No mundo financeiro existe um novo poder, e não é pouca coisa: hoje, os family offices se tornaram um dos participantes mais sofisticados do ecossistema financeiro global.
“Os family offices estão deixando de ser estruturas administrativas para se tornarem organizações de investimento sofisticadas”, aponta a análise Global Family Office Report 2025, do UBS, um dos estudos mais abrangentes sobre esse segmento.
Criados originalmente para preservar e administrar o patrimônio de uma família empresária, uma nova geração de family offices evoluiu para verdadeiras plataformas de investimento. Contam com equipes profissionais, estratégias globais de alocação de ativos e uma participação crescente em mercados que tradicionalmente eram dominados por fundos institucionais.
O fenômeno responde a uma transformação profunda na maneira como as grandes fortunas administram sua riqueza. Já não se trata apenas de conservar ativos para as próximas gerações, mas de construir portfólios diversificados capazes de competir com fundos de pensão, fundos soberanos e grandes gestores internacionais.
Um mercado que cresceu em silêncio
Determinar o tamanho exato do universo de family offices é complexo devido à sua natureza privada, mas diferentes estimativas coincidem que o número dessas estruturas aumentou significativamente nos últimos anos.
De acordo com dados compilados pela Campden Wealth e pelo UBS, existem cerca de 8 mil family offices no mundo, embora algumas estimativas privadas elevem esse número para mais de 10 mil.
O crescimento está relacionado à expansão da riqueza global. Segundo o World Wealth Report, da Capgemini, o número de indivíduos de alto patrimônio (HNWI, na sigla em inglês) continua aumentando, impulsionado principalmente pela criação de riqueza em setores como tecnologia, mercados financeiros, energia e empreendedorismo.
Enquanto isso, o relatório Global Wealth Report, do Boston Consulting Group (BCG), estima que a riqueza financeira privada mundial supera US$ 275 trilhões, um universo no qual os family offices desempenham um papel cada vez mais relevante como administradores de capital.
Embora não exista um número consolidado sobre os ativos sob gestão de todos os family offices, especialistas do setor estimam que eles administrem vários trilhões de dólares globalmente.
Os Family Offices criam seu próprio fundo de investimento
A principal diferença entre um family office tradicional e a nova geração está em seu modelo operacional. Os primeiros estavam focados principalmente em questões administrativas: pagamento de impostos, administração imobiliária, sucessão patrimonial e coordenação com bancos privados. Os atuais funcionam cada vez mais como uma gestora institucional.
Muitos contam com diretores de investimentos (Chief Investment Officers), equipes de análise, especialistas em private equity, especialistas setoriais e estruturas internacionais de investimento. O objetivo também mudou: passar de uma estratégia centrada na preservação da riqueza para uma orientada à geração de crescimento patrimonial de longo prazo.
Segundo o UBS, uma característica comum entre os grandes family offices é o horizonte temporal: diferentemente de muitos investidores institucionais sujeitos a ciclos trimestrais, as famílias podem investir com uma visão de décadas.
Nesse contexto, uma das maiores mudanças na alocação de ativos dos family offices é a crescente exposição a investimentos alternativos. O mercado público de ações e títulos deixou de ser o único destino do capital familiar.
Hoje, as grandes fortunas familiares buscam oportunidades em áreas de investimento como private equity, venture capital, infraestrutura, imóveis, crédito privado, energia, inteligência artificial ou ativos ligados à transição energética, entre outros.
O UBS Global Family Office Report 2025 mostra que os mercados privados mantêm uma posição estratégica nas carteiras familiares, particularmente porque oferecem acesso a empresas não listadas e potencial de retornos superiores ao mercado público.
Essa tendência coincide com uma transformação mais ampla do sistema financeiro: o crescimento dos ativos alternativos.
Segundo a Preqin, provedora especializada em dados de mercados privados, os ativos alternativos globais caminham para atingir um tamanho próximo de US$ 30 trilhões nos próximos anos, impulsionados pela demanda de investidores institucionais e patrimônios privados.
Tecnologia e inovação, a aposta da nova geração de Family Offices
Outra mudança relevante é o perfil das novas fortunas. Os empresários que construíram patrimônio em setores como tecnologia, inteligência artificial, fintech e comércio eletrônico estão criando family offices com uma mentalidade diferente da das gerações anteriores.
Em vez de se limitarem a proteger empresas familiares tradicionais, muitas dessas estruturas atuam como investidores estratégicos em novos setores. O investimento direto em startups tornou-se uma prática habitual, e alguns family offices competem até mesmo com fundos de venture capital ao buscar participações iniciais em empresas de tecnologia.
Um exemplo é o ecossistema criado em torno de empresários de tecnologia como Bill Gates, Jeff Bezos ou Mark Zuckerberg, cujas estruturas privadas de investimento têm capacidade para participar de múltiplos setores. A lógica é clara: as famílias que construíram sua riqueza em uma indústria agora buscam participar das próximas ondas de crescimento.
Além dos mercados financeiros, uma das maiores preocupações dos family offices é a transferência patrimonial entre gerações. Segundo estudos da Deloitte e da Campden Wealth, uma parte importante das famílias empresárias enfrenta dificuldades para manter o patrimônio após a segunda ou terceira geração.
Por isso, os novos family offices estão incorporando áreas especializadas de governança familiar, como educação financeira para herdeiros, filantropia estratégica, investimento responsável e planejamento sucessório.
A prioridade deixou de ser apenas quanto dinheiro uma família possui, mas como consegue preservá-lo e multiplicá-lo ao longo de décadas.
Embora Estados Unidos, Europa e Ásia concentrem alguns dos maiores family offices do mundo, a América Latina começa a desenvolver um ecossistema mais sofisticado. México, Brasil, Chile, Colômbia e Argentina concentram algumas das maiores fortunas privadas da região, e cada vez mais famílias estão profissionalizando a administração de seus ativos.
A tendência regional aponta para uma maior institucionalização: criação de escritórios próprios, contratação de equipes profissionais e maior exposição internacional.
Para os gestores de patrimônio, isso representa uma oportunidade crescente. A concorrência já não está apenas na administração de investimentos, mas na oferta de soluções integrais para famílias que buscam preservar a riqueza ao longo de gerações.
Os family offices representam uma transformação silenciosa do sistema financeiro global. Não têm a visibilidade de um banco de investimento, nem a exposição pública de um fundo negociado em bolsa, mas administram uma quantidade significativa de capital e tomam decisões que podem influenciar empresas, setores inteiros e até mesmo regiões.
Seu poder está justamente em sua independência: podem investir com horizontes longos, assumir riscos estratégicos e participar de oportunidades que outros investidores não conseguem capturar.
Em um mundo no qual o capital busca novas fontes de crescimento, os family offices deixaram de ser simples administradores de patrimônio familiar. Agora são, em muitos casos, os novos fundos soberanos privados do capitalismo global.



