O Pátria Long Biased encerrou 2025 com retorno de 57,4%, equivalente a aproximadamente 400% do CDI, mas perdeu ritmo em 2026. No entanto, a captação segue positiva, o que é um fator relevante em tempos de competição acirrada com o CDI. Segundo William Leite, responsável pela gestão de renda variável Brasil do Pátria, o fundo ainda registrava captação líquida positiva no acumulado do ano na data da entrevista, realizada no fim de setembro.
“Numa indústria que está numa situação de ter bastante resgate, a gente teve captação líquida positiva”, afirma o gestor. O movimento ganhou força na segunda metade de 2025 e no começo de 2026, mas desde março os novos aportes e resgates passaram a ficar mais próximos do equilíbrio.
Atualmente a captação segue positiva em R$ 27 milhões, muito pelo varejo local entrando através das plataformas. Mas há um olhar internacional para o fundo.
“Não tem tido dinheiro novo do estrangeiro. O que tem tido muito é muito interesse”, diz Leite, diante da expansão da Patria para o mercado latino e a possibilidade de novas entradas por players de outros países da região. “Temos sido consultados por family offices latinos, eles estão olhando para o Brasil, em especial pelo cenário eleitoral”.
Em entrevista à Funds Society, o gestor detalhou a construção da carteira e explicou o que mudou em 2026. Depois de um início de ano favorável, a redução da exposição a commodities e a pressão dos juros sobre empresas ligadas à economia doméstica prejudicaram a estratégia.
Para os próximos meses, Leite considera que os preços descontados das ações oferecem oportunidades, mas associa uma recuperação mais consistente às políticas econômicas e à perspectiva de uma queda duradoura dos juros. Em sua avaliação, o dinheiro dos investidores brasileiros hoje alocado em renda fixa pode ter um papel central nesse movimento.
No ano, o fundo atingiu 17,54% de rentabilidade, em parte pela performance da bolsa pós primeiro turno. No cenário anterior, havia uma queda de 4% no ano.
Um mandato além da compra de ações
Embora tenha a renda variável brasileira como foco, o Pátria Long Biased é classificado como multimercado livre. Leite também administra uma estratégia long only, mais próxima de um fundo de ações tradicional, que tende a permanecer quase integralmente comprada. No long bias, a exposição pode ser ajustada conforme a avaliação das oportunidades e dos riscos.
”Temos flexibilidade de decidir nossa exposição”, afirma
Além de selecionar empresas para o médio e longo prazo, o fundo pode manter caixa, operar futuros e opções, montar posições vendidas e utilizar ativos no exterior para proteger a carteira. As posições short podem refletir a avaliação de que uma ação está cara ou servir para reduzir um risco compartilhado por várias empresas, como a exposição ao petróleo.
“A maior parte das vezes é porque o preço está caro”, diz Leite sobre a decisão de vender uma ação. A avaliação pode identificar uma oportunidade mesmo em uma empresa cujo negócio a equipe considera bom.
Essa liberdade permite buscar retornos em situações que não dependem apenas da direção da bolsa. É nesse espaço que entra a arbitragem de eventos societários, principal fonte de contribuição para o desempenho de 2025, segundo o gestor.
Ao lado da arbitragem, os derivativos e uma posição vendida foram as maiores contribuições para o resultado daquele ano. “As nossas três principais posições, três maiores contribuições aqui, não foi estar comprado”, afirma Leite. “Foram coisas que a gente foi, de fato, buscar alfa.”
A oportunidade nos eventos societários
Leite descreve a estratégia como a busca por diferenças entre o preço de mercado de uma ação e o valor que poderá ser recebido em uma transação anunciada, como uma oferta para fechamento de capital. A equipe avalia o prazo até a conclusão, o custo de oportunidade e a possibilidade de o negócio não se concretizar.
“Esse desconto existe porque, mesmo com ele se oferecendo para pagar, ainda tem algum risco da operação dar errada”, explica.
O fechamento de capital do Carrefour Brasil foi um dos exemplos citados na entrevista. Segundo Leite, o fato de o comprador ser o próprio controlador reduzia algumas das incertezas normalmente presentes em aquisições. A equipe também considerava que o preço oferecido era baixo e enxergava a possibilidade de uma melhora na proposta caso faltasse apoio dos acionistas.
