Os investidores institucionais que atuam como limited partners (LPs) mantêm seus compromissos com os mercados privados, mas estão mudando a forma de construir suas carteiras, segundo uma nova pesquisa da Goldman Sachs Alternatives. A 2026 Global Alternatives Survey: The LP View, intitulada “Repensar, sem sair”, reúne respostas de 225 LPs e outros investidores institucionais consultados entre junho e agosto de 2026. Os participantes recorrem cada vez mais ao mercado secundário para administrar a liquidez, concentram capital em gestores com os quais já trabalham e estabelecem exigências maiores para incorporar novos gestores.
Mais de um terço dos LPs, 37%, pretende investir mais capital do que no ano passado, e quase metade, 47%, planeja manter o ritmo. Apenas 11% esperam investir menos. O limite está na liquidez: a falta de distribuições é o fator mais citado entre os que condicionam os planos de alocação, mencionado por 35% dos LPs.
“Nossos clientes continuam agindo com disciplina nesse ambiente de risco dinâmico”, afirmou Marc Nachmann, diretor global de Asset & Wealth Management da Goldman Sachs. “Os LPs não estão saindo, mas repensando onde alocar capital, com quem e em quais condições. Sua confiança nos mercados privados continua intacta, mas eles adotam uma abordagem mais seletiva e se concentram nos gestores capazes de criar valor para alcançar o retorno desejado.”
Geopolítica lidera a lista de riscos pelo terceiro ano consecutivo
Pelo terceiro ano consecutivo, os LPs colocam as tensões geopolíticas como o maior risco para os investimentos. A geopolítica aparece entre os cinco principais riscos para 82% dos LPs e é, de longe, o fator mais citado, por 36%, como o maior risco individual. A inflação ocupa o segundo lugar entre os cinco principais riscos, com 67%, seguida pela desaceleração econômica ou recessão nos Estados Unidos, com 63%.
Os investidores da Europa, Oriente Médio e África (EMEA) são os mais preocupados com a geopolítica: 44% a colocam em primeiro lugar, ante 31% na Ásia-Pacífico (APAC) e 30% nas Américas. A inteligência artificial começa a ser percebida como um risco: 28% dos LPs incluem entre seus cinco principais riscos o deslocamento de trabalhadores provocado pela tecnologia, e a maioria dos que escolheram a opção “outros” citou preocupações ligadas à IA.
“As tensões geopolíticas e os juros elevados desaceleraram as saídas tradicionais, mas a corrida para fornecer energia à infraestrutura de IA está criando a janela de alocação mais decisiva da década. Essas tensões preocupam especialmente os LPs ao planejar a alocação de capital e a seleção de gestores”, comentou Jeff Fine, codiretor global de Captação de Capital Alternativo da Goldman Sachs Alternatives.
Infraestrutura e secundários lideram um panorama resiliente
A maioria dos LPs considera que as oportunidades estão iguais ou melhores do que há um ano. Em infraestrutura, 43% percebem uma perspectiva mais favorável e 7%, menos favorável. Nos secundários, as avaliações mais favoráveis já superam as menos favoráveis em uma proporção de quase três para um: 44% contra 15%. Nos coinvestimentos, apenas 6% veem uma perspectiva mais fraca. No setor imobiliário, 37% apontam uma perspectiva melhor, e 16%, menos favorável.
Em private equity, prevalece a estabilidade: 56% não veem mudanças em suas perspectivas, e as avaliações positivas e negativas se distribuem de forma quase equilibrada, com 24% e 20%, respectivamente. O crédito privado registra o maior aumento anual da avaliação negativa, que chega a 35%, embora 65% continuem vendo oportunidades iguais ou melhores do que antes. Nos hedge funds, o interesse está aumentando: 34% têm uma perspectiva mais favorável e menos de um em cada dez, menos favorável.
Intenção estável e espaço para crescer, mas distribuições lentas impõem limites
Nos diferentes mercados privados, ainda há mais LPs com alocações abaixo das metas do que acima delas. No crédito privado, a parcela de investidores abaixo da alocação desejada subiu cinco pontos percentuais em relação ao ano anterior, enquanto a parcela acima da meta caiu de 12% para 4%. O setor imobiliário está mais avançado no ciclo de alocação e reúne a maior proporção de LPs acima da meta, 18%, embora esse percentual tenha recuado dos 25% registrados há um ano.
