Consolidado como um dos eventos mais importantes do calendário da indústria financeira chilena, o BTG Pactual celebrou seu tradicional seminário Latam Focus no Chile. E esta edição – a décima terceira – teve uma particularidade: tornou-se a vitrine na qual o novo presidente do país andino, José Antonio Kast, apresentou seu recém-lançado projeto de reativação econômica à crème de la crème dos capitais locais.
Diante de uma atenta audiência de cerca de mil pessoas, no salão de conferências do Hotel W Santiago – acompanhados por um número similar de pessoas conectadas ao streaming do evento –, e a poucas horas de assinar o projeto de lei junto ao ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, o mandatário delineou a iniciativa que busca pôr fim a uma década de estagnação.
Junto com críticas à condução econômica do governo anterior, Kast ressaltou que o cenário atual está “cheio de ruído” e fez um chamado à indústria financeira para “distinguir entre os sinais e o ruído”. Além disso, solicitou à audiência de profissionais financeiros e investidores que repatriassem os capitais que saíram do Chile, já que “não havia certezas” nos últimos anos. “Voltem a investir no Chile”, pediu.
Desde a campanha presidencial do ano passado, Kast vem destacando a reativação econômica como o fator crucial de seu programa. “Recebemos um Chile que, nos últimos 12 anos, vem crescendo a 2%”, disse em seu discurso, com aumento do desemprego, da dívida pública e da violência.
A agenda econômica de La Moneda
A iniciativa – intitulada Projeto de Lei de Reconstrução Nacional e Desenvolvimento Econômico e Social – contém uma série de medidas, incluindo mudanças nas regras de heranças e doações, redução da carga tributária, isenção temporária de IVA para habitação, medidas de apoio às PMEs e redução dos prazos de aprovação ambiental para projetos de investimento.
A medida central, dado o público presente, é a redução do imposto corporativo, de 27% para 23%, junto com a criação de uma garantia de invariabilidade tributária, para promover o investimento no país. “Temos que gerar mais certeza, menos incerteza, e isso vai trazer crescimento”, comentou.
Outro eixo crucial do projeto econômico da nova administração é a “reconstrução fiscal”. O objetivo, indicou Kast, é sanear as finanças públicas para apoiar benefícios sociais. “O que estamos buscando não é um ajuste ideológico; é um ajuste real”, afirmou.
O seminário do BTG também contou com uma apresentação de Francisco Pérez-Mackenna, ministro das Relações Exteriores – e ex-executivo de destaque do Grupo Luksic –, que afirmou que seu ministério dará prioridade à segurança, ao crescimento e à construção de relações de confiança na política externa do Chile
Nesse sentido, o secretário de Estado destacou a importância do capital humano. “Para impulsionar o crescimento, temos que atrair, formar e reter talentos”, afirmou, classificando essa variável como “determinante da produtividade”.
O momento da América Latina
A parte internacional, como é tradição no seminário, ficou a cargo de André Esteves, Chairman do BTG Pactual. Em conversa com Michael Stott, editor do Financial Times, o empresário brasileiro descreveu um contexto relativamente favorável para a América Latina, em meio às turbulências.
No cenário atual, ressaltou, “o mais relevante que está acontecendo é um reposicionamento dos portfólios globais, fora dos Estados Unidos”. Mais do que capitais desinvestindo na maior economia do mundo, o que se observa é uma maior diversificação nos novos fluxos.
Esse contexto pode ser benéfico para os mercados latino-americanos, que contam com boas condições para captar capital. Isso, explicou, porque a região não tem conflitos bélicos, possui políticas favoráveis aos negócios, valorizações mais baixas que Wall Street, commodities de diversos tipos e energias de baixo custo.
“É um bom momento para a América Latina”, disse Esteves. Ainda assim, mais do que aplicar modelos de negócios que não se ajustam à lógica latino-americana, o executivo fez um chamado para “exportar nossas fortalezas” e “explorar no que somos bons”.
Em relação aos Estados Unidos, o presidente do conselho do BTG acrescentou que o cenário global atual deixa o país cercado por mais incerteza geopolítica, com níveis de confiança em dúvida e questionamentos sobre “até onde pode ir a instrumentalização do dólar” no plano internacional.



