O futuro da previdência na América Latina dificilmente poderá se apoiar em uma única fonte de renda. A necessidade de complementar a poupança obrigatória com planos privados, instrumentos voluntários e soluções que acompanhem os trabalhadores ao longo da vida profissional começa a se delinear como um dos grandes desafios dos sistemas de aposentadoria da região. Ismael Díaz Gálvez, diretor de Corporate Solutions da SURA Investments, detalha em entrevista o panorama atual e o que se espera para o futuro.
No México, por exemplo, onde as Afores constituem o mecanismo central do sistema de contas individuais, os planos de previdência patrocinados pelas empresas, os fundos de poupança e as caixas de poupança representam alternativas para construir um patrimônio adicional. A eles se somam os planos pessoais de aposentadoria (PPR), que permitem desenvolver estratégias individuais de poupança de longo prazo.
A oportunidade não se limita a acumular mais recursos. Também implica modificar a maneira como trabalhadores, empresas e instituições financeiras entendem a responsabilidade de se preparar para a aposentadoria, particularmente diante de uma maior expectativa de vida e da necessidade de financiar períodos mais prolongados de inatividade.
Para Ismael Díaz Gálvez, o essencial é entender que os diferentes instrumentos de poupança não necessariamente competem entre si: podem se complementar e responder a necessidades distintas ao longo da vida financeira de uma pessoa.
“Não há uma única solução que resolva todas as suas necessidades de poupança”, explica o executivo. Pelo contrário, sustenta que as alternativas disponíveis devem ser entendidas como ferramentas complementares, cujos benefícios podem ser aproveitados de acordo com as circunstâncias e os objetivos de cada poupador.
Essa visão ganha relevância em um ambiente no qual a responsabilidade de construir o patrimônio para a aposentadoria exige uma participação cada vez mais ativa dos próprios trabalhadores, sem que isso signifique reduzir a importância dos sistemas públicos ou obrigatórios.
Um negócio de US$ 5,2 bilhões
A dimensão que essas soluções adquiriram no mercado mexicano se reflete nos números da SURA Asset Management. Seu negócio de Corporate Solutions administra cerca de US$ 5,2 bilhões em ativos no México e mantém relações com 507 grupos empresariais, segundo Díaz Gálvez.
Os recursos correspondem principalmente a fundos de pensão, caixas e fundos de poupança, além de alguns fideicomissos de médio e longo prazo.
O crescimento também se reflete nos indicadores financeiros do negócio. Nos últimos três anos, os ativos sob gestão registraram uma taxa composta de crescimento anual de 13,5%, enquanto as receitas avançaram a uma taxa de 15,8%.
No momento da entrevista, a operação havia gerado cerca de US$ 21 milhões em receitas no ano, e a expectativa era encerrar o período em aproximadamente US$ 26 milhões.
As perspectivas são ainda mais ambiciosas: a companhia espera duplicar tanto os ativos quanto as receitas em um horizonte de cinco anos.
“Esta é a fase desta empresa em que se deu mais foco a esse negócio”, afirma Díaz Gálvez, que trabalha na SURA desde 2001. O executivo destaca que Corporate Solutions se tornou uma prioridade para a SURA Investments, tanto na alocação de recursos quanto no desenvolvimento de capacidades e novas oportunidades comerciais.
A estratégia também prevê aproveitar as sinergias com outras linhas de negócio, entre elas Wealth Management, para ampliar as soluções disponíveis e atender de forma mais abrangente às necessidades patrimoniais dos clientes.
Um elemento importante para dimensionar esses números é que Corporate Solutions opera como linha de negócio apenas no México. Díaz Gálvez atribui essa particularidade às condições regulatórias e de mercado do país, que permitem à organização considerar essa atividade uma prioridade de crescimento.
Além da expansão de uma operação específica, os resultados mostram a escala que pode alcançar a administração dos benefícios de poupança oferecidos pelas empresas aos seus colaboradores.
Oportunidade para a América Latina
A oportunidade para o México e a América Latina está em avançar para um modelo em que a poupança obrigatória, os planos corporativos, os instrumentos pessoais e outras alternativas financeiras funcionem de maneira articulada.
Não se trata de substituir os sistemas existentes, mas de reconhecer que as necessidades de aposentadoria são diferentes e que uma única ferramenta dificilmente pode resolver todas elas.
