A sustentabilidade segue reconhecida como tema de grande relevância para os mercados financeiro e de capitais no Brasil. Contudo, as instituições brasileiras estão avaliando a utilização dos critérios ESG (ambiental, social e governança) de maneira mais crítica e pragmática. É o que explica Carlos Takahashi, Diretor da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), com base nos resultados na 4ª edição da pesquisa Retrato da Sustentabilidade no Mercado de Capitais.
O levantamento foi realizado pela Anbima em parceria com o Datafolha, com 206 instituições associadas da Anbima ou que participam de seu programa de autorregulação. Do total, 74% são gestoras de recursos (assets), 11% bancos e 15% outras instituições (corretoras, distribuidoras e securitizadoras). De acordo com o levantamento, 80% das instituições financeiras atribuem notas acima de 7 para a importância do tema, e 63% afirmam que a pauta ganhou mais relevância nos últimos 12 meses – Confira os principais resultados.
A importância conferida ao tema ESG, contudo, caiu da média de 8,2 da última edição da pesquisa realizada em 2021, para 7,9, deste recente levantamento com dados de 2025. “A leve queda na nota média mostra que o tema deixou de ser visto como novidade e caminha para se tornar cada vez mais parte do cotidiano das instituições. Em 2021, o tema estava no auge da visibilidade, impulsionado pela pandemia, que mostrou o quanto era importante dar atenção a questões sociais e climáticas”, diz Takahashi em trecho da entrevista.
A pesquisa destaca o amadurecimento no entendimento sobre o tema. A maioria das casas (87%) discorda da ideia de que a sustentabilidade esteja restrita à realidade estrangeira. E 74% das instituições não consideram que o assunto tenha sido superestimado, ou seja, recebido mais importância do que deveria.
A principal mudança entre os resultados de 2021 e 2025 pôde ser verificado entre os iniciados: o número de instituições nesse perfil caiu pela metade, de 32% para 16%. Os resultados indicam que essas casas migraram para duas direções: parte delas ganhou maturidade, evoluindo para os perfis mais avançados — emergente e engajado — e a outra parte assumiu posturas menos alinhadas ao tema, engrossando os grupos ‘distante’ e ‘desconfiado’.
Embora os grupos distante e desconfiado correspondam a grande parcela do mercado (45%), o principal crescimento se deu entre emergentes e engajados. Juntos, eles subiram 10 pontos percentuais, passando de 29% para 39%, enquanto desconfiados e distantes cresceram 6 pontos percentuais na mesma base de comparação – Acesse o relatório completo.
A análise mostra, também, que a maturidade não é igual entre os diferentes tipos de instituições financeiras. Os bancos são os mais avançados, com 52% concentrados nos dois perfis de maior aderência, o que reflete práticas mais estruturadas. Nesse grupo, por exemplo, 83% publicam relatórios com desempenho ESG regularmente contra apenas 20% das assets e 39% das demais instituições.
O nível de engajamento também muda conforme o volume sob gestão. Dentre as empresas com maior PL (acima de R$ 50 bilhões), praticamente todas estão no perfil emergente ou engajado, indicando que, quanto maior o patrimônio líquido, maior o engajamento. Leia a seguir a entrevista na íntegra:
Poderia destacar os principais aspectos da aplicação dos critérios de sustentabilidade (ESG) entre as instituições de mercado verificadas nos resultados da pesquisa?
Carlos Takahashi: A pesquisa indica avanços consistentes na consolidação da agenda de sustentabilidade no mercado, mesmo em um contexto macroeconômico mais desafiador. A comparação com 2021 mostra que as questões ESG deixaram de serem vistas como tendência e se consolidaram com um viés pragmático, tornando-se uma ferramenta de gestão de riscos – como parte do dever fiduciário da indústria -, proteção da reputação e compromisso regulatório.
Apesar dos avanços, o resultado geral da pesquisa mostra uma leve oscilação para baixo na importância conferida ao tema ESG (média caiu de 8,2 em 2021 para 7,9 em 2025). As notas baixas também oscilaram para cima (de 14% para 20%). Qual a sua interpretação sobre essas variações?
