Como parte de sua agenda de reformas econômicas — e com o impulso da aprovação da megareforma chamada Lei de Reconstrução Nacional e Desenvolvimento Econômico e Social —, o governo do Chile anunciou uma reforma do mercado de capitais, com o objetivo de dinamizar o mercado local. Esse anúncio, afirma Hugo Rubio, CEO da BTG Pactual Corredora de Bolsa, é uma boa notícia e um passo na direção correta. No entanto, um desafio fundamental daqui para frente é materializar a melhora das expectativas e convertê-la em mais crescimento na economia real.
“No papel, a reforma parece bastante boa”, comenta o executivo em entrevista à Funds Society, destacando o esforço realizado pelo governo nessa iniciativa, conhecida popularmente como MK4. Daqui para frente, Rubio ressalta que ainda é necessário aperfeiçoar a proposta, em diálogo com o setor privado, e “ver o que mais podemos fazer para crescer”.
Agora, viria um período de discussão técnica e consulta com contrapartes e participantes do setor, ajustando detalhes nas diferentes verticais do projeto. Além disso, resta observar as determinações que serão tomadas pelo regulador local, a Comissão para o Mercado Financeiro (CMF). “Há muitas questões que a CMF vai determinar, então também é preciso ver qual é o plano deles”, afirma Rubio.
O executivo do BTG Pactual também destaca que a proposta busca concretizar o objetivo de transformar o Chile em um hub financeiro regional relevante. “As medidas que estão tomando, como a internacionalização do peso chileno, são coisas que estão seguindo um bom caminho”, destaca.
Agora, há um dilema crucial: o que falta para que as boas perspectivas se convertam em liquidez no mercado e em ventos favoráveis para as cotações locais? Para Rubio, a chave está na economia real.
O desafio pendente da reativação
Um sintoma da dinâmica de liquidez no mercado de capitais chileno é a escassez de IPOs no país. O último celebrado pelo país foi o da Cencosud Shopping, braço de shopping centers do grupo de varejo, em 2019. Desde então, houve tentativas, como Athena Foods — spin-off da brasileira Minerva — e Tecno Fast, mas elas não chegaram a se concretizar.
O que falta para recuperar o dinamismo? Para o CEO da corretora do BTG Pactual, é crucial que a economia esteja em melhores condições. “Já tivemos o rally pelas expectativas de mudança política”, comenta, “mas agora é preciso que existam incentivos para que as pessoas invistam”.
Embora os avanços legislativos tenham dado bons sinais ao mercado, agora os investidores esperam ver algo mais concreto. “A reforma é um excelente começo, mas também é preciso que isso se traduza em investimento no mundo real”, afirma o profissional. E, para isso, é necessário que os investidores vejam a economia crescer.
“Os dados econômicos que temos são bastante fracos”, lamenta Rubio, acrescentando que, na instituição de origem brasileira, as estimativas de crescimento potencial para 2026 foram revisadas, de mais de 2% para um teto de 1%, com viés de baixa. “Isso não é um crescimento nada atrativo”, alerta.
Outra frente relevante é atrair o capital internacional. Para reativar o mercado, explica, é necessário que novos recursos entrem nos ativos locais.
O rally da bolsa despertou algum interesse local, e a expectativa é que a valorização das cotações e a mudança no regime de investimentos dos fundos de pensão tragam algum fluxo, mas o investidor estrangeiro é o investidor marginal adicional que ainda falta, segundo o executivo.
Uma regulamentação que impulsione
O esforço para dar novo fôlego ao mercado de capitais tem a regulamentação como um fator relevante. O projeto da MK4, por exemplo, inclui medidas que buscam tornar os mercados mais eficientes, em questões como a listagem de valores mobiliários de oferta pública.
Essas fricções tornam-se especialmente relevantes considerando que as empresas latino-americanas estão, de fato, buscando acesso aos mercados, mas não necessariamente em suas próprias jurisdições. Rubio lembra que o último IPO de uma empresa chilena ocorreu neste ano, quando a Ticketplus foi listada em Nova York, em uma operação que captou US$ 15 milhões.
E não é uma questão exclusiva do Chile. A mineradora mexicana Sinda também recorreu à bolsa de Nova York em busca de recursos, com uma abertura de capital que lhe proporcionou US$ 213 milhões neste ano.
“Precisamos que a regulamentação continue se desenvolvendo para facilitar” os processos, ressalta Rubio, acrescentando que o Chile possui períodos de aprovação extensos para esse tipo de transação. “É uma enorme desvantagem competitiva”, alerta.
Outra frente interessante são os instrumentos internacionais listados na bolsa local. Segundo o profissional, o maior interesse por ativos offshore tem sido impulsionado por todos os tipos de investidores no país. Para ambos os grupos, a questão central têm sido os benefícios tributários oferecidos por esse tipo de instrumento listado. “Isso vale tanto para o varejo quanto para os institucionais. Eles não querem dor de cabeça”, comenta.
Nesse sentido, o executivo destacou o potencial da integração das principais bolsas do Chile, Peru e Colômbia, atualmente em andamento. “Vejo algum valor no fato de que os três mercados integrados serão muito maiores do que a soma de suas partes”, comenta. Essa união, acrescenta, eliminará as barreiras de acesso aos capitais andinos, além de aproveitar a familiaridade entre os investidores dos três países, que compartilham muitos negócios.