“Ele já conhecia a empresa melhor do que ninguém”, afirma. A análise da equipe indicava que o controlador teria espaço para melhorar a proposta: “Ele sobe um pouco o preço, deixa todo mundo feliz e consegue fazer a operação.”
Na avaliação do gestor, a revisão da oferta e a possibilidade de receber ações do Carrefour na França abriram oportunidades adicionais. A equipe utilizou uma posição vendida no papel francês para capturar a diferença entre as alternativas de pagamento. A posição no Carrefour Brasil chegou a representar entre 7% e 8% do patrimônio do fundo, de acordo com Leite, e bateu CDI + 18% em poucos meses.
O tamanho da alocação, diz ele, depende da relação entre o ganho potencial e os riscos identificados. O conhecimento da regulação local também é parte central da análise: as obrigações do comprador, as condições da oferta e as aprovações necessárias podem alterar a atratividade de cada operação.
“A gente calibra muito pelo risco”, explica. “Tem que ter uma expertise local muito sólida.”
Derivativos como proteção e fonte de retorno
Outra contribuição importante em 2025 veio das opções. Leite explica que uma carteira comprada em volatilidade pode funcionar como proteção para as posições em ações, especialmente em movimentos bruscos de mercado.
Em condições normais, essa proteção tem um custo de carregamento. A expectativa é que a valorização da carteira de ações compense esse custo. Diante de um choque, os derivativos podem ganhar valor e amortecer as perdas das posições compradas, embora essa compensação dependa da estrutura e do movimento dos ativos.
“Quando está tudo bem no mercado, a volatilidade geralmente está barata, então a gente compra, mesmo que a gente não esteja vislumbrando nenhum cenário de um risco muito alto”, explica. A lógica é montar a proteção quando o mercado ainda não embute um prêmio elevado por um perigo evidente.
“Grande parte dos grandes sustos do mercado são com coisas que você não está vendo”, afirma.
A estratégia também pode contribuir quando a bolsa sobe rapidamente, como ocorreu em parte de 2025, segundo Leite. Nesse cenário, tanto as ações quanto determinadas posições em opções podem ganhar. Já uma queda lenta pode ser desfavorável nas duas frentes: a carteira perde valor e o custo de carregar as opções continua pesando.
Para o gestor, o resultado do ano passado ilustra a busca por diferentes fontes de geração de alfa. “Não são coisas relacionadas a estar simplesmente comprado e a bolsa subiu”, diz, referindo-se às principais contribuições para o desempenho.
O que mudou em 2026
No início de 2026, o fundo se beneficiou de posições em Petrobras e Vale. Leite associa o movimento daquele período à entrada de investidores estrangeiros em commodities e ativos físicos. Ao longo de fevereiro, porém, a equipe avaliou que parte da valorização já havia ocorrido e começou a reduzir essas posições.
“A gente olha para esses setores sem preconceito nenhum”, afirma o gestor, que começou a carreira como analista de commodities. “A gente, de fato, se achar bom, vai ter.”
Segundo seu relato, a escalada do conflito envolvendo o Irã alterou o cenário. A alta do petróleo favoreceu empresas do setor justamente quando a carteira estava menos exposta. Ao mesmo tempo, a pressão sobre as expectativas de inflação e juros prejudicou posições ligadas à atividade doméstica.
“As nossas posições, em nomes mais domésticos, eram bastante dependentes de juros. E, quando os juros subiram, elas performaram mal”, explica.
O fundo continuava com exposição a petróleo, mas em proporção inferior à do índice, segundo o gestor. Assim, a contribuição positiva dessas posições não impediu uma diferença de desempenho em relação à bolsa.
O que Leite espera depois das eleições
Na conversa, realizada antes do primeiro turno, Leite tratava a eleição como um evento que exigia cautela na construção da carteira. A prioridade era selecionar empresas capazes de atravessar diferentes resultados, em vez de concentrar a estratégia em uma aposta eleitoral.