Para a SURA, as perspectivas de crescimento de Corporate Solutions refletem tanto uma oportunidade de negócio quanto a possibilidade de atender a uma necessidade de poupança de longo prazo. Para os trabalhadores, o desafio é conhecer as alternativas disponíveis e começar a utilizá-las com antecedência suficiente.
A nova etapa da previdência na América Latina dependerá, em boa medida, de que a poupança complementar deixe de ser um benefício reservado a determinados trabalhadores e se consolide como parte de uma conversa mais ampla sobre bem-estar financeiro, responsabilidade individual e preparação para uma vida mais longa.
Da previdência empresarial à poupança voluntária
Corporate Solutions nasceu com a intenção de potencializar a gestão dos veículos de poupança que as organizações colocam à disposição de seus trabalhadores. Sua atividade abrange principalmente planos de previdência de benefício definido e de contribuição definida, além de outros instrumentos de poupança corporativa.
A diferença entre os dois modelos tem implicações tanto para as empresas quanto para seus colaboradores.
Nos planos de benefício definido, a obrigação futura é determinada por cálculos atuariais que permitem estimar os compromissos associados à aposentadoria. No México, explica Díaz Gálvez, esses modelos são utilizados principalmente para cobrir as obrigações de indenização legal das empresas.
O modelo de contribuição definida, por sua vez, estabelece aportes a uma conta ou fundo cujo patrimônio se acumula ao longo do tempo. Nesses modelos, a poupança do trabalhador ganha um papel relevante, e as empresas podem incentivar sua participação com contribuições complementares, conhecidas no mercado como matching.
Esse mecanismo permite que a organização contribua para a poupança de seus colaboradores sob as condições estabelecidas em cada plano e, ao mesmo tempo, estimula maior participação dos trabalhadores na construção de seu patrimônio.
Para as companhias, a atratividade vai além de oferecer um benefício adicional. Os planos de previdência e os demais benefícios de poupança podem se tornar instrumentos de atração e retenção de talentos, além de contribuir para o bem-estar financeiro dos funcionários.
A lógica é que um trabalhador com maior clareza sobre suas finanças e com ferramentas para atender às suas necessidades de poupança pode reduzir parte da incerteza econômica que afeta seu cotidiano.
No entanto, a efetividade desses instrumentos depende de que os beneficiários conheçam suas características e compreendam como utilizá-los. Um benefício pode ter um valor econômico importante, mas perder parte de sua utilidade se o trabalhador desconhecer seu alcance ou não souber como aproveitá-lo.
Por isso, a SURA articula sua proposta de serviços em torno de três componentes: as soluções de investimento para administrar os recursos, as plataformas operacionais que permitem individualizar e dar transparência às contribuições e aos rendimentos e o acompanhamento das empresas para identificar necessidades e melhorar seus modelos de benefícios.
A transparência é especialmente relevante nesse processo. Os participantes precisam conhecer quanto contribuíram, como seu investimento evolui, quais rendimentos obtiveram e de que maneira seus recursos estão investidos. A disponibilidade dessas informações em aplicativos e plataformas digitais também pode facilitar o acompanhamento e a compreensão dos benefícios.
Os PPR e a necessidade de construir várias fontes de renda para a aposentadoria
A complementaridade entre instrumentos ganha especial importância quando se considera que nem todos os trabalhadores desenvolvem sua carreira profissional da mesma maneira.
Os planos empresariais podem beneficiar quem trabalha em organizações que oferecem esses benefícios, enquanto os planos pessoais de aposentadoria permitem que outras pessoas, incluindo trabalhadores autônomos, construam uma estratégia de poupança de longo prazo.
Díaz Gálvez lembra que os PPR surgiram, entre outros objetivos, para oferecer uma alternativa de poupança para a aposentadoria a profissionais autônomos que não necessariamente contam com um plano de previdência patrocinado por uma empresa.
Além disso, esses instrumentos podem facilitar a continuidade de uma estratégia de poupança quando um trabalhador muda de emprego.
O executivo explica que, sob as condições aplicáveis, os recursos de um plano de previdência empresarial podem ser transferidos para um PPR sem gerar impostos nessa operação, o que permite manter a estratégia de poupança de longo prazo. A viabilidade tributária depende de que a transferência cumpra os requisitos correspondentes.