No conjunto, 84% dos LPs pretendem investir o mesmo volume de capital do ano passado ou mais, em linha com os 83% de 2025. Dentro desse grupo, é menor a parcela dos que esperam aumentar o volume: 37%, ante 43%. Também caiu a parcela dos que pretendem reduzi-lo, de 14% para 11%.
A falta de distribuições é o fator de maior destaque entre os que afetam os planos de alocação, com 35%, acima dos 31% de 2025, à frente das mudanças nas metas de alocação, citadas por 29%. Apenas 2% mencionam preocupações regulatórias e tributárias.
“A liquidez se tornou uma vantagem competitiva à medida que os prazos de saída se alongaram”, afirmou Stephanie Rader, codiretora global de Captação de Capital Alternativo da Goldman Sachs Alternatives. “Os LPs usam cada vez mais os secundários como ferramenta central de alocação de carteiras e de gestão dos fluxos de caixa, para construir carteiras mais resilientes.”
Cada classe de ativos enfrenta um ponto de pressão diferente
Ao serem solicitados a indicar o maior desafio individual em cada parte da carteira, os LPs apontaram problemas distintos. A liquidez lidera em private equity, com 28%; o desempenho, no setor imobiliário, com 32%; o acesso, nos coinvestimentos, com 21%; e a seleção de gestores, no crédito privado, com 20%, e em infraestrutura, com 15%. As avaliações dos ativos ocupam o segundo lugar em três das cinco classes, sendo o mais próximo de uma preocupação compartilhada.
A análise das perguntas abertas revelou que está ocorrendo uma reavaliação dentro de cada classe de ativos. Em private equity, alguns LPs consolidam sua base de gestores, os general partners (GPs), enquanto outros se voltam a gestores emergentes ou ao segmento inferior do mercado de médias empresas, o lower middle market. No crédito privado, muitos vão além dos empréstimos diretos e se abrem a secundários, novas geografias e estruturas evergreen. No setor imobiliário, vários assumem mais risco com estratégias de agregação de valor, ou value-add, e oportunistas, enquanto a dívida imobiliária ganha alocações como alternativa ao crédito privado.
Regionalmente, alguns LPs estão reduzindo sua exposição aos Estados Unidos para abrir espaço à Europa, a região mais citada pelos investidores que reforçam sua abordagem internacional.
Novos gestores enfrentam exigências elevadas, e LPs veem a IA transformar o setor
Os gestores já estabelecidos mantêm sua vantagem: a maioria dos LPs indica que uma parcela significativa dos compromissos assumidos nos últimos 12 meses correspondeu a renovações com GPs com os quais já trabalhavam. Quando incorporam novos gestores, o que mais conta é o histórico de resultados, citado por 78%. Além disso, os investidores buscam algo que falta em suas carteiras: acesso a novas estratégias ou classes de ativos, com 50%; experiência especializada, com 39%; e diversificação entre setores ou regiões, com 35%.
Os LPs apontam a IA como o maior motor de mudança nos ativos alternativos nos próximos cinco anos, com 34%, muito à frente da consolidação do setor e da disrupção econômica, com 13% cada. A questão deixa de ser apenas obter exposição à IA e passa a incluir identificar os gestores capazes de utilizá-la para melhorar suas decisões de investimento e criar valor nas empresas da carteira. Como disse um dos entrevistados: “Como acontece com qualquer grande mudança tecnológica, provavelmente se está superestimando o curto prazo e subestimando os efeitos de segunda e terceira ordem no longo prazo”.
“Os novos gestores precisam conquistar suas alocações”, afirmou Mike Brandmeyer, diretor global e diretor de investimentos (CIO) do External Investing Group (XIG) da Goldman Sachs Alternatives. “O histórico de resultados é fundamental, mas os investidores agora querem ver disciplina na análise dos investimentos, uma vantagem clara sobre a concorrência e a capacidade do gestor de se adaptar às mudanças estruturais, especialmente às impulsionadas pela IA.”
