México é uma das estrelas dos mercados financeiros internacionais: sua proximidade com o maior centro financeiro do mundo, Wall Street, assim como sua condição de mercado emergente, o transformaram em um ímã para os capitais. No entanto, a tendência de crescimento de sua economia gera alertas há algum tempo. Parece que existem dois países em um só: o dos investimentos e o da economia real.
A Inversão de Carteira (IC) atingiu no ano passado um nível histórico, o peso é uma das moedas mais fortes e sólidas do mundo, beneficiado pelo carry trade. Tudo o que está relacionado aos investimentos financeiros no país aponta para um momento histórico, mas há um problema estrutural que preocupa profundamente: a economia não cresce, ou cresce a taxas insuficientes.
Esse grande contraste preocupa analistas e investidores, sobretudo porque se trata de um cenário que não é novo, e porque os números disponíveis não mostram uma mudança radical na tendência de crescimento econômico. O pior é que, ao que tudo indica, trata-se de um problema estrutural, segundo alguns dos analistas que conversaram com a Funds Society.
Produtividade, um dos alertas
«É difícil apontar uma causa concreta para o fato de nossa economia não crescer. Definitivamente não é algo apenas deste sexênio ou do partido governante da vez, é claramente um tema estrutural. Do meu ponto de vista, isso tem muito a ver com questões de produtividade. Os fatores de crescimento estão aí, quase todos: há consumo indo bem, há investimento com seus ciclos», indicou Luis Gonzali, co-diretor de Investimentos da Franklin Templeton México. «Quando se retiram todos esses fatores, o que sobra é a produtividade, e esse indicador tem mostrado uma queda constante, ao contrário do que acontece em outras economias do mundo», acrescentou.
«Esse fator residual que os economistas chamam de produtividade no México tem caído constantemente e, por sua própria condição de residual, é muito complicado apontar uma causa concreta para esse deterioro. Mas, se falarmos especificamente dos dois anos recentes, claramente temos o tema do investimento como um determinante para o baixo crescimento. Os investimentos praticamente ficaram em zero, espera-se um repique neste ano e isso impulsionará o PIB a níveis máximos de 1,5%, o que pareceria um aumento muito favorável considerando os 0,3% que a economia mexicana teria crescido em 2025, mas que está muito abaixo de sua taxa máxima potencial, de 2,5%, e muito, muito distante do que é necessário para dar o grande salto econômico, entre 5% e 7%», explicou o profissional em entrevista.
Um investimento dourado
Para Gonzali, não há dúvida de que o México é uma das principais estrelas dos investimentos no mundo. Os números existentes a esse respeito também não deixam margem para dúvidas. Somente a Inversão de Carteira, ao final do primeiro trimestre do ano passado, ficou em 496,09 bilhões de dólares, praticamente dez vezes mais em relação aos 49 bilhões de dólares registrados cinco anos antes, no mesmo período de 2020.
A atratividade das taxas de juros, que após a pandemia atingiram um máximo nominal de 11% no mercado financeiro mexicano, tem sido um dos grandes ímãs, gerando um fenômeno conhecido como carry trade — investimentos que chegam de outras partes do mundo, inclusive de um mercado que até então era quase desconhecido para o México: o Japão — com o objetivo de aproveitar o benefício de uma taxa de juros mais alta no México.
O volume da Inversão de Carteira explica em grande medida outro fenômeno, o do «superpeso», que em 2025 registrou uma valorização de aproximadamente 15%, a maior desde que está em vigor o regime de livre flutuação da moeda, naquele traumático 21 de dezembro de 1994.
Inclusive a Inversão Estrangeira Direta (IED), que obviamente não reflete o apelo do investimento financeiro no país, apresenta números históricos: no ano passado, o dado final ficou em torno de 61 bilhões de dólares, embora mais de 50% desse montante tenham sido, na realidade, reinvestimentos, ou seja, investimentos que já existiam previamente.
Tanto o peso quanto o mercado de capitais, e até mesmo o desempenho das taxas de juros, refletem um país muito atraente para os investidores, e os dados de investimento assim o confirmam. Não é a primeira vez que o México se consolida como um ímã, mas definitivamente o momento atual é um dos mais relevantes em décadas.
