“Um continente em si mesmo”. Com essas palavras o executivo sênior Wagner Guida descreve o Brasil, seu mercado natal e sua missão central em sua nova posição na Link Capital Partners. E é que a empresa de origem chilena, que já tem presença consolidada nos negócios de distribuição de fundos de terceiros nos principais polos financeiros da América Latina, está olhando com interesse a demanda dos clientes locais – particularmente de bancos privados e canais privados de wealth – por instrumentos no exterior.
“Os clientes brasileiros, em geral, não investem muito fora”, afirma Guida, em entrevista à Funds Society. Embora no mundo da gestão patrimonial também não se observe um boom, trata-se de um setor onde “estão investindo cada vez mais”. Essa é a tendência que está no centro da consolidação da Link no país latino-americano, a maior economia da região.
“Há um viés difícil no Brasil, porque as taxas reais são muito altas, de 15%. Então, é natural que se busquem investimentos com mais yield, mas ainda assim os brasileiros estão diversificando mais seus portfólios em investimentos estrangeiros”, relata o profissional.
Com a contratação de Guida – que passou quase duas décadas no grupo Itaú Unibanco, além de passagens pelo HSBC e pelo fundo de pensão brasileiro Funcef –, o objetivo é reforçar um segmento de clientes que vinha sendo atendido de forma esporádica até então.
O maior interesse de canais de wealth management, family offices e multi-family offices, em particular, por incorporar produtos alternativos em suas carteiras é uma área de interesse para a Link, dado que a empresa possui uma oferta que abrange as principais classes de ativos desse segmento. “Aí acreditamos que há uma boa oportunidade”, comenta Guida.
Assim, a estratégia é diferente das operações que já possuem no Chile, Peru e Colômbia, onde o foco principal está nos institucionais. “Não é o nosso foco, em primeiro lugar”, acrescenta o diretor da empresa.
Interesses e particularidades
Embora a Link não se dedique à assessoria de carteiras, do lado da distribuição eles identificaram algumas tendências interessantes, como o maior interesse em mercados privados. “O conhecimento sobre alternativos na América Latina, em geral, aumentou ao longo do tempo. O espaço nas carteiras aumentou ao longo do tempo e, nesse sentido, a conversa sai da conjuntura do dia a dia”, conclui o executivo. Nessas classes de ativos, acrescenta, predominam perguntas sobre programas e ciclos de investimento de longo prazo.
Além disso, segundo descreve o profissional, “há certas particularidades dos investidores no Brasil que fazem com que alguns produtos se ajustem melhor à sua demanda. E, portanto, vamos nos concentrar nisso”, detalha Guida.
Do lado dos ativos líquidos, predominam as estratégias tradicionais de renda variável e renda fixa, enquanto, no campo dos alternativos, uma área de interesse é o private equity. Outro segmento relevante, seguindo uma tendência global, está nas estratégias alternativas semilíquidas.
Nessas estruturas, acrescenta, além de serem mais fáceis de distribuir para canais de gestão patrimonial, também é mais simples incorporar mecanismos de proteção cambial. Isso é fundamental no Brasil, explica, já que os investidores não podem investir diretamente em dólares.
Assim, o que geralmente ocorre é a distribuição de estratégias de investimento geridas por grandes gestores internacionais, mas “hedgeadas” em reais. “É uma possibilidade fazer isso e é um ângulo que poderíamos explorar”, adianta Guida, com mecanismos de estabilização do risco cambial que permitam acessar investimentos internacionais sem o efeito da moeda.
Uma evolução natural
Mais do que um projeto que responda a uma conjuntura, tendência ou dinâmica específica, na Link Capital Partners a consolidação da operação no Brasil é vista como uma parte natural do crescimento de seu negócio de fundos de terceiros.
“O negócio de distribuição é importante dentro da Link. E acreditamos que o Brasil é uma evolução bastante óbvia desse negócio, pelo tamanho e pelo momento em que os investidores se encontram”, afirma o sócio da empresa financeira, Felipe Gazitúa.
Assim, seguem a trajetória de expansão que começou com uma equipe de profissionais que trabalhavam juntos na IM Trust, há 14 anos, antes de o grupo Credicorp adquiri-la. Atualmente, contam com operações na região andina, México e América Central, onde atendem a uma variedade de investidores.
Por isso, acrescenta Gazitúa, escolheram um profissional com a senioridade de Guida para liderar os esforços. E, nesse sentido, o executivo se mostra confortável com a posição. “Minha carreira se divide entre o que desenvolvi no Brasil e o que desenvolvi no Chile”, comenta, o que lhe permite conhecer tanto o universo de bancos privados quanto o de investidores institucionais.



