 2026, os mercados de ações negociam cada vez mais sob uma dinâmica de momentum em torno de uma única pergunta: esta empresa é uma vencedora ou uma perdedora da IA? As avaliações oscilam de forma acentuada à medida que a narrativa reposiciona as empresas de um grupo para outro, às vezes com base em pouco mais do que o anúncio de um produto ou uma declaração feita em uma conferência.
Entendemos o motivo. A IA é a tecnologia de uso geral mais relevante desde a internet, e seus efeitos sobre as vantagens competitivas serão profundos. Mas acreditamos que essa abordagem binária é analiticamente simplista e cria justamente o tipo de distorção de preços que um processo disciplinado e orientado para o longo prazo pode explorar. Uma tecnologia que afeta praticamente tudo não divide o mundo em duas categorias bem definidas. Ela cria um espectro de exposição, e compreender onde cada empresa se encontra nesse espectro — e por quê — tornou-se uma das tarefas mais importantes na construção de um portfólio resiliente.
É por isso que a equipe de Global Sustainable Equities classifica as empresas a partir de quatro perspectivas distintas.
As quatro perspectivas
Figura 1: Nossa estrutura de quatro perspectivas para categorizar a cadeia de valor da IA

Os viabilizadores de IA (AI Enablers) fornecem a infraestrutura fundamental, os dados e as ferramentas necessários para desenvolver, treinar e implementar sistemas de inteligência artificial: semicondutores avançados, plataformas de nuvem e data centers, softwares especializados, além dos dados e das ferramentas de análise que alimentam os próprios modelos.
Essas empresas estão na origem da cadeia de valor da IA, e muitas se enquadram diretamente em nosso tema de Conhecimento e Tecnologia. Um aspecto fundamental para o nosso processo é que as melhores entre elas respondem de forma convincente às nossas duas perguntas: a disseminação da inteligência pela economia representa um importante benefício social — na descoberta científica, saúde, educação e produtividade — e os fundamentos econômicos desses viabilizadores, caracterizados por fortes barreiras competitivas baseadas em propriedade intelectual e pelo crescimento estrutural da demanda, estão entre os mais atrativos do mercado global de ações.
EXEMPLOS

Os gargalos físicos (Physical Bottlenecks) são as empresas que solucionam as limitações do mundo real que restringem o crescimento da IA — geração de energia e infraestrutura de redes elétricas, sistemas de refrigeração e gestão térmica, redes avançadas e interconexões.
É nesse ponto que a trajetória da IA e a da sustentabilidade se tornam, literalmente, parte da mesma história. O maior obstáculo individual para a expansão da IA é a energia — sua disponibilidade, seu custo e sua intensidade de carbono. Isso significa que as empresas que desenvolvem soluções para ampliar a capacidade das redes elétricas, promover a eletrificação e aumentar a eficiência energética estão, ao mesmo tempo, viabilizando o avanço da tecnologia e contribuindo para sua descarbonização.
Essas empresas podem estar presentes, por exemplo, em nossos temas de Energia Mais Limpa e Eficiência, e ilustram um argumento que defendemos há bastante tempo: a transição energética não é uma limitação ao progresso tecnológico, mas uma condição necessária para que ele aconteça.
EXEMPLOS

Os beneficiários da IA (AI Beneficiaries) integram a inteligência artificial a seus produtos, serviços e operações para aumentar a eficiência, melhorar a experiência dos clientes e impulsionar a inovação. Essas empresas se beneficiam da adoção da IA, em vez de viabilizá-la — como softwares de design que automatizam processos e realizam simulações, plataformas capazes de oferecer personalização em escala e empresas de serviços que reduzem custos e prazos operacionais.
É justamente nessa categoria, de forma deliberada, que se encontram muitas das empresas presentes em nosso portfólio. São companhias nas quais já tínhamos interesse em investir — com vantagens competitivas duradouras, retornos sólidos sobre o capital e claro alinhamento temático — e para as quais a IA funciona como um acelerador de um motor já existente, e não como o próprio motor.
Essa distinção é importante: a tese de investimento de uma empresa beneficiária não depende da manutenção da narrativa em torno da IA, mas pode ser fortalecida caso essa tendência continue avançando.
EXEMPLOS