Investimento, uma causa determinante
Para Gabriela Siller, diretora de análise do Banco Base, a causa de a economia mexicana não crescer como deveria está relacionada à «armadilha da incerteza», que a levou a um círculo vicioso do qual não conseguiu sair há décadas.
«A incerteza reduz o investimento fixo e a contratação de pessoal no emprego formal. Sem emprego formal e sem investimento fixo, a produtividade e o crescimento de longo prazo ficam limitados. Por exemplo, em 2025, até o mês de outubro, vemos uma queda de 7% no investimento fixo do país. Com esse número, no longo prazo o México não conseguirá crescer nem sequer a 2%, o crescimento potencial cai para 1,4%, e neste ano consideramos que nem mesmo essa taxa será alcançada. O investimento fixo também carrega certa inércia. Ninguém quer investir no setor privado e, no setor público, seria necessário destravar o investimento com um maior gasto público em investimento físico, mas em 2025 esse indicador caiu 29%, sua maior queda desde 1995. Assim é muito difícil, apesar de que neste ano se planeje aumentar o gasto público em 12%», disse a economista.
«Com esse panorama de investimento, se tudo correr bem, nos próximos anos cresceremos em torno de 1,4%, abaixo do potencial histórico de 2,5%», explicou.
Nesse contexto, embora a fortaleza financeira seja um fato, Siller alerta para o caráter volátil desses capitais, uma história que no país latino-americano já se repetiu inúmeras vezes.
«Vemos uma fortaleza incomum do peso, e a causa direta é o carry trade, não há dúvida disso. São capitais de curto prazo. Aos investidores não interessa o PIB do país, interessa o rendimento, uma boa taxa e que não deixem de pagar, e enquanto isso for atraente, a tendência se manterá. Por enquanto, os capitais minimizam fatores como o risco relacionado ao T-MEC ou à reforma judicial», ressaltou a executiva do Banco Base.
Mas, em termos de crescimento, Gabriela Siller é pessimista. Ela não espera que o país cresça de forma significativa por muitos anos e considera que esses investimentos financeiros, originados pelo carry trade, podem inclusive representar um fator de alto risco em algum momento, caso as leituras de risco para o país sejam alteradas.
Reformas para o crescimento, não há outra opção
«Estamos às portas de mais um sexênio perdido em termos de crescimento econômico no México», disse à Funds Society Julio Ruiz, economista-chefe do Citi México.
De acordo com os números do analista, a taxa média de crescimento do país norte-americano na primeira metade deste sexênio seria de cerca de 0,5%, muito inferior à taxa potencial da economia mexicana, situada entre 2% e 2,5%. Além disso, a taxa média na segunda parte precisaria registrar um salto mais do que espetacular para que se possa falar de um sexênio diferente, mas ninguém — nem mesmo as expectativas oficiais — espera algo assim.
Para Ruiz, a chave para sair da «armadilha do crescimento» registrada pela economia mexicana é uma só: «Está claro que se trata de um problema estrutural, a economia mexicana deverá ligar, com quase absoluta certeza, mais um sexênio de crescimento muito inferior ao seu potencial, entre 2% e 2,5%, e muito abaixo do que precisa para dar o grande salto econômico, que, além disso, teria de ser mantido por décadas. Portanto, só resta fazer grandes reformas estruturais para alcançar esse impulso econômico. Do contrário, o cenário se mostra muito complicado», adverte.
O 5%: apenas discurso político
Para os entrevistados, falar de taxas de crescimento do PIB de 5% ou até maiores é apenas um discurso distante da realidade.
«No sexênio anterior, quando nos prometeram taxas de PIB de 5% e até 7%, isso era apenas um discurso político. Nem sequer era crível ou sustentado pelos números oficiais; nunca, nos projetos de orçamento elaborados pelas autoridades fazendárias da época, vimos uma proposta nesse sentido. Nós apenas ouvimos isso nas declarações presidenciais. Foi um discurso absolutamente político, sem qualquer relação com a realidade», afirma Luis Gonzali.
Dessa forma, embora as causas do baixo crescimento do México possam ser variadas, de acordo com o especialista consultado, há um consenso contundente de que o país enfrenta um problema de caráter estrutural, o que exige ajustes profundos, que inclusive podem levar anos para refletir os resultados esperados. Enquanto isso, tudo indica que esta será mais uma década de baixo crescimento econômico no gigante global dos investimentos.



