A fórmula para preservar uma grande fortuna tem sido quase infalível e atravessou décadas de geração em geração: imóveis, empresas familiares, ações, títulos e liquidez. A diversificação tem sido importante, mas o patrimônio tende a se manter próximo daquilo que a família conhece e controla diretamente. No entanto, a geração de “novos ricos” está modificando essa equação.
Os herdeiros Millennials e da Geração Z, assim como os novos empresários que construíram suas fortunas em torno de tecnologia, empreendedorismo e ativos financeiros, estão incorporando uma combinação muito mais ampla de investimentos: private equity, private credit, venture capital, ativos digitais, inteligência artificial, infraestrutura, ouro e estratégias temáticas.
Esse fenômeno já começa a modificar a indústria de wealth management. A mudança ocorre, além disso, em um momento excepcional: o mundo está entrando em uma transferência patrimonial de dimensões históricas. O Capgemini World Wealth Report 2025 estima que US$ 83,5 trilhões em patrimônio serão transferidos para as novas gerações até 2048. O estudo analisou as opiniões de 6.472 investidores de alto patrimônio, dos quais 5.473 pertencem às gerações denominadas next-gen.
A escala do movimento é tão grande que já não se trata apenas de quem herdará o dinheiro. A pergunta que a indústria financeira começa a fazer é o que essa nova geração fará com ele. Há uma série de novas tendências que, caso se consolidem, poderão chegar a dominar as próximas décadas. Aqui estão algumas delas.
A primeira mudança: menos dependência de ações e títulos
Um dos estudos mais reveladores para entender a diferença geracional é o do Bank of America Private Bank. Seu estudo de 2026 constatou que 67% dos investidores jovens — Geração Z e Millennials entre 21 e 45 anos — consideram que as ações e os títulos tradicionais já não são suficientes para obter retornos superiores à média. A diferença em relação às gerações mais velhas é considerável; os investidores jovens destinam cerca de 15% de seus portfólios a investimentos alternativos e 13% a criptomoedas, enquanto as gerações mais velhas mantêm uma proporção significativamente maior em ações tradicionais.
Além disso, 88% dos jovens ricos afirmam que provavelmente aumentarão sua exposição a ativos alternativos durante os próximos anos, ante apenas 15% entre os boomers e gerações anteriores. Mas a tendência não surgiu de repente. No estudo anterior do BofA, referente a 2024, os investidores jovens destinavam 17% de suas carteiras a alternativos, ante 5% entre os maiores de 44 anos. Em ações e títulos, a relação era praticamente inversa: 47% para os jovens, ante 74% para os mais velhos.
A leitura para os gestores é clara: a diversificação deixou de significar apenas combinar ações, títulos e dinheiro. Para o novo investidor de alto patrimônio, diversificar significa também ter exposição a empresas privadas, infraestrutura, ativos digitais, ativos reais e tendências tecnológicas.
O criptoativo deixa de ser uma curiosidade
Entre os ricos das novas gerações aparece uma das diferenças mais evidentes em relação a seus antecessores. Em 2026, 58% dos investidores jovens entrevistados pelo BofA já possuem criptomoedas, ante 49% em 2024. Além disso, 92% dizem possuí-las ou ter interesse em fazê-lo. Mais importante ainda: 29% identificam as criptomoedas como a principal oportunidade de criação de riqueza entre os jovens investidores, isso não significa que o novo rico tenha abandonado a prudência.
De fato, o comportamento dos grandes patrimônios mostra algo mais interessante: os ativos digitais estão deixando de ser uma aposta marginal para se tornarem uma peça potencial de uma arquitetura patrimonial muito mais ampla. O próprio universo dos family offices confirma essa transição. O UBS Global Family Office Report 2026, baseado em 307 family offices de mais de 30 mercados e com um patrimônio familiar médio de US$ 2,7 bilhões, constatou que 44% dos family offices que têm exposição a criptomoedas já consideram esses ativos parte de sua alocação estratégica.
A proporção investida continua sendo geralmente pequena, em torno de 1%, mas a mudança conceitual é importante: o criptoativo já não é necessariamente visto como uma exceção, mas como uma potencial classe de ativo dentro da arquitetura patrimonial.
Do imóvel familiar ao portfólio global
Há outra diferença particularmente importante entre as novas gerações de pessoas com alto patrimônio; o antigo modelo de riqueza latino-americana esteve estreitamente ligado a empresas familiares, imóveis e ativos domésticos. No entanto, o novo investidor tem uma visão muito mais global. Uma pesquisa publicada em junho de 2026 pelo CFA Institute sobre family offices latino-americanos conclui que esses veículos estão evoluindo de estruturas focadas primordialmente na preservação patrimonial para plataformas de estratégia patrimonial, impulsionadas em parte por gerações jovens que buscam diversificação, mercados privados e melhores retornos ajustados ao risco fora dos negócios tradicionais da família.
A mudança é particularmente interessante para México, Brasil, Argentina, Colômbia e Chile; a pesquisa aponta que, na América Latina, boa parte das grandes fortunas ainda está na primeira ou segunda geração. Isso significa que o processo de profissionalização patrimonial está longe de terminar. Mas a nova geração está introduzindo outra variável: exposição global.
Viagens, educação internacional, experiência profissional em outros mercados e contato com novas tecnologias estão ampliando o universo de investimentos que os herdeiros consideram possível; no México, por exemplo, isso pode se traduzir em uma combinação de negócio familiar local, com portfólio financeiro internacional, investimentos alternativos, com estruturas offshore e participação direta em empresas globais; não necessariamente se abandona o patrimônio familiar. Acrescenta-se uma segunda camada.