As empresas resilientes à IA (AI Resilient) são aquelas cujos modelos de negócios estão relativamente protegidos das disrupções provocadas pela inteligência artificial — não dependem fortemente da tecnologia nem apresentam risco significativo de serem substituídas por ela em um horizonte previsível.
Suas vantagens competitivas estão no mundo físico e institucional: redes de infraestrutura construídas ao longo de décadas sob regimes regulatórios e processos de licenciamento difíceis de replicar; serviços locais essenciais cuja economia baseada na densidade das operações comporta apenas um ou dois operadores eficientes; e negócios fundamentados na presença física e na interação humana.
A IA poderá tornar essas empresas mais produtivas, mas não poderá torná-las desnecessárias. No contexto de um portfólio, esse grupo funciona como um elemento de estabilidade, proporcionando uma fonte de crescimento composto idiossincrático e pouco correlacionado, que não acompanha diretamente as altas e baixas da narrativa em torno da inteligência artificial.
EXEMPLOS

Duas ressalvas são importantes. Primeiro, as categorias não são mutuamente excludentes: muitas empresas em carteira podem se enquadrar legitimamente em mais de uma delas — uma companhia que viabiliza a IA também pode se beneficiar de suas próprias ferramentas, assim como uma empresa de infraestrutura resiliente pode, ao mesmo tempo, solucionar um gargalo físico. Consideramos essa sobreposição uma informação relevante, e não um inconveniente: empresas que apresentam características favoráveis sob diferentes perspectivas frequentemente estão entre as mais robustas.
Segundo, a classificação é dinâmica e passa por revisões contínuas à medida que a tecnologia evolui e o posicionamento de cada empresa se transforma. A atribuição de uma categoria é o início da análise, e não sua conclusão.
O que o framework revela
Mapear o universo de investimentos a partir dessas quatro perspectivas busca criar equilíbrio de forma deliberada, e não por acaso. Nenhuma categoria domina o portfólio e nenhuma versão específica sobre o futuro da inteligência artificial é necessária para sustentar a estratégia.
Essa abordagem responde ao que consideramos o principal risco do mercado atual: a concentração em uma única narrativa. Quando um único tema responde por uma parcela desproporcional dos retornos dos índices, os portfólios que simplesmente acompanham essa tendência acabam assumindo implicitamente uma aposta altamente correlacionada. Já aqueles que evitam completamente o tema fazem a aposta contrária.
Nossa abordagem é obter exposição à IA da forma que consideramos adequada: por meio de empresas que, individualmente, atendam aos nossos critérios de sustentabilidade e geração de riqueza, com diversificação ao longo da cadeia de valor e uma base relevante de companhias cujo crescimento composto não dependa da evolução da narrativa da IA.
Se a expansão da IA acelerar, as empresas viabilizadoras, solucionadoras de gargalos físicos e beneficiárias poderão participar desse crescimento. Se as expectativas não se concretizarem, o grupo de empresas resilientes e os negócios independentes das companhias beneficiárias poderão proporcionar maior estabilidade. Em nenhum dos cenários, portanto, o portfólio fica dependente de uma única narrativa.
Vantagens competitivas na era da IA: mais amplas do que parecem
Aplicar esse framework ao universo de investimentos também pode aprimorar a análise sobre o que constitui uma vantagem competitiva sustentável na era da IA. A resposta intuitiva — de que ativos físicos estão protegidos enquanto negócios digitais são vulneráveis — revela-se simplista demais.
As vantagens competitivas duradouras na era da IA podem assumir diferentes formas:
Figura 2: Quatro fontes de vantagem competitiva duradoura na era da IA