“A gente tem buscado coisas que sobrevivem a qualquer cenário. Empresas boas, etc. Que vão passar bem em qualquer cenário”, afirmou.
Embora evite concentrar a carteira em um resultado eleitoral, o gestor mantém uma visão construtiva para um horizonte mais longo. Sua expectativa é que haja algum ajuste econômico em qualquer dos cenários, ainda que a intensidade e o formato sejam diferentes.
“A gente tem uma visão que, em ambos os cenários, algum tipo de ajuste vai acontecer. Então, pode mudar a magnitude, o formato”, afirmou.
Essa leitura sustenta sua avaliação de que os preços das ações oferecem uma margem favorável para quem olha além da reação imediata à eleição. Leite não estabelece uma meta de retorno para o fundo nem uma data para a recuperação, mas menciona um horizonte de seis meses a um ano.
“Não sei se vai acontecer no dia seguinte da eleição, mas comprando nesse preço, em seis meses a um ano, acho que você não vai ter grandes problemas”, disse. A fala expressa uma expectativa do gestor, condicionada aos preços que observava na entrevista e ao cenário econômico que se desenhará.
O capital brasileiro pode puxar o movimento
Para ele, uma eventual melhora das perspectivas brasileiras poderia mobilizar principalmente recursos de investidores locais hoje alocados em renda fixa. “Eu acho que vai ser muito mais o brasileiro colocando dinheiro para trabalhar”, disse.
O gestor avalia que a incerteza política pesa mais sobre os investidores locais do que sobre os estrangeiros com quem conversa. Ao mesmo tempo, a remuneração da renda fixa reduz a urgência de assumir risco em ações.
“A renda fixa paga bem, o risco para frente é binário. Então, está todo mundo um pouco esperando. Eu acho que é esse dinheiro que deveria se mover ao longo do tempo”, afirmou.
Essa possibilidade depende, em sua avaliação, das políticas implementadas e de sinais que sustentem uma queda dos juros. O gestor considera os preços da bolsa atrativos, mas destaca a importância de enxergar uma redução duradoura do custo do dinheiro.
Questionado sobre uma eventual alta da bolsa após uma mudança de governo, Leite associa a sustentação do movimento à qualidade das sinalizações econômicas. “Se as sinalizações forem boas, eu acho que vai ser fundamentado”, disse. “Não me parece uma coisa com cara de voo de galinha.”
“Precisa ser um movimento que você acredite que ele caia e possa ficar por lá, e não que ele caia e volte”, afirma.
Uma perspectiva mais clara de redução dos juros também pode mudar a composição da carteira. Segundo Leite, as small caps tendem a encontrar um ambiente mais favorável com juros baixos. Enquanto essa trajetória não está clara, a preferência é por empresas de maior e médio porte.
“Quando o juro está baixo, ou está com a perspectiva de baixar, acho que a gente pode ter uma alocação maior em small caps”, afirmou. O ajuste dependerá da avaliação do cenário, sem uma mudança de portfólio previamente definida para cada resultado eleitoral.
Captação perdeu velocidade
O resultado de 2025 também ajudou a atrair investidores. Segundo Leite, a captação acelerou na segunda metade daquele ano e permaneceu forte no começo de 2026, mesmo em um ambiente de resgates na indústria. Desde março, porém, o fluxo líquido passou a ficar próximo do equilíbrio.
O gestor informou que a captação acumulada no ano ainda era positiva, mas não apresentou o valor durante a entrevista. Entre os investidores que chegaram ao fundo estão clientes de varejo por meio de plataformas e investidores latino-americanos, incluindo family offices.
Na sua avaliação, o desempenho mais lateral da carteira e a espera por maior clareza eleitoral contribuíram para a desaceleração dos aportes. O interesse pelo Brasil continuava presente, mas ainda não se traduzia em uma nova rodada relevante de recursos estrangeiros para o fundo.
“Não tem tido dinheiro novo do estrangeiro. O que tem tido muito é muito interesse”, disse Leite. Em uma conversa recente com investidores, relatou ter reunido mais de 100 participantes. As dúvidas envolviam os candidatos, o calendário eleitoral e os riscos de investir antes ou depois da votação.