Takahashi: A leve queda na nota média mostra que o tema deixou de ser visto como novidade e caminha para se tornar cada vez mais parte do cotidiano das instituições. Em 2021, o tema estava no auge da visibilidade, impulsionado pela pandemia, que mostrou o quanto era importante dar atenção a questões sociais e climáticas, por exemplo. Já em 2025, o mercado opera em um ambiente mais desafiador do ponto de vista macroeconômico, com juros elevados, turbulências internacionais e incertezas geopolíticas. Isso levou as instituições a avaliarem o ESG de forma mais crítica e pragmática, o que ajuda a explicar tanto a pequena oscilação da média quanto o aumento das notas mais baixas, sem que isso signifique um recuo estrutural da agenda.
O que quer dizer com uma postura mais pragmática?
Takahashi – O que a pesquisa revela, na prática, é um processo de amadurecimento. O ESG deixa de ser visto como discurso ou tendência e passa a ser cobrado pela sua capacidade real de execução, integração à gestão de riscos e impacto nos negócios. As grandes instituições seguem com níveis elevados de maturidade, enquanto gestoras menores enfrentam limitações de recursos e prioridades mais imediatas. Além disso, a ampliação da base de respondentes influencia os percentuais. No conjunto, os dados indicam menos entusiasmo e mais foco na implementação efetiva.
Poderia relacionar os resultados da questão anterior com o cenário político e econômico mundial? Como as grandes assets globais estão lidando com as mudanças relacionadas ao ESG?
Takahashi: Após o pico de visibilidade da agenda ESG em 2021, impulsionado pela pandemia e por forte engajamento internacional, o mercado passou a operar em um ambiente mais pressionado por juros altos e tensões geopolíticas. Nesse contexto, não houve uma mudança estrutural de direção, mas sim uma transição para um ESG mais pragmático. As grandes assets globais seguem comprometidas com a agenda, porém com ajustes claros de abordagem — menos iniciativas declarativas e mais integração do ESG à gestão de riscos, à materialidade e à precificação de ativos.
Poderia comentar os principais aspectos dos resultados das assets? Por exemplo, aumentou a quantidade de gestoras que têm mais da metade dos ativos com avaliação ESG?
Takahashi: Os resultados das assets mostram um avanço consistente, ainda que heterogêneo, no grau de incorporação do ESG aos processos de investimento. A pesquisa indica um aumento na proporção de gestoras que já avaliam critérios ESG em mais da metade dos seus ativos, o que sinaliza que a sustentabilidade está deixando de ser restrita a produtos específicos para ganhar espaço no núcleo das decisões de alocação.
Também cresceu a quantidade de assets que não investem em ativos com baixo desempenho ESG. Qual a sua análise sobre esses dados?
Takahashi: Isso mesmo, 4 em cada 10 assets (38%) não investem em ativos com baixo desempenho ESG, o que revela um movimento concreto de integração da agenda à gestão de riscos e ao cumprimento do dever fiduciário. Esse avanço, no entanto, ocorre em ritmos diferentes, muito em função do porte e da capacidade operacional das gestoras. As instituições maiores, com estruturas mais robustas, conseguem avançar mais rapidamente; já nas gestoras de menor porte, o processo tende a ser mais gradual, muitas vezes começando por abordagens mais simples, como filtros negativos.
Como avalia a utilização e valorização dos critérios ESG de acordo ao porte das instituições?
Takahashi: O porte das instituições influencia no engajamento, na capacidade de implementação e no ritmo da adoção dos critérios ESG. Casas com maior volume de ativos sob gestão e maior número de funcionários — especialmente os grandes bancos — apresentam um nível de maturidade mais avançado. Além de terem mais condições de ter equipes estruturadas cuidando da implementação das questões ESG, essas casas são impulsionadas por exigências regulatórias.
E as gestoras de menor porte? Takahashi: Já entre gestoras independentes e de menor porte, o avanço é mais heterogêneo e está condicionado à disponibilidade de recursos e às pressões do ambiente de negócios. Isso não indica menor relevância do tema ESG para essas casas, mas trajetórias distintas de amadurecimento.