Source: Janus Henderson Investors, Global Sustainable Equity Team. For illustrative purposes only.
- Redes físicas e reguladas: Infraestruturas construídas ao longo de décadas sob regimes de licenciamento e estruturas de mercado locais — muitas vezes monopólios ou duopólios naturais — que nenhuma capacidade algorítmica consegue replicar. A IA torna esses ativos mais produtivos, mas não pode reconstruí-los.
- Efeitos de rede: Plataformas cujo valor aumenta à medida que cresce a participação — marketplaces, ecossistemas e redes de dois lados, nas quais cada novo usuário fortalece a vantagem competitiva. A IA pode melhorar a experiência dentro da rede, mas encontra dificuldades para construir uma rede concorrente do zero.
- Dados proprietários e padrões: Empresas cujos conjuntos de dados, classificações, pontuações e benchmarks estão incorporados aos fluxos de trabalho e às regulamentações de setores inteiros. Longe de serem substituídas pela IA, essas companhias possuem justamente a matéria-prima de que a tecnologia necessita — seus dados se tornam mais valiosos à medida que mais inteligência é aplicada a eles.
- Confiança, marca e relações humanas: Negócios baseados em presença física, serviços e confiança construída ao longo do tempo, nos quais o produto é, em última análise, uma experiência humana que a inteligência pode aprimorar, mas não substituir.
O elemento comum é a duração, que consideramos um componente essencial de uma definição abrangente de sustentabilidade. Em cada caso, a fonte da vantagem competitiva é algo que leva tempo para ser construído e também para se deteriorar. É justamente isso que nos permite avaliar esses negócios dentro dos horizontes de vários anos exigidos por nosso processo e manter um conjunto de empresas com crescimento composto genuinamente descorrelacionado e características próprias, em vez de uma única aposta concentrada expressa de diferentes maneiras.
A sustentabilidade é o fio condutor
Seria fácil interpretar tudo isso como uma análise de tecnologia revestida por uma perspectiva de sustentabilidade. Argumentamos que a relação de causalidade funciona no sentido contrário. Nossos temas de desenvolvimento sustentável foram o que nos levou, em primeiro lugar, a identificar essas oportunidades, e a IA ampliou a relevância de praticamente todos eles.
O tema de Conhecimento e Tecnologia engloba as empresas que viabilizam e democratizam o acesso à inteligência e à informação. Energia Limpa e Eficiência abrange aquelas que solucionam os gargalos necessários para garantir que a expansão da IA seja alimentada, refrigerada e conectada de maneira sustentável — possivelmente o maior programa de investimento em eletrificação e eficiência da história.
Nossos temas de Saúde, Água, Eficiência e Qualidade de Vida incluem empresas beneficiárias e companhias resilientes com capacidade de crescimento composto, cujos serviços são necessários independentemente do ciclo tecnológico e que estão se tornando mais produtivas com a IA.
Ao longo de todo esse processo, duas perguntas permanecem constantes. O mundo é um lugar melhor por causa desta empresa? A IA elevou a importância dessa questão — uma tecnologia tão poderosa gera sua própria pegada ambiental e riscos sociais, e buscamos responsabilizar as empresas expostas à IA por questões como origem da energia, intensidade no uso de recursos, implementação responsável e impacto sobre a força de trabalho, por meio de um engajamento ativo.
Esta empresa será capaz de gerar riqueza? A IA também aumentou a importância dessa pergunta — acelerando o crescimento composto das empresas bem posicionadas e encurtando o horizonte daquelas que não conseguem se adaptar. Em nossa visão, um processo que exige respostas afirmativas para ambas as questões está mais bem preparado para esse ambiente do que tanto um entusiasmo indiscriminado com a IA quanto uma rejeição automática à tecnologia.
Conclusão: a resiliência é uma característica do portfólio
O mercado quer transformar a IA em uma história simples de vencedores e perdedores. Nosso framework parte de uma realidade mais detalhada: uma tecnologia que afeta praticamente tudo exige uma abordagem abrangente de toda a cadeia de valor — viabilizando seu desenvolvimento, solucionando suas limitações físicas, beneficiando-se dela e crescendo independentemente dela —, enquanto cada posição, em qualquer uma dessas categorias, continua tendo que cumprir dois requisitos: tornar o mundo melhor e gerar riqueza ao mesmo tempo.
Isso não significa fazer hedge. Trata-se de participar plenamente do progresso sem apostar o resultado em uma única versão do futuro. Em um mercado de momentum que tende a enxergar a realidade em preto e branco, acreditamos que esse equilíbrio — e a disciplina por trás dele — constitui, por si só, uma fonte de vantagem duradoura.
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Definições e Notas de Rodapé
Active engagement: Ongoing dialogue between investors and company management aimed at improving corporate behaviour, disclosure and long-term performance.
Environmental, Social and Governance (ESG) factors: Relate to the quality and functioning of the natural environment, the rights, well-being and interests of people and communities, and the governance of companies and their stakeholders.
General-purpose technology: A technology – such as electricity, the internet or AI – whose applications spread across virtually all sectors of the economy, transforming productivity and competitive dynamics broadly rather than within a single industry.
Idiosyncratic return: Return attributable to company-specific factors – competitive position, execution, capital allocation – rather than to broad market or thematic exposure.
Moat: A durable competitive advantage that protects a company’s returns on capital from competition over time.
Network effect: A dynamic in which a product or platform becomes more valuable as more people use it, creating a self-reinforcing competitive advantage.
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