A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, no último domingo (25), levou bancos e gestoras internacionais a rever as perspectivas para os ativos brasileiros, após semanas de posicionamento favorável a uma vitória de Flávio Bolsonaro. Nas análises dessas empresas, a preocupação central é a capacidade do governo de apresentar um ajuste fiscal suficiente para estabilizar a dívida pública. A cautela com o curto prazo, porém, convive com avaliações de que a correção dos preços pode abrir oportunidades em ações e renda fixa.
Lula venceu o segundo turno de domingo (25) com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Para as casas consultadas, o resultado contrariou o cenário incorporado aos preços após a primeira votação. O foco dos investidores passa agora pela composição da equipe econômica, pela consistência das medidas fiscais e pela capacidade de aprová-las no Congresso.
A pressão sobre os ativos ganhou expressão concreta no pregão desta segunda-feira. Em comunicado enviado à imprensa, a B3 confirmou o acionamento do circuit breaker, com suspensão das negociações por 30 minutos. A bolsa informou a retomada em leilão das 10h30 às 10h35.
No fechamento, o Ibovespa recuou 13,43%, a 177.539,81 pontos, conforme os dados preliminares divulgados pela Reuters. O dólar comercial encerrou o dia em alta de 8,21%, a R$ 5,403. Os números dimensionam a correção de preços que serve de pano de fundo às avaliações das casas internacionais.
“Daqui para frente, a questão fundamental não é o crescimento, mas a credibilidade fiscal”, afirma Jack Janasiewicz, gestor de carteiras da Natixis IM Solutions. Sua avaliação é que novas iniciativas de gasto sem um plano convincente para a dívida podem encarecer o financiamento soberano e reduzir o espaço para cortes de juros.
A reversão da aposta eleitoral
Thomas Haugaard, gestor da equipe de dívida de mercados emergentes em moeda forte da Janus Henderson, entende que a surpresa revela uma assimetria de posicionamento. Mesmo com pesquisas indicando uma disputa apertada, o mercado de dívida externa já havia incorporado, em grande parte, uma vitória de Bolsonaro. “A aposta na eleição já estava precificada, enquanto o risco de uma vitória de Lula não estava”, escreveu.
Na avaliação de Haugaard, a fraqueza do real é um canal importante de transmissão do choque: a depreciação pode elevar as expectativas de inflação e os juros locais, aumentar a despesa do governo com juros e agravar as pressões fiscais. A recuperação duradoura dos spreads dependeria de reformas recorrentes de gastos e de uma trajetória crível para a dívida.
A leitura é compartilhada por Thierry Larose, gestor de carteiras e analista da Vontobel. Em comentário distribuído antes da abertura do mercado, ele previa vendas, juros mais altos e enfraquecimento do real, com possibilidade de reversão dos ganhos posteriores ao primeiro turno. “Acreditamos que o governo Lula também não terá outra opção a não ser adotar medidas de consolidação fiscal”, afirma. A dúvida, acrescenta, é se elas serão suficientes para restabelecer a sustentabilidade da dívida.
Larose vê, contudo, limites para um ajuste desordenado: o Banco Central no câmbio e o Ministério da Fazenda na dívida pública dispõem, em sua avaliação, de capacidade para conter movimentos caóticos. Kristin Ceva, gestora de dívida emergente da Payden & Rygel, também associa a pressão inicial ao desmonte de posições montadas à espera de uma mudança fiscal.
O que falta para recuperar a confiança
O UBS Global Wealth Management avalia que as informações disponíveis ainda não mostram ajuste concreto suficiente para sustentar a reprecificação dos ativos brasileiros desde o primeiro turno. No relatório assinado por Alejo Czerwonko, Luciano Telo, Solange Srour, Ronaldo Patah e Debora Nogueira, o banco trabalha com uma volta de ações, câmbio e juros aos níveis anteriores à primeira votação, admitindo uma deterioração temporária além desse ponto.
A instituição estabelece três condições para estabilizar a confiança: um pacote com medidas quantificadas; a compatibilização do esforço de ajuste com compromissos de campanha que estima em R$ 300 bilhões; e um caminho de aprovação no Congresso antes do fim do ano. O relatório aponta dívida pública superior a 80% do PIB e déficit fiscal próximo de 10% do PIB como parte da dificuldade inicial do novo mandato.
Para o câmbio, o UBS apresenta R$ 5,40 por dólar como primeira referência de depreciação, sem excluir movimentos iniciais mais intensos. Trata-se de um cenário do banco, não de uma cotação de fechamento. A casa também considera que o atraso na consolidação fiscal pode desacelerar o ciclo de redução da Selic, sobretudo se houver pressão cambial.
Mali Chivakul, economista de mercados emergentes da J. Safra Sarasin Sustainable AM, espera que Lula procure acalmar os investidores com uma escolha para a Fazenda que inspire confiança e com anúncios antecipados para estabilizar a dívida. Ainda assim, prevê um período de fraqueza e volatilidade até o início do mandato. O desempenho em 2027 dependerá, em sua análise, de uma correção fiscal percebida como duradoura e crível.