E no tema do legado está uma das nuances mais importantes da história. Seria um erro jornalístico apresentar as novas gerações como investidores que querem liquidar o patrimônio de seus pais para comprar criptomoedas ou ações de tecnologia, pelo contrário, as evidências apontam para algo bastante mais sofisticado.
A pesquisa do CFA Institute sobre a América Latina aponta precisamente que a mudança entre os herdeiros jovens não é simplesmente uma preferência por monetizar o patrimônio em vez de preservar o legado. Na verdade, existe uma busca por mais opções e maior diversificação. Em outras palavras: o velho rico pergunta “como preservo o que construí?”, enquanto o novo rico pergunta “como preservo isso e, ao mesmo tempo, posso utilizá-lo para construir algo diferente?”
A IA se torna o novo território de competição
A inteligência artificial talvez seja o melhor exemplo de como as novas gerações estão pensando em termos de temáticas estruturais, e não apenas de instrumentos financeiros. O UBS Global Family Office Report 2026 mostra que os family offices estão aumentando seu interesse em inteligência artificial, infraestrutura e energia, e recursos. Na América Latina, 61% dos family offices planejam modificar sua alocação estratégica de ativos durante 2026, enquanto inteligência artificial, infraestrutura e energia/recursos aparecem como as três principais tendências de investimento.
O dado é relevante porque demonstra que a transformação não se limita aos investidores jovens. A influência da nova geração começa a se infiltrar nas próprias estruturas institucionais das famílias. O family office se torna, assim, um laboratório onde convivem duas filosofias: a preservação do capital; e a busca pelas indústrias que vão criar o próximo ciclo de riqueza. Mas, paradoxalmente, enquanto os jovens buscam maior risco e novas classes de ativos, os investidores tradicionais conservam uma vantagem que as novas gerações ainda precisam desenvolver: experiência acumulada.
O patrimônio familiar costuma ser construído em torno de décadas de conhecimento empresarial, relações, ativos produtivos e capacidade para sobreviver a diferentes ciclos econômicos. Por isso, o modelo que parece emergir não é uma substituição completa de uma geração por outra, trata-se, na realidade, de uma hibridização. O velho rico contribui com: preservação, disciplina, experiência e governança patrimonial. O novo rico, por sua vez, acrescenta: tecnologia, globalização, alternativos, velocidade e novas fontes de informação. O resultado pode ser um portfólio muito mais sofisticado.
E aqui aparece provavelmente o maior risco para a indústria de wealth management; não é que as novas gerações tenham menos interesse pelo patrimônio, é que querem participar mais cedo das decisões. O UBS Global Family Office Report 2026 revela um paradoxo: embora as famílias reconheçam a importância de preparar os herdeiros, apenas 27% contam com um processo estruturado para educar e preparar a próxima geração para suas futuras responsabilidades. Além disso, apenas 35% têm um plano formal de sucessão para o próprio family office.
A consequência pode ser uma fragmentação patrimonial; um herdeiro pode conservar a empresa familiar, mas levar seus investimentos financeiros para outro banco. Também pode utilizar um family office para uma parte de seu patrimônio, uma plataforma digital para outra, um gestor especializado em private equity e uma instituição offshore para seus ativos internacionais. O cliente que antes podia concentrar praticamente toda a sua relação patrimonial em uma instituição agora pode distribuí-la entre múltiplos provedores e esse é um dos maiores desafios para o private banking tradicional.
O novo mapa da riqueza
A transformação geracional ocorre, além disso, sobre uma base patrimonial cada vez maior. O UBS Global Wealth Report 2026 estima que a riqueza pessoal global aumentou 10,8% durante 2025, o maior crescimento desde 2017. Além disso, o número de milionários em dólares aumentou em quase um milhão de pessoas, equivalente a mais de 2.600 novos milionários por dia. Portanto, o mercado potencial para a nova geração de gestores não é composto apenas pelos herdeiros das grandes fortunas, também está crescendo o número de pessoas que construíram seu patrimônio fora dos setores tradicionais.
Tecnologia, empreendedorismo, private equity, startups, fintech, inteligência artificial e mercados de capitais estão criando novas fortunas que não necessariamente compartilham a cultura financeira das gerações anteriores. É aí que aparece o verdadeiro “novo rico” e não é apenas o filho que herda. É também o empresário de tecnologia, o fundador de uma startup, o executivo que recebeu ações de sua empresa, o investidor que acumulou patrimônio financeiro ou o empreendedor que vendeu sua empresa.
No fim, a diferença entre o velho rico e o novo rico pode ser menor do que parece porque ambos querem preservar e aumentar seu patrimônio, ambos buscam diversificação, ambos querem proteger suas famílias e ambos precisam de estruturas fiscais, sucessórias e patrimoniais eficientes.
A diferença está no que consideram uma boa carteira e no que entendem por preservar riqueza; para a geração anterior, preservar significava principalmente evitar perder, enquanto, para a geração seguinte, preservar pode significar manter o poder de compra, diversificar globalmente e continuar participando das indústrias que estão criando riqueza.
Por isso, mais do que uma guerra entre “velho rico” e “novo rico”, o que está ocorrendo é uma transferência de poder dentro da arquitetura patrimonial. E essa transferência está apenas começando. A próxima grande batalha da indústria de wealth management não será apenas por administrar mais dinheiro. Será por se tornar o assessor que acompanhe uma nova geração que quer administrar seu patrimônio de uma maneira radicalmente diferente.



