O mercado de capitais brasileiro avança nos últimos anos na criação de novas estruturas de crédito, amplia o acesso de pequenas e médias empresas a instrumentos antes restritos a grandes companhias e flexibiliza regras para novos emissores. Agora, porém, executivos do setor avaliam que o próximo ciclo de desenvolvimento depende menos da originação de operações e mais da capacidade de fazer esses ativos circularem.
As avaliações são feitas durante painel do Laqus Capital Forum, realizado nesta terça-feira (26), sobre inovação, regulação e desenvolvimento do mercado de capitais. Representantes de Itaú, Daycoval e Laqus, além do ex-presidente da CVM João Pedro Nascimento, apontam o mercado secundário como o principal gargalo para que estruturas como crowdfunding, tokenização e emissões simplificadas ganhem escala no país.
“A primeira pessoa que desenvolver esse mercado vai pegar água limpa para beber”, afirma Renato Otranto, Diretor Estatutário (DCM e M&A) do Daycoval, ao discutir a criação de um mercado secundário para ativos originados via crowdfunding e estruturas simplificadas.
Hoje, segundo os participantes, a liquidez continua concentrada em operações high grade e grandes emissores, enquanto estruturas menores ainda enfrentam baixa padronização, dificuldade de análise e pouca profundidade de mercado.
“Hoje o mercado secundário é essencialmente high grade”, diz Caio Viggiano, Managing Director de Renda Fixa do Itaú. “Você precisa ter volume de emissão com o secundário acompanhando e uma coisa puxando a outra.”
Para os executivos, o avanço do mercado depende da combinação entre tecnologia, automação e simplificação operacional. A avaliação é que o custo de estruturar operações menores ainda impede que o crédito privado para PMEs ganhe escala de forma mais acelerada.
“Sem tecnologia a gente não vai conseguir dar esse volume”, afirma Viggiano.
O executivo do Itaú destaca que o crescimento do mercado passa por processos mais automatizados e adequados a operações de menor porte.
“Não consigo estruturar uma oferta de R$ 10 milhões da mesma forma que eu estruturo uma de R$ 500 milhões”, diz.
A discussão sobre infraestrutura digital aparece como um dos principais temas do painel. Rodrigo Amato, CEO da Laqus Capital, afirma que blockchain e tokenização devem exercer papel central na redução de custos operacionais e no aumento da eficiência do mercado.
“A evolução da regulamentação no Brasil é um negócio fantástico”, afirma Amato. “O mercado vai continuar evoluindo de uma forma que vai trazer mais segurança, vai baratear, diminuir custos para os emissores e ampliar o acesso.”
Segundo ele, a combinação entre novas regras e tecnologia já começa a mudar a dinâmica de emissão no mercado privado.“A gente começou a testar emissão com blockchain”, diz.
Na visão dos participantes, o desenvolvimento do secundário também passa pela padronização das operações. Hoje, investidores institucionais ainda enfrentam processos longos de análise para operações privadas de crédito, o que reduz a eficiência do mercado.
“A gente precisa trazer padronização”, afirma Viggiano. “Não vai ganhar escala.”
O avanço tecnológico já começa, porém, a alterar parte da infraestrutura operacional do setor. Renato Otranto relembra uma operação realizada entre Daycoval e Laqus envolvendo uma nota comercial privada liquidada via Pix durante a noite — exemplo usado pelos painelistas para ilustrar como novas soluções digitais podem reduzir fricções históricas do mercado de capitais.
“A gente liquidou uma nota comercial às 8 horas da noite, pagamos via Pix”, afirma Otranto.
O debate também passa pelo regime Fácil, criado pela CVM para simplificar o acesso de pequenas e médias empresas ao mercado de capitais. João Pedro Nascimento, ex-presidente da autarquia, afirma que a lógica da norma foi adaptar exigências regulatórias ao perfil do investidor e ao tamanho das operações.
“Nem sempre você precisa de todo o aparato do mercado de capitais para todo tipo de cliente”, afirma.
Segundo ele, o objetivo é reduzir burocracia e ampliar o acesso de novos emissores ao mercado. “O Brasil é excludente”, diz João Pedro. “Você quer ser inclusivo? O mercado de capitais tem que ter espaço para a pequena produção, para o agro, para o laticínio.”
O ex-presidente da CVM também destaca que o avanço regulatório dos últimos anos ajuda a impulsionar o crescimento do crédito privado no país. “Pela primeira vez, o crédito corporativo no mercado de capitais foi maior do que o crédito no sistema financeiro tradicional”, afirma.
Na avaliação dos participantes, a combinação entre padronização, tecnologia, mercado secundário e flexibilização regulatória deve definir a próxima etapa de desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro — especialmente no segmento de crédito privado voltado a pequenas e médias empresas.
“O dinheiro caro é o dinheiro que não está disponível”, resume Viggiano.
