De janeiro de 2010 a abril de 2026, o CDI e o IPCA registraram, em média anualizada, respectivamente, 9,81% e 5,83%. Para planos de fundos de pensão com meta atuarial de IPCA + 5% (10,83% a.a.), o CDI se mostrou insuficiente na maior parte da janela analisada, com exceção dos períodos de juros mais elevados. Os dados foram apresentados por Gustavo Ottoni, Gestor de Fundos da BNP Paribas Asset Management Brasil, durante o 15º Seminário de Investimentos nas EFPC realizado pela Associação brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp) nesta quarta-feira (06/05), em São Paulo.
“O CDI está mais alto do que costumava ser, e por isso criamos uma expectativa que ele é suficiente para cumprimento da meta atuarial”. Mas isso não deve persistir por muito tempo”, avaliou Ottoni. Para os próximos anos, ele indica que a expectativa é de um CDI abaixo de 10% a.a., enquanto espera-se que o IPCA seja menor que 5% a.a.
Segundo o gestor, migrar para outros índices de renda fixa já representaria um avanço, mas ainda insuficiente. Em janelas móveis de 12 meses, nenhum índice de renda fixa analisado superou a meta atuarial em questão em mais de 55% das vezes. O melhor deles, o IMA-B 5, conseguiu fazê-lo em 54,47% dos casos.
A diversificação em outros ativos se torna, portanto, condição para superar a meta de forma consistente. Uma carteira composta por 65% em IMA-B 5, 15% em IHFA e 20% em S&P 500 em reais, por exemplo, superaria a meta atuarial IPCA + 5% em 72,62% das janelas analisadas. “A seleção de ativos representa muito mais na carteira de um fundo de pensão do que o tempo de mercado”, disse Ottoni.
O argumento foi reforçado pelos demais participantes do painel. Fernando Lovisotto, Sócio e Head de IP&S Global da Vinci Compass, apontou que o problema central atual é outro. “O maior desafio do fundo de pensão é a longevidade. Está todo mundo vivendo mais”, pontuou. As fundações, contudo, ainda enfrentam a obrigação de cumprir com metas atuariais de curto prazo.
Necessidade de diversificação
Desde 2019, os fundos de pensão identificaram a oportunidade de investir em NTN-Bs marcadas na curva, ou seja, até o vencimento, enquanto a alocação de renda variável reduziu expressivamente. Lovisotto mostrou que no acumulado de 2019 a 2025, a rentabilidade das carteiras das EFPCs acumulou 97,04%, segundo dados apresentados pela Vinci Compass, enquanto a meta atuarial atingiu 105,32%. O CDI registrou 83,05% e o Ibovespa, 83,33%. Isso mostra que a estratégia de imunização nem sempre entrega os resultados esperados em termos de rentabilidade efetiva.
Ele sugere que há grande diversidade de oportunidades, entre elas a montagem de uma carteira de crédito diversificada. Para investimentos internacionais, o volume alocado ainda é baixo e a decisão, segundo Lovisotto, pautada pelo câmbio, e não pela lógica de diversificação. Ele reforçou que em um mundo marcado por dívidas elevadas e déficits fiscais crescentes, concentrar a alocação no Brasil representa um risco que as fundações precisam colocar no radar.
A questão de como navegar a volatilidade sem abandonar a estratégia de longo prazo também foi abordada por Renato Pires, Portfolio Manager da Itaú Asset. Para ele, a resposta está na disciplina do processo, e não na reação ao mercado. Quando Donald Trump anunciou tarifas agressivas em 2025, a asset do Itaú manteve sua posição em renda variável após identificar um quadrante favorável à classe. “Evitamos tomar atitudes com viés emocional”, disse.
Essa decisão é firmada com base em análises frequentes. Na Itaú Asset, o comitê de investimento se reúne para analisar os regimes com base em quatro quadrantes: estagflação, deflação, recessão/deflação e goldilocks. “Dependendo de onde estamos em termos de inflação, deslocamos nosso portfólio para renda fixa ou renda variável”, disse. Já os comitês táticos são semanais, com análise de Macro-Regime, Classe/Setor/Micro Fundamentais, Technicals/Momentum, Valuation e Risk Management.
Para 2026, a carteira estratégica local do Itaú Asset reflete esse raciocínio: Juro Real (32%), Pós-Fixado (29,5%), Multimercados (15%), Ibovespa (10%), Prefixado (7,5%) e S&P 500 em reais (6%). Os movimentos em relação à alocação anterior incluem redução de prefixados, aumento da exposição à renda variável via Ibovespa e S&P, e redução de multimercados. “Ainda preferimos a posição em bolsa à posição em renda fixa”, afirmou Pires.



