Os fundos negociados em bolsa (ETFs) sob gestão atingiram neste ano níveis recordes de mais de US$ 22 trilhões, mas a evolução dessa indústria varia consideravelmente entre as regiões geográficas. Essa situação apresenta uma série de desafios e oportunidades únicos tanto para os promotores quanto para os distribuidores, segundo revela um estudo elaborado pela Brown Brothers Harriman & Co. (BBH). O recente evento da BBH realizado em Londres, intitulado “O mundo dos ETFs: perspectivas regionais, visões globais”, apresentou os pontos de vista dos especialistas da empresa sobre as principais diferenças regionais e os desafios enfrentados pelo setor.
Desafios do mercado americano
O responsável pelos serviços de ETFs nos Estados Unidos da BBH, Tim Huver, destacou a posição do país como o mercado de ETFs mais maduro e inovador do mundo.
Segundo Huver, as estruturas de ETFs ativos representam agora a grande maioria dos novos lançamentos de fundos nos Estados Unidos, atraindo uma parcela desproporcional das entradas líquidas. Também apontou a crescente inovação em produtos em áreas como a conversão de fundos de investimento em ETFs e de classes de ações, a clonagem de fundos e os benefícios mais amplos do apoio da legislação tributária americana aos ETFs.
No entanto, apesar da expansão do negócio de fundos negociados em bolsa nos Estados Unidos, ainda existem desafios no mercado americano. “Em muitos sentidos, as barreiras de entrada no mercado nunca foram tão baixas, mas persistem alguns obstáculos de distribuição, especialmente nas plataformas de gestão patrimonial e nos wirehouses, cujos requisitos em relação ao histórico de desempenho, aos níveis de ativos e à liquidez podem ser restritivos”, afirmou Huver.
O potencial da América Latina
O debate sobre a América Latina concentrou-se menos na inovação de produtos e mais no acesso ao mercado e na distribuição. O mercado de investimentos latino-americano sofre com a falta de harmonização regional, segundo a BBH. Daniel Montoya, diretor de gestão de relacionamentos para as Américas da BBH, descreveu como cada mercado local tem requisitos regulatórios, tributários e operacionais distintos, o que gera uma complexidade significativa para os gestores de ativos e seus distribuidores.
“O sucesso dos ETFs nesse mercado depende muito menos do lançamento de novos produtos e muito mais de conseguir parceiros locais de distribuição sólidos e estabelecer relações com os formadores de mercado locais, assim como de compreender o comportamento dos compradores institucionais e adaptar as estratégias país por país”, afirmou.
Apesar desses desafios, Montoya acredita que existe uma grande margem de crescimento nos mercados regionais e locais de ETFs.
“Embora os mercados locais de ETFs continuem relativamente pequenos, a demanda por exposição a ETFs globais já é considerável em países como México e Chile, enquanto o Brasil construiu uma sólida base de investidores de varejo em ETFs”, apontou.
Evolução na Europa
Andrea Murray, diretora de serviços de ETFs para EMEA da BBH, descreveu a adoção regional dos ETFs como um fenômeno impulsionado cada vez mais pelos planos de poupança, pelas plataformas de investimento, pelas reformas da previdência e pelas iniciativas governamentais destinadas a incentivar a transição da poupança para o investimento.
Murray destacou o crescimento das colaborações entre plataformas, os ETFs com marcas compartilhadas e o lançamento, pelos bancos, de seus próprios produtos de fundos negociados em bolsa como importantes avanços estruturais.
A adoção dos ETFs ativos varia entre as regiões geográficas e, embora eles ainda representem uma pequena parte do mercado europeu como um todo, Murray apontou que estão “crescendo rapidamente” devido às mudanças regulatórias que tornam esse formato mais atraente para os gestores ativos tradicionais. “A transparência europeia e as mudanças regulatórias — como os avanços em direção a uma União de Poupança e Investimento (SIU) — estão acelerando o lançamento de ETFs ativos. A Europa também está abrindo a distribuição de varejo em mercados como a Alemanha, e estamos observando uma crescente adoção de produtos de ETFs geridos ativamente”, afirmou.
No entanto, Murray também identificou alguns desafios importantes do mercado, entre eles a necessidade de contar com conhecimentos especializados em mercados de capitais relacionados aos ETFs em uma região na qual ter parceiros de distribuição de qualidade e com amplo conhecimento também pode ser fundamental para o sucesso. “O conhecimento especializado em mercados de capitais continua sendo o maior desafio operacional para os novos emissores na Europa”, acrescentou.
Fragmentação asiática
Chris Pigott, diretor de serviços de ETFs para a Ásia da BBH, descreveu a região como um mercado “próspero”, embora “multifacetado e fragmentado”, que está passando por mudanças rápidas.
Ao descrever algumas tendências de mercado específicas observadas na Ásia, Pigott acrescentou que os programas “Connect” de ETFs com a China continental criam oportunidades importantes de crescimento transfronteiriço, enquanto os canais digitais de distribuição também estão ganhando cada vez mais importância em mercados como Hong Kong.
“Os investidores de varejo continuam tendo uma grande influência nos mercados asiáticos, embora seu comportamento possa variar drasticamente de um mercado local para outro. O mercado está evoluindo rapidamente, e as aprovações de ETFs pela China continental poderiam abrir um novo mercado importante na região”, afirmou.
Conclusões
Em última análise, os ETFs deixaram de ser uma simples categoria de produtos para se tornar um veículo de investimento verdadeiramente global, e o desenvolvimento dos ETFs ativos se tornou uma tendência de crescimento mundial cada vez mais dominante.
Com os Estados Unidos à frente da inovação, a Europa está impulsionando a distribuição de varejo e a adoção de estratégias ativas por meio de mudanças regulatórias. Por sua vez, a Ásia está criando novos modelos de crescimento, enquanto a América Latina continua apresentando um importante potencial de mercado inexplorado. Nesse contexto, a empresa acredita que os investidores de varejo estão ganhando cada vez mais importância em todas as regiões.
Os especialistas apontaram de forma consistente a distribuição como o principal fator que determina o sucesso, chegando, em muitos casos, a ser ainda mais importante do que a criação de produtos. Do lado negativo, há indícios, especialmente na Europa, de escassez da tão necessária experiência em mercados de capitais especializada em ETFs.
Ainda assim, em todas as regiões, os especialistas concordaram que a combinação de ETFs ativos, crescimento dos investidores de varejo e melhoria da infraestrutura de distribuição está ajudando a moldar a próxima fase de expansão do setor.