Esse tipo de mecanismo é pertinente em um mercado de trabalho no qual as trajetórias profissionais são cada vez menos lineares. Enquanto antes era comum permanecer muitos anos em uma mesma organização, hoje os trabalhadores podem mudar de empresa ou de atividade com maior frequência.
Nesse contexto, a construção do patrimônio para a aposentadoria precisa considerar não apenas os benefícios disponíveis em um emprego específico, mas também a forma de preservar e dar continuidade à poupança acumulada ao longo da vida profissional.
A longevidade acrescenta outra dimensão ao desafio. Viver mais anos após a aposentadoria implica financiar por mais tempo as necessidades de alimentação, moradia e outras despesas cotidianas, além de enfrentar possíveis aumentos nos custos de assistência médica.
Por isso, a estratégia de investimento não pode ser concebida apenas sob a perspectiva de acumular recursos até a aposentadoria. Também precisa considerar como preservar e rentabilizar o patrimônio em uma etapa que pode se estender por duas décadas ou mais.
Para Díaz Gálvez, a resposta passa por compreender as características de cada instrumento, seus riscos e benefícios, em vez de buscar uma solução única para todos os trabalhadores.
As empresas diante do desafio da educação financeira
A expansão dos planos complementares enfrenta um obstáculo importante: a limitada cultura financeira de boa parte da população.
O desafio não consiste apenas em ampliar a oferta de produtos, mas em fazer com que as pessoas compreendam a utilidade da poupança de longo prazo, identifiquem suas alternativas e desenvolvam hábitos financeiros que lhes permitam aproveitá-las.
Nesse processo, as empresas podem desempenhar um papel relevante. Sua relação cotidiana com os trabalhadores permite aproximá-los das informações sobre os benefícios disponíveis e explicar como eles se integram a outras ferramentas de poupança.
Díaz Gálvez considera que a educação financeira precisa ser construída por meio de uma colaboração entre as organizações e os provedores de serviços financeiros. O objetivo é explicar de maneira simples os conceitos básicos da poupança, as características dos benefícios corporativos, as estratégias disponíveis e as alternativas para melhorar a administração das finanças pessoais.
A comunicação, no entanto, não pode ser uniforme. As necessidades, as idades e as formas de se relacionar com o dinheiro variam entre os trabalhadores, assim como as culturas e as possibilidades orçamentárias das empresas.
Por isso, o executivo sustenta que as estratégias de educação financeira precisam se adaptar às características de cada público e se manter ao longo do tempo. Uma única palestra dificilmente será suficiente para gerar mudanças duradouras nos hábitos de poupança.
Também considera importante falar abertamente sobre os riscos de investimento. A proteção do trabalhador não deve ser confundida com ocultar os riscos que assume ao investir seus recursos. Pelo contrário, ele precisa de informações compreensíveis sobre as possíveis oscilações, os horizontes de investimento e os benefícios esperados.
Nessa perspectiva, a educação financeira deve ajudar os trabalhadores a tomar decisões informadas e assumir gradualmente maior responsabilidade por seu patrimônio.
O tempo, um aliado da poupança
A construção de uma cultura de poupança também exige superar uma das justificativas mais frequentes para adiar decisões financeiras: esperar ganhar mais dinheiro ou que as condições de mercado sejam favoráveis. “O melhor aliado da poupança é o tempo”, afirma Díaz Gálvez.
Seu argumento é que começar cedo, mesmo com pequenas quantias, pode fazer uma diferença significativa quando os aportes se mantêm de forma constante e os rendimentos são reinvestidos ao longo dos anos.
Os juros compostos permitem que os rendimentos gerados sejam incorporados ao patrimônio e contribuam, por sua vez, para produzir novos rendimentos. Seu efeito depende do valor poupado, da regularidade dos aportes, do prazo e dos rendimentos obtidos, entre outros fatores.
A constância, portanto, pode ser tão importante quanto o valor inicial. O objetivo é que a poupança deixe de ser percebida como uma obrigação distante ou uma meta inalcançável e se torne um hábito incorporado à administração cotidiana do dinheiro.
Essa visão também modifica o papel que os planos empresariais podem desempenhar. Além de facilitar o acesso a instrumentos de poupança, as companhias podem contribuir para que seus trabalhadores compreendam como utilizá-los e como integrá-los em uma estratégia patrimonial mais ampla.