Na Fidelity International, Andressa Tezine, analista sênior de dívida soberana, vê espaço limitado para avanços fiscais imediatos e risco de novas altas de juros. Philip Fielding, gestor de dívida emergente, aponta os nomes do gabinete e os planos fiscais para 2027 como sinais decisivos para avaliar oportunidades depois da estabilização dos preços.
Congresso pode conter gastos e dificultar reformas
A composição mais conservadora do Legislativo aparece como contrapeso em diversas análises. Natixis, UBS e J. Safra Sarasin consideram que a necessidade de negociar com partidos de centro e de direita pode limitar medidas de expansão de despesas. Eirini Tsekeridou, analista de renda fixa do Julius Baer, ressalta que a execução legislativa dependerá da formação de coalizões em um Congresso fragmentado e majoritariamente de centro-direita.
Viktor Szabó, diretor de investimentos em dívida emergente da Aberdeen Investments, oferece uma interpretação menos favorável desse contrapeso. Embora um Congresso adversário possa bloquear promessas mais caras, também pode dificultar medidas de arrecadação e reformas estruturais, além de exigir concessões onerosas. “Paralisia não é consolidação”, resume.
Para Szabó, o teste vai além dos nomes da equipe: os investidores precisam de um arcabouço capaz de gerar superávits primários suficientes para estabilizar a dívida, acompanhado de medidas sobre indexação de benefícios, despesas obrigatórias e gastos tributários. Sua análise reconhece a força das contas externas, dos recursos naturais e da estrutura institucional brasileira, mas sustenta que esses atributos não substituem a disciplina fiscal.
Oportunidades, com condições
Apesar do tom cauteloso, os comentários não apontam um abandono generalizado do Brasil. Larry Hatheway, estrategista global de investimentos do Franklin Templeton Institute, considera que os juros elevados, tanto nominais quanto reais, devem persistir. “Apesar da volatilidade de curto prazo, a dívida em moeda local do Brasil continua sendo uma fonte atraente de renda e retorno”, afirma.
Para Hatheway, a bolsa pode se recuperar no médio prazo se o governo combinar aperto fiscal e medidas de liberalização que estimulem produtividade e rentabilidade do capital. O Julius Baer também vê espaço para bom desempenho de títulos, real e ações domésticas caso haja compromisso com a estabilização da dívida e a consolidação gradual das contas públicas.
Na Fidelity, Zoltan Palfi, gestor de ações latino-americanas, avalia que uma correção acentuada pode criar pontos de entrada para investidores de longo prazo. A casa considera as ações brasileiras atraentes frente ao histórico e a outros emergentes, com destaque para empresas pequenas e médias voltadas ao mercado doméstico. A análise do UBS é mais cautelosa com o ponto de partida: antes do resultado, via o mercado próximo da média histórica de dez anos, a 9,6 vezes o lucro projetado. As avaliações utilizam referências distintas e mostram que não há uma visão uniforme sobre o desconto dos ativos.
Lale Akoner, estrategista global de mercados da eToro, também distingue a correção de posições de uma piora súbita da atividade. “Parte da reação reflete um rápido ajuste de posições dos investidores, mais do que uma deterioração repentina da economia brasileira”, afirma. Ela vê maior pressão sobre bancos, varejo e empresas dependentes do consumidor doméstico, enquanto exportadoras com receitas em dólares podem se beneficiar do real mais fraco.
Akoner recomenda cautela ao buscar oportunidades nas quedas. O ponto é separar empresas com problemas estruturais daquelas vendidas em meio ao nervosismo, observando a qualidade dos balanços e possíveis sinais de contenção de gastos. A Fidelity faz uma ressalva semelhante para a renda fixa: juros elevados não garantem retorno total positivo quando perdas nos títulos e depreciação cambial consomem a renda recebida.
A Payden & Rygel preserva uma visão favorável à dívida emergente como alocação estratégica, apoiada em juros reais positivos, reservas cambiais e fundamentos externos. A tese abrange o conjunto dos emergentes, não representa uma avaliação exclusivamente brasileira nem elimina os riscos fiscais locais.
Em comentário também recebido nesta segunda-feira, William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, reforça a importância da diversificação internacional independentemente do vencedor da eleição. A análise complementa as visões das casas globais ao enfatizar a proteção de compromissos e despesas ligados ao dólar.
Para os próximos meses, a principal diferença entre as avaliações está no grau de confiança de que a correção fiscal virá e na velocidade com que os preços poderão oferecer compensação pelos riscos. Os sinais apontados para essa avaliação são concretos: medidas de gasto recorrentes, números verificáveis, apoio parlamentar e uma trajetória da dívida capaz de permitir juros menores.
